ARTIGO DE OPINIÃO

O adversário dentro da aliança: como o bolsonarismo complica a estratégia de ACM Neto
A nacionalização da campanha baiana não chega apenas pelo PT. Ela também atravessa alianças, palanques e interesses eleitorais existentes dentro da própria oposição.
Por Padre Carlos
Há uma frase de ACM Neto que, isoladamente, é difícil contestar: “ninguém é dono do voto de ninguém”.
O candidato ao Governo da Bahia afirmou isso nesta segunda-feira, 21 de setembro, durante sabatina do projeto Vota BN, do Bahia Notícias, ao comentar o chamado “Lula-Neto” — fenômeno representado pelo eleitor que pretende votar em Luiz Inácio Lula da Silva para presidente e em ACM Neto para governador. Neto acusou seus adversários de pressionarem o eleitor a votar em candidatos do mesmo campo político e sustentou que governos de partidos diferentes podem conviver institucionalmente.
“Ninguém é dono do voto de ninguém.” A frase é democraticamente correta. A questão é que ninguém também consegue controlar sozinho os efeitos políticos das próprias alianças.
Em princípio, está correto o fundamento democrático da afirmação: o voto pertence ao eleitor. Partido nenhum tem escritura de propriedade sobre a consciência de quem entra na cabine de votação.
Mas talvez ACM Neto esteja olhando apenas para metade do problema.
Porque a tentativa de nacionalizar a eleição baiana não chega somente pelos braços do PT. Ela também chega por dentro da própria aliança que sustenta a candidatura de Neto.
E talvez esteja justamente aí uma das maiores contradições de sua campanha.
O “Lula-Neto” não nasceu por decreto
O chamado voto Lula-Neto existe justamente porque uma parcela do eleitorado não enxerga necessariamente a eleição presidencial e a eleição estadual como um pacote indivisível.
A própria Justiça Eleitoral baiana rejeitou pedido da coligação de Jerônimo Rodrigues para retirar das redes sociais um vídeo no qual influenciadores manifestavam apoio simultâneo a Lula e ACM Neto. O episódio voltou ao centro do debate na sabatina desta segunda-feira.
Não se trata, portanto, de uma invenção retórica da campanha de Neto. Há razões eleitorais objetivas para que essa combinação seja importante.
Pesquisa Real Time Big Data realizada entre 4 e 8 de setembro mostrou Lula com 55% das intenções de voto para presidente na Bahia, contra 24% de Flávio Bolsonaro. Foram entrevistados 1.600 eleitores, com margem de erro de dois pontos percentuais.
Na disputa estadual, porém, o cenário é radicalmente mais equilibrado. No mesmo período, o levantamento registrou Jerônimo Rodrigues com 45% e ACM Neto com 44%, configurando empate técnico.
É justamente nesse intervalo que mora a questão:
um eleitorado majoritariamente inclinado a Lula na eleição presidencial convive com uma disputa praticamente empatada pelo Governo da Bahia.
Para ACM Neto, preservar a possibilidade de um eleitor votar em Lula para presidente e nele para governador não é um detalhe lateral. É uma questão relevante para a arquitetura eleitoral de sua candidatura.
Só que a nacionalização também vem de dentro
É justamente aqui que começa o paradoxo.
ACM Neto procura manter sua candidatura estadual relativamente separada da polarização presidencial. Declarou apoio a Ronaldo Caiado e tem evitado transformar sua campanha para governador em extensão da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.
Mas o PL está formalmente dentro da sua chapa.
João Roma, presidente estadual do partido e ex-ministro de Jair Bolsonaro, é candidato ao Senado pela coligação encabeçada por ACM Neto. A convenção oposicionista confirmou Roma e Angelo Coronel como os dois candidatos ao Senado.
E João Roma tem uma campanha própria.
Uma campanha que não está separada da disputa presidencial.
Pelo contrário.
Foi Roma quem esteve ao lado de Flávio Bolsonaro na agenda realizada em Vitória da Conquista no último dia 17. O candidato presidencial do PL desembarcou acompanhado do candidato ao Senado e participou de motocarreata e ato político no município.
Antes disso, no ato de 7 de Setembro no Farol da Barra, em Salvador, apareceram bandeiras reunindo as imagens de ACM Neto e Flávio Bolsonaro. A campanha de Neto declarou que não produziu aquele material e reafirmou o apoio presidencial a Caiado. O ato, entretanto, foi encabeçado por João Roma.
ACM Neto pode não querer nacionalizar sua candidatura. Mas uma parte importante de sua própria aliança possui interesses políticos que empurram a eleição baiana para o debate nacional.
O Senado tem sua própria lógica
Existe ainda outro elemento que não pode ser ignorado.
João Roma não disputa o governo. Disputa o Senado.
E a estratégia nacional do PL atribuiu peso extraordinário às eleições senatoriais de 2026. Levantamento publicado pela Folha de S.Paulo mostrou que o partido destinou R$ 91,6 milhões a 30 candidatos ao Senado em 24 estados, revelando o tamanho da prioridade conferida à composição da Casa.
Isso não demonstra que João Roma esteja deliberadamente prejudicando ACM Neto — não há base factual para afirmar algo assim.
Mas demonstra que existem interesses eleitorais diferentes convivendo dentro da mesma coligação.
O que é conveniente para um candidato a governador não necessariamente é o que maximiza os interesses de um candidato ao Senado.
ACM Neto tem interesse em ampliar sua candidatura para além do eleitorado de direita, alcançar eleitores de centro e, principalmente, não fechar a porta para os numerosos baianos que pretendem votar em Lula para presidente.
João Roma, por sua vez, integra o PL, preside o partido na Bahia e faz campanha ao Senado associado ao campo político de Flávio Bolsonaro.
Essas duas estratégias podem coexistir.
Mas também podem entrar em tensão.
A polarização atravessa a própria chapa
Quando Neto critica o PT por defender o voto casado, sua crítica contempla apenas uma direção da pressão política.
O PT tem, evidentemente, interesse em associar Jerônimo Rodrigues a Lula. A passagem do presidente pela Bahia durante a campanha foi tratada como parte da estratégia para fortalecer Jerônimo e conter o crescimento do chamado voto “LuNeto”.
Isso faz parte da estratégia eleitoral petista.
Mas existe o movimento inverso.
Quando Flávio Bolsonaro desembarca na Bahia acompanhado pelo candidato ao Senado que integra a chapa de ACM Neto; quando lideranças do PL promovem atos presidenciais no estado; quando aparecem materiais reunindo Neto e Flávio no mesmo ambiente político, ainda que sem autorização da campanha do candidato a governador, também se produz nacionalização.
Na política, os símbolos falam.
Palanque comunica.
Fotografia comunica.
Carreata comunica.
Aliança comunica.
E chapa majoritária comunica ainda mais.



