
José Alcimar de Oliveira*
Para este esclarecimento [Aufklärung], porém, nada mais se exige senão liberdade. E a mais inofensiva entre tudo aquilo que se possa chamar liberdade, a saber: a de fazer um uso público de sua razão em todas as questões. Ouço, agora, porém, exclamar de todos os lados: não raciocineis! O oficial diz: não raciocineis, mas exercitai-vos! O financista exclama: não raciocineis, mas pagai! O sacerdote proclama: não raciocineis, mas crede! (Um único senhor no mundo diz: raciocinai, tanto quanto quiserdes, e sobre o que quiserdes, mas obedecei!). Eis aqui por toda a parte a limitação da liberdade (Immanuel Kant).
01. O Brasil como Estado, como Nação e como Povo, embora tenha se formado a partir da conjugação desigual de três matrizes civilizacionais, a Indígena (com sua rica diversidade étnica e submetida a brutal genocídio), a do colonizador branco da Europa (que se tinha como referência de civilização) e a dos irredentos e resistentes Povos Pretos da Mãe África (aqui submetidos à crueldade do escravismo colonial), foi subjugado, desde o limiar do século XVI, à forma medieval da cultura da cristandade. Jamais modernos, fomos involuntariamente preservados das ameaças à fé representadas pelas conquistas racionais da razão no campo da Astronomia, da Física e da Filosofia desenvolvidas por, dentre outros, pensadores como Copérnico, Galileu e Descartes.
02. Como explicar que cinco século depois do projeto colonizador ainda continuamos, em grande medida e como totalidade cultural, intocados pelas conquistas do grande racionalismo e do iluminismo dos séculos XVII e XVIII? Sem desconhecer, devo dizer, as desgraças – essas mais reais que as graças – advindas dessas grandes conquistas do humanismo renascentista, da modernidade e de seus desdobramentos, para dialogar com a tese de Habermas de que não se trata de pós-modernidade, mas de um projeto inacabado. Se para a Europa o humanismo renascentista e o racionalismo moderno representaram uma ruptura com o regime da cristandade medieval, da tutela da fé sobre a razão, para o Brasil, o que aqui aportou por meio dos instrumentos modernos, que garantiram a navegação colonizadora, foi a forma cultural prevalente na Idade Média. Nascemos medievais e chegamos à dita pós-modernidade sem os benefícios dos tempos modernos. Malefícios, sim.
03. Em que país do mundo subsiste um catolicismo mais medieval do que o do Brasil das classes populares, secularmente excluídas de sua erudita forma sacramental. O que prevaleceu e deitou raízes culturais foi catolicismo dos pobres, devocional, das procissões, das promessas, dos sacrifícios e tão funcional aos interesses das classes dominantes, de ontem, da Colônia ao Império, do Império à República – proclamada e nunca consolidada – até aos tempos, a cada dia mais regressivos, do Brasil do século XXI, em que Deus, Pátria e Família se afirmam como referência axiológica da política hegemonizada pela estranha, mas não tanto, bancada parlamentar da Bíblia, do Boi e da Bala. Estamos no país das antinomias sem estatuto kantiano. Para esses tempos de festejada e desinibida agressão ao bom senso, já seria um avanço ter acesso e poder afirmar o bom uso da razão como preconizava Descartes em seu Discurso do Método, de 1637.
04. Estamos diante de um desafio que julgo quase intransponível, sobretudo no momento atual, peculiarmente no Brasil, e que grande parte da esquerda (e não me excluo desse campo) não compreende ou se recusa a compreender: a forma e a fôrma que conformam a cultura do povo brasileiro se constitui, em sua base, de categorias do mundo religioso. Pensamos com categorias religiosas. Essa é a estrutura de nossa gramática. Nenhuma conquista de natureza iluminista, emancipatória, crítica, libertária, pode ser pensada se desconhecer e prescindir dessa base como lugar de partida. Sob essa perspectiva, pedagógica, libertadora, foi a Teologia da Libertação (TdL), referencial bíblico, teórico e pastoral de orientação das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), que produziu o mais consistente projeto de educação popular. Foi um curto-circuito cognitivo, luminoso, mas logo interrompido pela reação do longo pontificado do João de Deus, que soube mobilizar multidões e foi amplamente apoiado pelo governo Reagan.
05. Seria um equívoco teológico e sociológico dizer que a Igreja perdeu as bases. Se falamos de um modelo de Igreja, feita mais de carisma do que de poder, seguramente sim, perdeu as bases. Mas quem é a Igreja? Se falamos de Igreja como fenômeno religioso, como forma de cultura, como referência de sociabilidade, essa Igreja cada vez mais se capilariza no corpo social e se enraíza nas bases da sociedade. Quem de fato perdeu as bases foi a Igreja da Libertação, aqui compreendida como Movimento de Jesus, como eclesiologia libertária, como projeto de emancipação social. O carisma cedeu lugar ao poder. O indivíduo social, coletivo, cedeu lugar ao sujeito empreendedor, vencedor, autocentrado, orientado pelo discurso ideológico da meritocracia. O capitalismo se fez religioso e tomou, a largos passos, os rumos da direita e daí para a extrema. Desidratou o que havia de popular libertário e se tornou populista e conservador, para não dizer reacionário.
06. As esquerdas, por demais ciosas do discurso iluminista, muitas vezes cobertas de convicção ideológica e em geral alérgicas ao modo de ser, pensar e falar do povo – e aqui devem ser resguardadas as poucas exceções –, nunca se aproximaram das classes populares. Ressalvadas as hoje em franco descenso experiências das CEBs e dos Círculos Populares de leitura da Bíblia, é quase inexistente o trabalho de base de partidos e movimentos sociais que se reivindicam de esquerda. Como a política desconhece o vácuo, quem soube tirar largo proveito desse vazio foi a direita e, maximamente, a extrema direita, que hoje domina e manipula com vasta eficiência as categorias religiosas da cultura popular. Como escreve o filósofo Zé do Beco: ninguém melhor do que a esquerda para analisar a ideologia, mas quem sabe mesmo produzir e aplicar a ideologia é a direita, e, em grau máximo, a extrema direita.
07. De origem grega, a política designa, em tese, a forma mais elevada e dialética de resolução de conflitos e de produção de sínteses. Sob essa perspectiva, o fascismo, em qualquer vertente, é a negação da política, porque elide mediações e recorre ao ódio como forma de converter o adversário em inimigo. Substitui, assim, as armas dialéticas da crítica pela crítica bélica das armas. O fascismo, atualmente, mobiliza uma vasta gama de conceitos e, dentre esses, o incluo como uma terrível e massificada forma de organização política do ódio, mormente do ódio de gênese religiosa. Mira y López escreve que o ódio é uma “cólera em conserva”, “uma atitude iracunda que se cronifica”. Trata-se de um circuito cognitivo reverso, pois impede a circulação do conhecimento e substitui conceitos por palavras de ordem. Por fim, nesses tempos trevosos, se o discurso religioso não der abrigo liberdade de consciência e à inteligência da fé, como preconizava Santo Anselmo, corremos o risco, e sob disfarce republicano, de ver o Brasil se converter na maior teocracia miliciana do sul global.




