Política e Resenha

Prefeita Sheila Lemos, a Casa Glauber Rocha espera por sua assinatura na história

Prefeita Sheila Lemos, a Casa Glauber Rocha espera por sua assinatura na história

 

 

Por Padre Carlos

Vitória da Conquista já emprestou o nome de Glauber Rocha a aeroportos, teatros e avenidas. Falta, agora, o gesto que só a atual gestão parece ter coragem política de concluir: transformar a casa da infância do cineasta em museu vivo. Um apelo direto à prefeita que já provou, em outras frentes, seu compromisso com a cultura conquistense.

Muito se fala sobre Glauber Rocha, cineasta nascido em Vitória da Conquista que, ainda jovem, projetou-se internacionalmente como um dos maiores nomes do Cinema Novo brasileiro. Glauber Pedro de Andrade Rocha (1939–1981) segue sendo lembrado mundo afora: retrospectivas em cinematecas europeias, referências acadêmicas em cursos de cinema, citações em festivais que discutem cinema político e de autor. Na Bahia, esse reconhecimento já tomou forma concreta em diversos equipamentos públicos — o Aeroporto Glauber Rocha, o Teatro Glauber Rocha, dentro da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), e o Complexo Cultural Glauber Rocha, na Avenida Brumado. Falta apenas uma peça nesse mosaico: a casa onde o cineasta viveu a infância, na Rua Dois de Julho, hoje sob domínio da Prefeitura e à espera de se tornar, finalmente, o museu que a cidade promete há anos.

É por isso que este texto se dirige diretamente à prefeita Sheila Lemos. Não como cobrança vazia, mas como reconhecimento de que a senhora já demonstrou, à frente da gestão municipal, sensibilidade com pautas de cultura e patrimônio — e que é justamente esse histórico que nos dá confiança de que a Casa Glauber Rocha, sob sua liderança, poderá deixar de ser promessa e se tornar, enfim, realidade.

Uma câmera na mão, uma cidade na origem

Antes de se tornar um dos rostos mais conhecidos do cinema brasileiro no exterior, Glauber foi menino de Vitória da Conquista. Viveu no município até os nove anos, quando a família se mudou para Salvador — cidade onde ingressaria na faculdade de Direito, abandonada em favor do jornalismo e da crítica de cinema, caminho que o levaria a dirigir seu primeiro curta-metragem ainda no fim da década de 1950. Nos anos seguintes, tornou-se um dos principais nomes do Cinema Novo, movimento que, ao lado de realizadores como Nelson Pereira dos Santos, propôs um cinema brasileiro engajado, popular e visualmente rebelde — em ruptura com os padrões do cinema comercial hollywoodiano e europeu.

Filmes como Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe consolidaram sua reputação como cineasta político, disposto a expor as contradições sociais do sertão e do país. Ainda nos anos 1960, Glauber sistematizou o que ficaria conhecido como a “estética da fome”: a ideia de que a violência e a precariedade do subdesenvolvimento latino-americano deveriam aparecer na tela sem disfarce, como forma legítima de expressão artística e política. Foi essa radicalidade formal e discursiva que o projetou para festivais como Cannes e para um lugar permanente na história do cinema mundial.

“Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça.”
— Glauber Rocha, síntese de seu método de fazer cinema

A frase, hoje repetida como lema por gerações de cineastas independentes, resume o espírito de um artista que fez de recursos escassos matéria de invenção. Talvez seja essa mesma lógica — fazer muito com o que se tem, com criatividade e determinação — que a prefeita Sheila Lemos precisa agora aplicar à frente da administração municipal para tirar do papel o projeto do museu.

Uma gestão que já mostrou compromisso com a cultura

A aquisição do imóvel da Rua Dois de Julho pela Prefeitura de Vitória da Conquista foi  fruto de anos de diálogo entre o poder público e a família de Glauber Rocha, um processo que atravessou gestões e que, sob a liderança atual, precisa avançar. Esse é justamente o tipo de decisão que exige visão de longo prazo e disposição para lidar com burocracia, negociação fundiária e articulação institucional — atributos que a gestão da prefeita Sheila Lemos já demonstrou possuir em outras frentes da administração.

Falar em preservação cultural é fácil; executá-la, sabemos, esbarra em orçamento, prioridades concorrentes e complexidade técnica de restauro. Mas é exatamente diante desse tipo de desafio que uma liderança comprometida com a cidade tem a oportunidade de deixar sua marca. A Casa Glauber Rocha não precisa ser apenas mais um imóvel histórico na lista de intenções da Prefeitura — pode, sob esta gestão, tornar-se o símbolo de uma administração que uniu discurso e prática na defesa da memória conquistense.

Um apelo direto à prefeita Sheila Lemos

Prefeita, a senhora já provou, à frente da gestão municipal, que compreende o valor da cultura para a identidade e o desenvolvimento de Vitória da Conquista. Temos confiança de que, sob sua liderança, a Casa Glauber Rocha finalmente deixará de ser um projeto anunciado para se tornar um museu aberto ao povo — o resgate definitivo da memória do maior cineasta que esta cidade já viu nascer.

O que a cidade ganha com o museu concluído

Não se trata de nostalgia nem de culto ingênuo à figura de um único homem. Trata-se de entender que patrimônio histórico é ativo coletivo — cultural, educativo e também econômico. Cidades que souberam transformar a casa de seus artistas em espaços vivos de visitação e pesquisa colhem, décadas depois, um turismo cultural qualificado, capaz de atrair pesquisadores, cineastas, estudantes e curiosos de todas as partes. Vitória da Conquista já tem o nome de Glauber espalhado por sua paisagem urbana; com a conclusão do museu sob a atual gestão, passará a oferecer também o lugar — um roteiro cultural coerente ao lado do Aeroporto, do Teatro da UESB e do Complexo Cultural, todos batizados em homenagem ao cineasta.

Há também uma dimensão simbólica que ultrapassa o turismo: entregar essa obra concluída à população é afirmar, com gesto concreto, que esta gestão valoriza a história da cidade para além dos discursos de inauguração. É a diferença entre uma administração que apenas nomeia espaços e uma que efetivamente devolve à cidade os lugares de sua própria memória.

Glauber Rocha morreu aos 42 anos, no Rio de Janeiro, em agosto de 1981, vítima de complicações respiratórias graves após adoecer durante uma passagem por Portugal. Mais de quarenta anos depois de sua morte, seu nome segue circulando entre festivais, cinematecas e programas acadêmicos ao redor do mundo. Agora, é Vitória da Conquista quem tem a chance de devolver a essa história um capítulo à altura — e confiamos que, com a prefeita Sheila Lemos à frente, esse capítulo finalmente será escrito.

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