Cultura & Memória
Peppino di Capri: o silêncio depois do Champagne

Vitória da Conquista, 11 de julho de 2026 — Por Padre Carlos
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á vozes que não pertencem inteiramente a quem as canta. Pertencem a uma ilha, a um mar, a uma geração inteira que aprendeu a amar ouvindo-as ecoar pelas ruelas estreitas de pedra. Peppino di Capri foi uma dessas vozes emprestadas ao mundo por um pedaço de rocha mediterrânea, e agora, aos 86 anos, essa voz se cala — não desaparece, apenas muda de registro, como toda voz que se torna memória.
Giuseppe Faiella — este era seu nome de batismo, antes de o palco lhe dar outro, mais luminoso — nasceu para a música clássica e migrou, ainda jovem, para o rock que sacudia o mundo nos anos 1950. Há algo de parábola nessa travessia: quem vem da disciplina do erudito e ousa atravessar para o novo, sem medo de se reinventar, carrega consigo uma lição que poucos artistas sabem ensinar. Peppino ensinou. E ensinou tocando ao lado dos próprios Beatles, em 1965, quando foi escolhido para abrir os três shows da banda britânica na Itália — o único cantor italiano a dividir aquele palco com os garotos de Liverpool que reinventavam o século.
“Hoje a ilha perde um de seus filhos mais ilustres e amados. Uma perda imensa não apenas para Capri, mas para todo o panorama da música italiana.”
— Comunicado oficial da prefeitura de Capri
Em 1973 veio a consagração definitiva: “Champagne”, canção que se tornaria hino de uma época inteira, um brinde eterno à leveza que a Itália sabe oferecer ao mundo mesmo em seus dias mais graves. Depois vieram “Roberta” e “Un Grande Amore e Niente Più” — canções que, como todo grande cancioneiro popular, deixaram de pertencer ao autor para pertencer a quem as ouviu chorando, dançando, namorando, envelhecendo.
A voz que também foi ao Brasil
Há um detalhe que comove particularmente quem escreve deste lado do Atlântico: Peppino di Capri esteve no Brasil diversas vezes, sendo a última em 2019. Ele trouxe até nós, em carne e voz, aquilo que só a música consegue transportar sem perder a alma na viagem — o calor humano de um povo insular que sempre soube que a beleza também é forma de resistência.
O que fica quando a voz se cala
Como teólogo, aprendi a desconfiar das despedidas que soam definitivas. A morte de um artista popular tem sempre esse paradoxo fecundo: o corpo parte, mas a canção continua sendo cantada em cozinhas, em carros, em festas de bodas, em enterros — inclusive no próprio enterro de quem a compôs. Peppino di Capri morre neste sábado, mas “Champagne” ainda vai brindar gerações que sequer sabem pronunciar corretamente seu nome. Isso, talvez, seja a única forma honesta de eternidade que a arte pode oferecer: não a ausência da morte, mas a insistência da memória.
Que a ilha de Capri, hoje de luto oficial, saiba transformar a saudade em celebração — como fazem os povos que entendem a música não como fuga da vida, mas como uma de suas formas mais altas de verdade.
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Padre Carlos — Teólogo, Teólogo e colunista político




