
Padre Carlos
Houve um tempo em que junho chegava antes mesmo de aparecer no calendário.
Ele vinha no cheiro da lenha empilhada nos quintais, nas bandeirinhas coloridas tremulando sobre as ruas de barro, no som distante de uma sanfona ensaiando os primeiros acordes de uma noite que prometia durar até o amanhecer.
Hoje, porém, caminhei por uma rua qualquer do interior e senti um silêncio estranho.
Não havia fogueira.
Não havia crianças correndo com os rostos iluminados pelo fogo.
Não havia balões imaginários sendo perseguidos pelos olhos sonhadores da meninada.
Não havia sequer o perfume da canjica escapando das cozinhas.
Era junho.
Mas não parecia junho.
Foi então que compreendi que algumas mortes não acontecem nos cemitérios. Elas acontecem na memória.
O São João do Nordeste nunca foi apenas uma festa. Sempre foi uma declaração de amor à vida.
Era o momento em que o pobre e o rico compartilhavam a mesma alegria. Quando as famílias se reuniam em torno da mesa farta não porque havia abundância, mas porque havia afeto.
O milho assado tinha gosto de encontro.
O licor tinha sabor de conversa.
A fogueira tinha o calor dos abraços.
E a sanfona era o coração pulsando no peito de uma comunidade inteira.
Quem nasceu no interior sabe do que estou falando.
Sabe do estalo da madeira queimando sob o céu estrelado.
Sabe da emoção de vestir a melhor roupa para dançar uma quadrilha improvisada.
Sabe do orgulho das mães ajeitando os vestidos de chita das filhas.
Sabe do olhar dos pais observando de longe, felizes por verem os filhos crescerem sem pressa.
Aqueles eram tempos em que a felicidade custava pouco.
Muito pouco.
Talvez porque ela não estivesse à venda.
Hoje temos celulares mais modernos.
Temos internet mais rápida.
Temos inteligência artificial.
Temos telas por todos os lados.
Mas algo parece faltar.
Algo essencial.
Algo que nenhuma tecnologia consegue reproduzir.
A alma das coisas.
A memória afetiva.
O sentimento de pertencimento.
Estamos conectados com o mundo inteiro e, paradoxalmente, cada vez mais distantes das nossas próprias raízes.
O Nordeste ensinou ao Brasil que a alegria pode nascer mesmo da seca.
Que a música pode florescer mesmo na pobreza.
Que a esperança pode sobreviver mesmo quando tudo parece perdido.
Foi isso que mestres como Luiz Gonzaga compreenderam. Eles sabiam que o forró não era apenas música. Era identidade. Era história. Era resistência.
Mas o que estamos fazendo com essa herança?
Quantas festas juninas se transformaram em espetáculos sem alma?
Quantos sons da sanfona foram substituídos por músicas que nada dizem sobre nossa história?
Quantas crianças sabem dançar uma quadrilha, mas nunca ouviram falar das origens da Festa Junina?
A destruição das tradições não acontece de forma repentina.
Ela acontece em silêncio.
Acontece quando uma fogueira deixa de ser acesa.
Quando uma receita da avó deixa de ser preparada.
Quando uma criança troca a praça pela tela.
Quando uma sanfona deixa de tocar.
Quando um povo deixa de contar suas histórias.
E talvez seja por isso que a canção diga com tanta dor:
“Apagaram as fogueiras…”
Porque não fala apenas do fogo.
Fala daquilo que o fogo representava.
Comunhão.
Família.
Memória.
Raiz.
Pertencimento.
Fala de um Brasil que corre o risco de desaparecer sem perceber.
Ainda há tempo.
Ainda existem sanfoneiros espalhados pelos sertões.
Ainda existem avós ensinando receitas antigas.
Ainda existem mãos calejadas preparando o milho, o amendoim, a canjica e o licor.
Ainda existem corações dispostos a manter viva a tradição nordestina.
Mas isso exige cuidado.
Exige compromisso.
Exige amor.
Precisamos cuidar da cultura popular como cuidamos de um jardim.
Porque aquilo que não é cultivado acaba morrendo.
E quando uma tradição morre, não desaparece apenas uma festa.
Desaparece uma parte da alma de um povo.
Neste São João, antes de olhar para o palco, olhe para dentro de si.
Escute a voz da criança que um dia correu ao redor da fogueira.
Procure o cheiro da pamonha guardado em algum canto da memória.
Tente ouvir, ainda que distante, o gemido doce de uma sanfona atravessando a noite.
Talvez você descubra que a chama mais importante não é a da fogueira.
É aquela que continua acesa dentro do coração de quem se recusa a esquecer.
Porque um povo não morre quando perde suas festas.
Um povo morre quando esquece por que elas existiam.




