Padre Carlos
Há frases que envelhecem. Outras atravessam o tempo e se transformam em patrimônio moral de uma sociedade. Entre estas está a sentença pronunciada por Zezéu Ribeiro quando se insurgiu contra a decisão de retirar do aeroporto de Salvador o nome 2 de Julho para homenagear Luiz Eduardo Magalhães.
Com a serenidade dos homens que compreendem o peso da história, Zezéu afirmou:
“Nenhum homem é maior que a saga de um povo.”
Não era apenas uma crítica a uma mudança de nome. Era uma defesa apaixonada da memória da Bahia.
O 2 de Julho não representa um governo, um partido ou uma família política. Representa o dia em que o povo baiano escreveu, com sangue, coragem e esperança, uma das páginas mais gloriosas da formação do Brasil. Foi nessa data que soldados, negros, indígenas, mulheres, homens livres e escravizados expulsaram definitivamente as tropas portuguesas, consolidando a Independência em território brasileiro.
Poucas datas carregam tamanho significado histórico.
Por isso, transformar um símbolo coletivo em homenagem individual sempre desperta uma questão que ultrapassa a política: até que ponto um homem pode ocupar o espaço reservado à memória de um povo inteiro?
A resposta de Zezéu Ribeiro continua atual porque nasce da própria essência da democracia. As grandes conquistas populares pertencem à coletividade. Não podem ser reduzidas às conveniências do momento nem às disputas de poder.
Governantes passam.
Partidos mudam.
Lideranças surgem e desaparecem.
Mas a história permanece.
Quando uma sociedade preserva seus símbolos, preserva também sua identidade. Quando esquece suas datas, seus heróis e suas lutas, perde parte de sua alma.
O 2 de Julho é muito mais que uma celebração cívica. É o testemunho de que a liberdade nunca foi concedida gratuitamente. Foi conquistada por homens e mulheres que talvez jamais tenham seus nomes registrados nos livros, mas que escreveram a história com o próprio sacrifício.
É exatamente por isso que a frase de Zezéu Ribeiro permanece tão poderosa. Ela nos recorda que nenhuma biografia, por mais respeitável que seja, pode superar a epopeia construída por milhares de brasileiros anônimos.
Neste novo aniversário da Independência da Bahia, recordar Zezéu Ribeiro é também recordar sua defesa intransigente da memória coletiva.
Porque existem homenagens destinadas aos indivíduos.
E existem símbolos que pertencem para sempre ao povo.
O 2 de Julho é um desses símbolos.
E enquanto houver baianos que compreendam o valor de sua própria história, continuará ecoando, como um chamado à consciência, a frase que Zezéu Ribeiro transformou em legado:
“Nenhum homem é maior que a saga de um povo.”





