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Não é só o escândalo: é preciso entender o que está por trás do voto
Quando a rejeição ao adversário pesa tanto quanto a identificação com o próprio campo político, escândalos, lideranças e alianças passam a ser interpretados por outra lógica.
Por Padre Carlos
Eu tenho pensado numa questão que ajuda a entender muito da política brasileira: nem sempre um escândalo afasta o eleitor de quem ele já escolheu para representar o seu lado.
E é preciso delimitar bem isso.
Não estou dizendo que todo eleitor de Jair Bolsonaro pensa igual, nem que quem rejeita Lula o faz pela mesma razão. Estou falando de uma parcela do eleitorado para a qual a rejeição ao adversário pode pesar tanto quanto — ou até mais — que os problemas do próprio campo político.
É aquele raciocínio muito comum: “Posso até discordar do meu candidato em algumas coisas, mas no outro eu não voto de jeito nenhum.”
O peso do voto contra
A eleição de 2022 mostrou um Brasil profundamente dividido. Lula venceu com 50,90% dos votos válidos, contra 49,10% de Jair Bolsonaro. O número é um fato. O motivo de cada voto, porém, é outra história.
É aí que começa minha interpretação.
Não dá para entender o bolsonarismo olhando apenas para Bolsonaro, assim como não dá para compreender o lulismo olhando apenas para Lula. Existem identidades, valores, rejeições e sentimentos de pertencimento que vão muito além de uma pessoa.
Existe também o voto contra.
Tem gente que vota porque gosta de um candidato. Mas tem gente que vota principalmente porque não suporta o adversário.
E isso muda a forma como um escândalo é recebido.
Quando a identificação política é muito forte, uma denúncia pode não chegar ao eleitor apenas como um fato. Ela pode chegar acompanhada da percepção de perseguição, injustiça ou guerra política.
“Só investigam o meu lado.”
“Querem tirar ele do jogo.”
“E os outros?”
Não estou dizendo que essas frases estejam certas ou erradas em cada caso. Estou mostrando como funciona parte do raciocínio político de uma sociedade polarizada.
“Na política, muitas vezes o fato chega acompanhado da torcida.”
E isso vale para os dois lados.
Uma parcela dos eleitores pode relevar problemas envolvendo políticos ligados a Bolsonaro porque considera Lula ou o PT uma ameaça maior. Da mesma forma, uma parcela do eleitorado de Lula pode tolerar críticas ou problemas do próprio campo porque rejeita profundamente Bolsonaro e o bolsonarismo.
É a política do “qualquer um, menos aquele”.
Identidade, classe e pertencimento
É aqui que entra uma questão mais delicada.
Eu considero simplista afirmar que toda rejeição a Lula acontece por causa de corrupção, economia ou administração pública. Esses temas certamente importam para muitos eleitores, mas acredito que, em determinados grupos, existe algo mais profundo.
Existe, na minha leitura, uma dimensão social e de classe em parte dessa rejeição.
E faço questão de delimitar novamente: não estou dizendo que quem não gosta de Lula odeia pobre. Isso seria uma generalização irresponsável.
Minha leitura é outra.
Lula se transformou em um símbolo que ultrapassa sua própria figura. Para parte de seus apoiadores, pode representar ascensão social, programas públicos, inclusão e presença das camadas populares no centro do poder. Para alguns de seus adversários, está associado a uma ordem política, econômica e social da qual discordam e que desejam modificar.
É nesse ponto que questões de classe, valores e identidade se misturam.
O Brasil sempre carregou divisões sociais importantes: rico e pobre, patrão e trabalhador, centro e periferia, além de diferentes visões sobre programas sociais, papel do Estado e distribuição de renda.
Tudo isso entra na urna.
Por isso considero perigoso imaginar que o apoio a Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro nome ligado a esse campo dependa apenas da avaliação individual daquela pessoa.
Em alguns casos, o eleitor não está escolhendo somente alguém.
Está escolhendo um lado.
E muitas vezes está tentando impedir o outro.
Política não funciona como transferência bancária.
Uma fotografia cheia de prefeitos, deputados ou vereadores não significa que os votos estejam automaticamente garantidos. Lideranças influenciam, estruturas partidárias ajudam e presença territorial conta. Mas nenhuma liderança carrega, sozinha, todos os votos de uma cidade no bolso.
Liderança influencia. Eleitor decide.
Prefeito não carrega todos os votos da cidade no bolso. Deputado não entrega automaticamente seu eleitorado a outro candidato. Liderança influencia, estrutura partidária ajuda, presença territorial conta, mas o eleitor continua tendo vontade própria.
Um vota pensando no emprego.
Outro, na religião.
Outro, na segurança.
Outro, nos programas sociais.
Outro simplesmente quer impedir que o adversário vença.
É por isso que frases como “o povo pensa assim” precisam ser usadas com muito cuidado.
Que povo?
Qual classe?
Qual região?
Qual realidade?
O Brasil tem milhões de pessoas com experiências completamente diferentes.
Mas existe uma questão que considero central: aprendemos a votar também pela rejeição.
E quando a rejeição se torna muito forte, podemos acabar tolerando no nosso próprio lado aquilo que jamais aceitaríamos no adversário.
Esse comportamento não é monopólio da direita nem da esquerda.
É humano.
Somos mais rigorosos com quem está do outro lado e mais compreensivos com quem consideramos nosso.
“O problema começa quando deixamos de perguntar ‘o que aconteceu?’ e passamos a perguntar primeiro ‘quem fez?’.”
Se foi o adversário, condenamos.
Se foi o aliado, procuramos justificativa.
É aí que o bom senso começa a desaparecer.
Quando o “contra” se torna maior que o “a favor”
E talvez essa seja uma das grandes questões políticas do Brasil atual.
Não se trata apenas de Lula, Jair Bolsonaro ou Flávio Bolsonaro. Esses personagens, mais cedo ou mais tarde, sairão de cena.
O que permanece é a forma como a sociedade aprendeu a fazer política.
Isso também importa para a Bahia e para o Nordeste, porque as disputas nacionais entram nos estados, reorganizam alianças, aproximam antigos adversários e influenciam eleições locais.
Mas influência não é controle.
Ninguém é dono do voto de ninguém.
Talvez a pergunta mais importante, portanto, não seja apenas quem estará ao lado de Lula ou de qualquer liderança do campo bolsonarista.
A pergunta é outra:
Até quando vamos escolher alguém pelo que ele representa e, principalmente, pelo que desejamos impedir?
Porque quando o “contra” fica maior que o “a favor”, o debate deixa de ser apenas sobre projetos de país.
E uma sociedade que passa tempo demais escolhendo quem deseja derrotar corre o risco de esquecer aquilo que deseja construir.
Artigo de opinião
Padre Carlos
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade de seu autor.
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