Política e Resenha

O Café que Fez e Desfez Vitória da Conquista

O Café que Fez e Desfez Vitória da Conquista

A história completa da cafeicultura na região, contada por quem viveu o ciclo desde o início

E
sta é uma narrativa sobre a cafeicultura de Vitória da Conquista, construída a partir de dados e memórias que não estão plenamente registrados no memorial do Arquivo Público Municipal. Porque a verdadeira história de Vitória da Conquista só será de fato conhecida quando a diocese da cidade abrir aquilo que ficou trancado sob o véu religioso ao longo dos anos. Quem foi, de fato, João Gonçalves da Costa? Quem foi João da Silva Guimarães? Só quando a diocese abrir essa luz é que a verdade sobre a história de Vitória da Conquista virá à tona. O mesmo vale para a história da cultura e da catequese na cidade: muitas narrativas foram criadas com vínculo político, para projetar determinados grupos em Vitória da Conquista, e não necessariamente para contar os fatos como realmente aconteceram. A verdadeira história da cultura de Conquista ainda está por ser escrita. E é dentro desse espírito — o de registrar o que foi vivido, e não apenas o que foi narrado por conveniência — que esta história do café começa.

Os primeiros passos: coronéis, pecuária e comércio

No início do século passado, Vitória da Conquista já plantava café, ainda que de forma incipiente, por iniciativa dos coronéis da região. O Coronel Pompílio Nunes foi o primeiro a plantar e a exportar café por aqui, e não é um nome desconhecido da história de Conquista: foi intendente da cidade. Hoje, seus descendentes — bisnetos que se tornaram grandes empresários — são os chamados Irmãos Oliveira, donos de distribuidoras de veículos, de shopping centers, homens empreendedores que carregam adiante o nome da família.

Mas Conquista sempre se dedicou, sobretudo, à pecuária. A agricultura nunca foi de grande qualidade por aqui, sempre foi uma agricultura mediana. O verdadeiro tesouro econômico de Vitória da Conquista sempre foi o comércio. Foi o comércio que sustentou a cidade e a fez passar por todas as crises que o Estado da Bahia enfrentou ao longo das décadas, porque Conquista sempre teve um comércio forte, capaz de garantir sua sustentação econômica mesmo nos piores momentos.

Como o café chegou a Conquista

Voltando à cafeicultura: o café não veio para Conquista como um presente aos conquistadores, tampouco como um presente dado pelo Governo Federal por generosidade, através do IBC — o Instituto Brasileiro do Café. A cafeicultura veio como um meio de salvar a lavoura cafeeira do Brasil, porque doenças e pragas nos estados do Paraná, de São Paulo, de Minas Gerais e do Rio de Janeiro — que também foi grande centro produtor de café — estavam destruindo os cafezais. Uma dessas pragas, o chamado “bicho-mineiro”, vinha dizimando as lavouras de Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Rio de Janeiro.

Diante disso, o governo, em seu desespero, concluiu que era possível transferir a cafeicultura para o Nordeste. E assim Conquista foi zoneada para receber o IBC, com o objetivo de implantar a lavoura de café na região — isso já nos anos 1970. Veio dinheiro à rodo, como se diz: Banco do Brasil, Banco do Estado da Bahia, Caixa Econômica Federal e toda a rede particular de bancos, todos recheados de dinheiro para emprestar a quem procurasse investir em sua roça de café, fosse ela pequena ou grande.

Técnicos vieram para Vitória da Conquista, formados pela Universidade Federal da Bahia, e foram encaminhados ao Paraná, para Curitiba, para fazer um curso de preparação — porque, até então, eles haviam sido formados para produzir cana-de-açúcar, guaraná, frutas e cacau, mas não café. Não tinham esse conhecimento. Um grupo de jovens recém-formados — nove, inicialmente — foi para o Paraná e lá adquiriu os conhecimentos necessários para orientar a implantação da cafeicultura em Conquista.

O primeiro passo foi zonear quais áreas geográficas eram adequadas para o plantio: Barra do Choça, Planalto, Miodim e Encruzilhada. E então veio a implantação dessa nova riqueza, até então desconhecida dos conquistenses, que sabiam apenas tomar café, não produzi-lo. Os fazendeiros, homens que possuíam as terras, sem acreditar plenamente na cafeicultura, permitiram que seus filhos assumissem a frente da lavoura, e assim foram implantadas as primeiras roças de café em Conquista.

Houve muitos erros iniciais: áreas zoneadas que não serviam para o plantio de café acabaram plantadas mesmo assim, jogando dinheiro fora em produções insatisfatórias. Ainda assim, formou-se o polo cafeeiro de Conquista. Na realidade, Barra do Choça foi o grande centro produtor, mas produzimos café também no próprio município de Conquista, no distrito de Óbidos e em Encruzilhada.

O boom econômico e os barões improvisados

Conquista passou a ter uma movimentação gigantesca: caminhoneiros, postos de gasolina, comércio em geral, supermercados, feiras livres — todo mundo ganhava dinheiro com café. A cafeicultura absorveu praticamente toda a mão de obra improvisada da região, e vieram pessoas de várias partes para trabalhar na lavoura.

Esses cafeicultores, em sua fase inicial, tinham apenas um contato superficial com os barões do café de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraná — e acharam, de um dia para o outro, que também eram barões do café em Vitória da Conquista.

O dinheiro entrou fácil, e fácil saía das mãos desses produtores de café. Passaram a comprar carros de luxo, apartamentos, mansões — tudo com o dinheiro recebido para o plantio do café. Poucos se perguntavam se aquela riqueza tinha fundamento sólido ou prazo de validade.

Clima e solo: o verdadeiro segredo técnico

O que fez o café vir para Vitória da Conquista, unicamente, foi o clima — somente o clima. A altitude de Conquista era uma barreira natural para a proliferação do chamado bicho-mineiro, o fator principal na destruição dos cafezais de Minas, São Paulo e Paraná. Essa altitude, acima de 700 metros, essa barreira natural, impedia a proliferação da doença.

Mas o solo de Conquista era pobre para o café. Exigia muita adubação, muita pulverização — uma produção praticamente artificial. O solo pobre, enriquecido por milhares e milhares de toneladas de adubo e por milhares e milhares de toneladas de produtos para pulverização, foi o que permitiu que o café produzisse em grande quantidade em Vitória da Conquista.

Dinheiro fácil, juros simbólicos

O comércio cresceu, e os cafeicultores sonharam alto. Aqueles que foram moderados e cautelosos conseguiram, de fato, ganhar dinheiro com o café. Já os que acharam que eram barões do café — e que essa lavoura duraria dezenas ou centenas de anos, como acontece com os cafezais de Minas, do Paraná e do Rio de Janeiro, muitos dos quais têm mais de cem anos e ainda são produtivos — descobriram, com o tempo, que em Conquista não era assim. O solo era pobre; o único fator a favor era o clima e a altitude.

O dinheiro era emprestado praticamente a custo zero no que diz respeito a juros. Quando a inflação, na época, chegava a 25% ou 27% ao mês, o dinheiro dos bancos era emprestado para a produção de café a 3% ao ano. Foi esse cenário que tornou tudo tão fácil. Criou-se todo esse parque cafeeiro com apoio técnico, com a competência dos agrônomos que haviam sido preparados, e de outros que vieram depois do Espírito Santo e do Paraná.

Foi instalado em Conquista o IBC — o Instituto do Café — com toda a assistência técnica, com laboratórios altamente sofisticados para dar suporte aos produtores, e a cidade deu um salto em seu desenvolvimento econômico. Vendia-se, como se vende até hoje, mais cimento para construção do que a soma das três maiores cidades da Bahia. É esse dinheiro do café que está por trás do tamanho que Conquista ganhou.

Muita gente enriqueceu; outros se endividaram, porque não souberam administrar suas roças de café. E aí o custo começou a chegar para o produtor: aquele juro de 3% ao ano foi, gradativamente, sendo substituído pelo valor real, o mesmo juro cobrado do comércio e das demais atividades.

A recuperação do Sul e Sudeste — e a queda em Conquista

Os cafeicultores, em sua maioria despreparados para esse novo cenário, começaram a se endividar ou a abandonar suas roças de café. Porque, nesse mesmo período, os cafezais de Minas Gerais, do Paraná, de São Paulo e do Rio de Janeiro recuperaram sua condição. As terras férteis, o clima adequado e a experiência acumulada valeram muito, e o Brasil voltou a ser o grande produtor de café.

E quem foi o responsável por essa recuperação, por livrar as roças e as empresas produtoras de café do Paraná, de São Paulo, do Rio de Janeiro e de Minas da terrível doença que as afligia? Um professor de agronomia de Minas Gerais chamado Dr. João Vidigal. Foi ele o cientista que descobriu como controlar as doenças dos cafezais — o engenheiro agrônomo, o professor que se tornou um verdadeiro salvador da cafeicultura no Brasil.

O Dr. João Vidigal foi o responsável por salvar a cafeicultura no Brasil e ajudar a salvar a economia do país. Tornou-se um palestrante requisitado em todos os estados, e até no exterior, para falar sobre o café brasileiro e como aquele trabalho havia salvado a lavoura nacional.

Foi durante uma dessas palestras, no estado de Goiás, que o Dr. João Vidigal foi vítima de um infarto fulminante, e assim faleceu o cientista que salvou a cafeicultura do Brasil.

Valéria Vidigal: a herança do café e da arte

E para o orgulho de Vitória da Conquista, é filha desse cientista a grande artista clássica que temos hoje entre nós, e que vem ajudando a cidade a se desenvolver nas artes e na economia: Valéria Vidigal. Ela nasceu dentro da Universidade Federal de Viçosa, onde os professores residiam no próprio campus e onde seu pai era o grande nome da ciência cafeeira do país.

Valéria herdou o dom artístico de sua mãe, que foi uma grande artista, escultora, com obras importantes espalhadas pelo estado de Minas Gerais, e herdou do pai o talento e a vocação para a cafeicultura. Hoje, Conquista já não é mais aquele grande polo produtor de café — mas Valéria mantém sua fazenda em Barra do Choça, que hoje é justamente o centro da cafeicultura da região.

A fazenda de Valéria Vidigal se tornou um laboratório para alunos da escola de agronomia de Vitória da Conquista, da Bahia, de vários estados do Brasil e também do exterior. Muitos estudantes de agronomia vêm até a Fazenda Vidigal para adquirir conhecimento. Hoje, ela representa — é uma verdadeira embaixadora do café do Brasil no mundo árabe. Várias vezes, a convite de instituições do mundo árabe, Valéria foi expor suas obras, quase todas elas sobre café, em Dubai.

Os nomes por trás da política do café

Essa é a história da cafeicultura. Quando o projeto inicial chegou a Conquista, o prefeito era Newton Gonçalves. Newton analisou, com seus assessores, a possibilidade de implantação da cafeicultura — mas Newton era um intelectual, um advogado, um verdadeiro jurista, e acreditava que a vocação de Conquista para o desenvolvimento estava na indústria. Nos comícios e nas palestras, ele sempre citava que Conquista tinha vocação industrial, quando, na realidade, naquela época, era a agricultura a grande salvação de Vitória da Conquista. Por isso, na administração de Newton, o projeto do café andou de forma lenta.

Quando Jadiel Matos assumiu a prefeitura, havia ao seu lado Birajara Fernando, grande conhecedor de economia — talvez o maior contabilista de Conquista, um estudioso da matéria — e foi ele quem abraçou a causa de implantar a cafeicultura na cidade. A política pedia essa virada, que já estava nas mãos de Jadiel Matos, e ele se entusiasmou com a cafeicultura, dando toda a assistência necessária para implantá-la em Conquista.

O próprio Jadiel formou um grupo com os médicos Sebastião Castro, Josué Figueira e outros, para criar uma empresa dedicada à implantação da cafeicultura em Conquista — uma grande empresa do setor, chamada Cal, ligada ao grupo Samuel. De uma só vez, eles plantaram 400 mil pés de café.

Renato Rebouças, que era a maior expressão empresarial da região de Conquista, também abraçou essa causa. Contratou os melhores agrônomos da época e implantou meio milhão de pés de café na região. E assim foram surgindo outros empresários da cafeicultura, com lavouras de 20 mil, 50 mil, 100 mil pés.

Uma história vivida por dentro: o segredo dos 50 mil pés

Um desses agrônomos responsáveis pela implantação da cafeicultura foi meu colega de infância, de adolescência, colega de colégio, meu vizinho, meu amigo — e foi ele quem me convidou para me associar e implantar também uma roça de café.

“O segredo da cafeicultura em Conquista, para dar lucro, é uma fazenda que não passe de 50 mil pés de café. Todas essas grandes fazendas, de 100, 200, 400, 500 mil pés, vão ter sérios problemas pela frente.”

Foi assim que me associei a esse agrônomo, e o patrimônio que tenho hoje veio justamente através dessa parceria. Faço esta narrativa porque fui cafeicultor desde a fase inicial dessa história. Fui sócio de um dos agrônomos do IBC, que dominava o conhecimento de tudo aquilo: a forma de investir, a forma de produzir, a forma de financiar e a forma de comercializar.

Foram justamente aqueles que se mantiveram nessa faixa de produção mais modesta os que ganharam dinheiro em Conquista. Os grandes cafeicultores, praticamente todos, tiveram prejuízo. A Cal, empresa do grupo de Jadiel Matos, poucos anos depois desfez a sociedade e abandonou o plantio de café. Renato Rebouças, com seus meio milhão de pés, também viu sua produção se tornar improdutiva, dando prejuízo, até encerrar suas atividades.

O legado: cooperativas, exportação e o que restou

Conquista foi um grande produtor de café, um polo cafeeiro de grande projeção para a Bahia e para o Nordeste, que deu sustentação para que a cafeicultura brasileira ficasse em evidência. Quando os cafezais de Minas Gerais, do Paraná e de São Paulo se recuperaram, os juros favorecidos e os preços diferenciados foram retirados, e foi como um baralho: uma carta caindo sobre a outra, uma roça sendo abandonada atrás da outra, até os cafezais serem praticamente extintos na região.

Na época em que o dinheiro era fácil, e em que os cafezais de Minas, Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro estavam improdutivos, grandes roças e grandes empresas da cafeicultura desses estados abandonaram seus cafezais, enquanto aqui em Conquista a expansão se espalhava por toda a região. Foi nesse período que tínhamos, aqui, uma cooperativa funcionando 24 horas, preparando os produtos das roças. Era um café de qualidade, exportado para a Alemanha, para os Estados Unidos e para várias partes da Europa.

Esses cafezais projetaram Vitória da Conquista para a Bahia e para o Brasil. Foi por isso que a cooperativa precisou criar filiais em Anagé e em Encruzilhada, porque Conquista não tinha condições de preparar sozinha toda aquela produção.

Hoje, no município de Conquista, restam pouquíssimas roças de café. A cafeicultura da região está concentrada em Barra do Choça, e quem vem dando sustentação a essa lavoura, através de seus eventos, de sua propaganda, da divulgação do café de Vitória da Conquista, é justamente a empresa Vidigal.

O que o arquivo não conta

São essas as coisas que o arquivo público não conta, porque simplesmente não tem conhecimento desses fatos verídicos. O que está arquivado, em sua maioria, foi construído através de narrativas que buscavam projetar grupos políticos em Conquista — e não a verdadeira história da cafeicultura de Vitória da Conquista.

Hoje, é Barra do Choça quem representa o café da região — não mais Vitória da Conquista. A cafeicultura enriqueceu Conquista, capitalizou Conquista, desenvolveu Conquista. Mas, na cidade, o café hoje é apenas passado. O presente é Barra do Choça. O presente é Valéria Vidigal.

Durval Lemos Menezes


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Relato completo, em primeira pessoa, de quem viveu o ciclo do café em Vitória da Conquista desde a sua fase inicial.