Política e Resenha

Sheila governa sem adversário?

OPINIÃO

Sheila governa sem adversário?

O desgaste da oposição e o vazio político deixado pela eleição de 2024
Por Padre Carlos

Há uma frase que, embora exagerada se tomada ao pé da letra, ajuda a compreender o momento político de Vitória da Conquista: Sheila Lemos governa praticamente sem oposição capaz de lhe disputar a narrativa da cidade. Não porque inexistam vereadores, partidos ou lideranças fazendo críticas ao Executivo. Eles existem. A própria Câmara reconhece formalmente uma bancada de oposição, que tem levado ao plenário questionamentos sobre diferentes áreas da administração municipal.

O problema é outro. Uma coisa é existir oposição institucional. Outra, muito diferente, é existir um polo político oposicionista com força suficiente para organizar o debate público, impor agenda, produzir expectativa de poder e convencer uma parcela relevante da sociedade de que existe um projeto alternativo pronto para governar.

É justamente nesse segundo sentido que a oposição conquistense atravessa uma crise.

A eleição municipal de 2024 não criou essa crise. Apenas retirou as cortinas.

“A oposição perdeu mais do que uma eleição em 2024. Perdeu, naquele momento, a capacidade de se apresentar ao eleitorado como uma alternativa majoritária de poder.”

Sheila Lemos obteve 116.488 votos, correspondentes a 58,83% dos votos válidos. Waldenor Pereira, candidato do PT, ficou com 26,74%; Lúcia Rocha teve 11,14%; e Marcos Adriano, 3,29%. A prefeita venceu no primeiro turno enquanto seus três adversários, somados, alcançaram pouco mais de 41% dos votos válidos.

Mais importante que os números isoladamente é aquilo que eles revelaram politicamente: uma oposição fragmentada eleitoralmente, dividida em campos partidários distintos e incapaz de transformar a insatisfação existente em uma maioria eleitoral.

E esse talvez tenha sido o golpe político mais profundo de 2024.

A derrota que continuou depois da eleição

Toda oposição precisa saber perder uma eleição. Mas precisa, sobretudo, saber o que fazer com a derrota.

Uma derrota pode ser transformada em reorganização, renovação de quadros, revisão de discurso e construção de uma alternativa. Ou pode produzir o efeito contrário: anos discutindo os mesmos personagens, repetindo os mesmos métodos e esperando que o desgaste natural de quem governa faça sozinho o trabalho que deveria ser da política.

Vitória da Conquista parece conviver exatamente com essa dificuldade.

A disputa de 2024 teve ainda um componente adicional. A situação jurídica da candidatura de Sheila Lemos ocupou espaço considerável no ambiente eleitoral. Depois da controvérsia iniciada na Justiça Eleitoral, o Tribunal Superior Eleitoral confirmou, em março de 2025, o mandato da prefeita e afastou a tese de inelegibilidade relacionada ao exercício temporário do cargo por sua mãe, Irma Lemos.

Retrospectivamente, o episódio deixa uma lição: uma disputa jurídica pode decidir se alguém pode ou não concorrer, mas não substitui uma disputa política sobre cidade, gestão e futuro.

Quando a Justiça encerrou a questão, restou o resultado das urnas. E ele era bastante eloquente.

O ponto central
Em 2024, a oposição não perdeu somente votos. Perdeu centralidade, capacidade de agregação e, naquele momento, a condição de apresentar ao eleitor uma alternativa majoritária claramente reconhecível.

O governo ocupa o centro; a oposição reage pelas bordas

Essa ausência de um contraponto robusto produz uma consequência importante: o governo passa a definir boa parte da agenda política.

A oposição continua criticando, fiscalizando e apresentando demandas. Há atuação parlamentar, discursos duros e divergências reais. Mas essas manifestações ainda não constituem, por si mesmas, um projeto político alternativo reconhecível para a cidade.

É essa diferença que explica a sensação de que Sheila governa “sem oposição”.

Não significa silêncio absoluto.

Significa que a crítica ainda não conseguiu se transformar em uma narrativa política capaz de rivalizar, em centralidade, com o governo municipal.

Há manifestações ideológicas mais claras, especialmente vindas de setores do PT e de vereadores historicamente identificados com a esquerda. A bancada oposicionista existe e atua. Portanto, seria incorreto afirmar que não existe fiscalização, crítica ou divergência.

O que falta é outra coisa: centralidade política.

Uma oposição forte não pode aparecer apenas quando o governo erra. Precisa conseguir dizer o que faria diferente.

Não basta denunciar um buraco; é preciso apresentar uma política urbana. Não basta criticar a saúde; é necessário construir uma visão de atenção básica. Não basta questionar impostos ou estacionamento; é necessário explicar como financiar a cidade e organizar o espaço urbano. E não basta rejeitar a prefeita: é necessário construir confiança em quem pretende substituí-la.

Aí está talvez uma das maiores dificuldades do campo oposicionista atual: existem críticas, mas ainda não há um nome ou projeto que tenha conseguido concentrar claramente a expectativa de mudança.

O PT e o peso de sua própria história

Durante décadas, falar de governo ou oposição em Vitória da Conquista significava, inevitavelmente, falar do PT.

Esse cenário mudou.

O partido continua sendo uma força relevante e mantém representação parlamentar, assim como o PCdoB. Mas possuir vereadores e estrutura partidária não significa automaticamente conservar a centralidade que o campo político já teve no município.

O resultado de Waldenor Pereira em 2024, com 26,74% dos votos válidos diante dos 58,83% de Sheila Lemos, mostrou a distância eleitoral existente naquele pleito entre o principal candidato da esquerda e a prefeita reeleita.

“O problema da esquerda conquistense é apenas de nome ou também de método?”

Se a resposta for apenas trocar candidatos, provavelmente a dificuldade permanecerá.

O eleitorado mudou, a cidade mudou, a comunicação política mudou e até a maneira de exercer oposição mudou. O tempo em que estrutura partidária, militância organizada e polarização nacional bastavam para organizar uma eleição municipal parece cada vez mais distante.

A renovação, portanto, não pode ser apenas geracional. Precisa ser estratégica.

Outros atores começam a disputar esse espaço

Talvez o aspecto mais interessante do cenário atual seja perceber que a disputa pela condição de adversário do governo já não pertence exclusivamente à esquerda tradicional.

Quinho Tigre é um dos nomes inseridos nessa movimentação. Ex-prefeito de Belo Campo, ampliou sua presença no ambiente político regional e vem sendo observado por sua articulação em Vitória da Conquista. A eleição de sua esposa, Léia de Quinho, para a Câmara Municipal em 2024 deu ainda maior visibilidade ao grupo.

Isso não significa que esteja consolidado como alternativa para uma futura disputa municipal. Significa apenas que existe uma movimentação política que merece ser acompanhada.

O mesmo raciocínio vale para Marcos Adriano. Em 2024, ele terminou a eleição municipal com 6.512 votos, correspondentes a 3,29% dos válidos. Seu desafio político é transformar presença crítica e exposição pública em uma base eleitoral maior que aquela registrada nas urnas.

Há ainda Fabrício Falcão, do PCdoB, cuja trajetória e circulação política no município o mantêm presente nas discussões sobre o futuro do campo oposicionista.

São personagens diferentes, movimentos diferentes e estratégias diferentes.

E justamente aí está, simultaneamente, o problema e a possibilidade da oposição.

O adversário de Sheila ainda precisa nascer politicamente

Vitória da Conquista possui oposição parlamentar, oposição partidária, críticos nas redes sociais e lideranças regionais buscando ampliar espaço.

O que ainda não se consolidou é um centro gravitacional oposicionista.

Um nome em torno do qual diferentes grupos aceitem negociar.

Um discurso que ultrapasse as bolhas ideológicas.

Uma narrativa capaz de conversar tanto com quem rejeita a atual gestão quanto com quem votou nela em 2024, mas que poderia rever sua escolha diante de novas circunstâncias.

É por isso que dizer que Sheila Lemos governa “sem oposição” funciona melhor como uma leitura sobre o equilíbrio atual de forças do que como descrição literal.

Há oposição. O que ainda não se consolidou é uma oposição com centralidade eleitoral semelhante àquela demonstrada pelo governo municipal nas urnas de 2024.

“Um governo não precisa ser unanimidade para ocupar o centro do tabuleiro. Basta que seus adversários ainda não tenham conseguido transformar divergência em alternativa.”

A política, entretanto, dificilmente conserva espaços vazios por tempo indefinido.

Se o PT renovar sua linguagem e ampliar sua capacidade de agregação, poderá reposicionar seu campo. Se Marcos Adriano conseguir converter visibilidade em estrutura, ganhará outra dimensão. Se Quinho Tigre transformar articulação regional em presença eleitoral consistente na cidade, também poderá ampliar seu espaço. E se Fabrício Falcão ou outro nome do campo progressista conseguir aproximar correntes hoje dispersas, uma nova configuração poderá surgir.

Nada disso está definido.

A eleição estadual de 4 de outubro de 2026, por isso, também poderá fornecer indicadores sobre a presença territorial e a capacidade de mobilização das diferentes forças políticas no município, sem determinar antecipadamente aquilo que ocorrerá em 2028.

O desgaste da oposição conquistense, portanto, não pode ser compreendido apenas pelo resultado eleitoral.

É também um desgaste de identidade, centralidade e expectativa de poder.

Em 2024, Sheila Lemos venceu seus adversários nas urnas. Desde então, a questão política que permanece aberta é outra: quem conseguirá convencer Vitória da Conquista de que existe um projeto diferente e suficientemente organizado para disputar o futuro da cidade?

Até que essa resposta apareça, a prefeita continuará governando diante de críticos reais, de divergências ideológicas reais e de uma bancada formalmente oposicionista — mas sem que tenha se consolidado, até aqui, um adversário político com a mesma centralidade que o governo ocupa no tabuleiro municipal.

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Artigo de opinião
Padre Carlos
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