
O BOLSA FAMÍLIA, A ELEIÇÃO E A CONTRADIÇÃO DO PL
Por Padre Carlos
Há momentos em que a política brasileira produz cenas que dispensam qualquer caricaturista. A imagem que circula nas redes sociais anuncia, em letras garrafais, que o PL de Flávio Bolsonaro teria entrado na Justiça para impedir o aumento do Bolsa Família. Mas a realidade é um pouco mais complexa — e justamente por isso merece ser contada com precisão.
Quem acionou o Tribunal Superior Eleitoral foi o deputado Zé Trovão (PL-SC), aliado de Flávio Bolsonaro. O ministro André Mendonça rejeitou a ação por uma questão processual, sem analisar o mérito do pedido. E há um detalhe politicamente importante: o próprio Flávio Bolsonaro declarou depois que não havia autorizado a iniciativa e que não concordava com ela.
Mas existe uma pergunta que permanece de pé: qual é exatamente a posição do candidato do PL sobre o reajuste?
Na quinta-feira, 17 de setembro, Flávio Bolsonaro classificou o reajuste de 15,04% do Bolsa Família como ilegal e o chamou de um ato de desespero do governo Lula. Poucas horas depois, porém, afirmou que, caso seja eleito, pretende manter o reajuste.
É aqui que começa a verdadeira discussão
O governo Lula anunciou que o benefício mínimo passará de R$ 600 para R$ 691, com pagamento a partir de outubro. Segundo a Advocacia-Geral da União, trata-se de uma recomposição correspondente à inflação medida pelo INPC entre março de 2023 e agosto de 2026, e não da criação de um benefício novo. O governo também sustenta que o programa não tinha recebido correção desde a reformulação de 2023.
É legítimo questionar o momento escolhido pelo governo.
Aliás, qualquer cidadão pode fazer essa pergunta: por que um reajuste dessa natureza foi anunciado apenas 17 dias antes do primeiro turno? A proximidade com a eleição inevitavelmente coloca a medida sob escrutínio político e jurídico. Especialistas consultados pelo UOL, por exemplo, apontaram que a questão mais delicada não seria simplesmente a existência do reajuste, mas a possibilidade de caracterização de abuso de poder político ou econômico.
Mas uma coisa é discutir a legalidade e o calendário da medida.
Outra, completamente diferente, é transformar a discussão sobre o Bolsa Família numa disputa contra R$ 91 a mais no orçamento de uma família pobre.
E aqui está o ponto que merece reflexão.
O Bolsa Família não é um favor pessoal de Lula, assim como não é patrimônio eleitoral de nenhum partido. É uma política pública permanente. Quem recebe o benefício não deveria ser tratado como eleitor de Lula, de Flávio Bolsonaro ou de qualquer outro candidato. É cidadão brasileiro.
O debate sério, portanto, deveria ser outro: qual é o valor adequado do benefício? Como financiar? Qual é o impacto fiscal? Quais são os critérios de atualização? Como impedir o uso eleitoral de políticas sociais?
Essas são perguntas legítimas.
O que não ajuda o debate público é transformar o beneficiário em personagem de uma guerra eleitoral.
A contradição que permanece
Há ainda uma ironia que não pode ser ignorada.
Flávio Bolsonaro afirmou que pretende manter o reajuste caso chegue à Presidência. Então o problema apresentado por ele não parece ser necessariamente o valor de R$ 691. O problema, segundo suas declarações, está principalmente no momento e na forma como o governo Lula anunciou a medida.
E isso muda completamente a natureza da discussão.
Se o reajuste é inadequado porque foi anunciado às vésperas da eleição, a discussão é eleitoral e institucional.
Se o reajuste é inadequado porque representa despesa excessiva ou compromete as contas públicas, então é preciso apresentar números, projeções e alternativas.
Se o reajuste é ilegal, cabe à Justiça Eleitoral decidir.
Mas se o reajuste será mantido por um eventual governo Flávio Bolsonaro, como ele próprio declarou, fica evidente que não estamos diante de uma discussão simples sobre os R$ 91.
Estamos diante de uma disputa sobre quem pode apresentar ao eleitor a política social como realização de seu governo.
E esse é precisamente o tipo de disputa que precisa ser observado com cuidado.
Porque pobre não é massa de manobra.
Quem recebe o Bolsa Família não é menos cidadão porque precisa de uma política pública. E ninguém deveria imaginar que uma família em situação de vulnerabilidade recebe dinheiro público como se estivesse recebendo um presente pessoal do presidente da República.
Programas sociais pertencem ao Estado brasileiro
Governos passam.
Presidentes passam.
Partidos passam.
O direito social permanece como objeto da política pública e do debate democrático.
Também é preciso reconhecer que existe uma questão legítima levantada pela oposição: benefícios sociais não podem ser utilizados para desequilibrar eleições. Essa preocupação não é juridicamente irrelevante. Tanto que diferentes atores políticos recorreram ao TSE para questionar o momento da medida. O primeiro pedido apresentado por Zé Trovão, entretanto, foi rejeitado sem análise do mérito por uma questão processual.
Portanto, ainda há espaço para o debate jurídico.
Mas há também espaço para uma pergunta política muito mais simples:
Quando um governo aumenta um benefício social, devemos discutir o interesse do beneficiário ou apenas o eventual ganho eleitoral do governante?
A democracia exige as duas coisas
É preciso fiscalizar o governo.
É preciso fiscalizar a oposição.
É preciso fiscalizar o uso eleitoral das políticas públicas.
Mas também é preciso tomar cuidado para que, na tentativa de combater uma eventual utilização eleitoral do Bolsa Família, não se transmita ao cidadão mais pobre a impressão de que sua renda é o problema.
O problema, se houver, estará na utilização política do benefício — não na existência de uma política destinada a proteger famílias vulneráveis.
E talvez seja justamente aí que o debate brasileiro precise amadurecer.
Não se trata de ser Lula ou ser Bolsonaro.
Não se trata de ser PT ou PL.
Trata-se de saber se o Brasil consegue discutir política social, responsabilidade fiscal, igualdade eleitoral e combate à pobreza sem transformar milhões de brasileiros pobres em figurantes de uma guerra partidária.
Porque, no fim das contas, o Bolsa Família não deveria ter dono.
Nem Lula. Nem Bolsonaro.
Nem o PT. Nem o PL.
É uma política pública brasileira.
E política pública, numa democracia, deve ser discutida com argumentos — não com medo de perder votos.
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Padre Carlos
Artigo de opinião



