
A grandeza da democracia está em saber respeitar as urnas
Por Padre Carlos
Em tempos de polarização política, quando tantas vezes as paixões eleitorais se sobrepõem à razão e o adversário é tratado como inimigo, reconhecer a grandeza de um gesto democrático é também uma forma de defender o Brasil. Por isso, merece nosso reconhecimento a manifestação do presidente da Câmara Municipal de Vitória da Conquista, Ivan Cordeiro, que, com serenidade e espírito público, reafirmou valores fundamentais para a convivência democrática: o respeito às urnas, o diálogo entre os diferentes e a compreensão de que o país está acima de qualquer disputa eleitoral.
A democracia depois da apuração
Há uma grandeza particular em saber reconhecer que a democracia não termina quando as urnas são apuradas. Pelo contrário, é justamente depois do resultado eleitoral que ela é verdadeiramente colocada à prova. Durante uma campanha, cada cidadão tem o direito de escolher seu candidato, defender suas convicções e trabalhar pela vitória do projeto político em que acredita. Mas, encerrada a votação, todos continuamos pertencendo à mesma comunidade política, compartilhando responsabilidades e um destino comum.
É nesse momento que se revela a maturidade de uma liderança.
Ao afirmar que “o futuro do Brasil é uma responsabilidade de todos”, o presidente da Câmara de Vitória da Conquista transmite uma mensagem que ultrapassa os limites da política municipal. Trata-se de um chamado à responsabilidade coletiva, à compreensão de que nenhuma força política possui o monopólio do patriotismo e de que nenhum resultado eleitoral autoriza o desprezo por aqueles que pensam de maneira diferente.
| “O futuro do Brasil é uma responsabilidade de todos.” — Ivan Cordeiro, presidente da Câmara Municipal de Vitória da Conquista |
A democracia não exige que abandonemos nossas convicções. Exige, sim, que saibamos conviver com as convicções alheias. Não precisamos concordar com o adversário para reconhecer sua legitimidade, assim como não precisamos renunciar às nossas ideias para respeitar a escolha soberana do eleitorado.
Essa distinção é essencial para preservar o Estado Democrático de Direito. O voto popular é a expressão da vontade dos cidadãos e constitui o fundamento da legitimidade dos governos eleitos. Respeitá-lo significa compreender que a soberania pertence ao povo, e não a qualquer liderança, partido ou grupo político.
Por isso, a postura de Ivan Cordeiro merece ser destacada. Ao reafirmar seu compromisso com o diálogo, com as instituições e com o trabalho em favor da população conquistense, ele demonstra compreender que a presidência de uma Câmara Municipal exige mais do que representar um campo político. Exige responsabilidade institucional, capacidade de ouvir e disposição para construir caminhos que atendam ao interesse público.
A Câmara como espaço de pluralidade
A Câmara de Vereadores é, por natureza, um espaço de pluralidade. Ali se encontram representantes de diferentes partidos, correntes ideológicas e visões de sociedade. Essa diversidade não deveria ser vista como um obstáculo, mas como uma expressão legítima da democracia. O desafio de quem preside o Legislativo é justamente garantir que as diferenças possam se manifestar dentro das regras do debate democrático, sem que o confronto de ideias se transforme em hostilidade pessoal ou ruptura institucional.
É evidente que o diálogo não significa apagar divergências, muito menos abandonar a fiscalização do poder público. Uma oposição atuante é indispensável, assim como uma situação comprometida com suas responsabilidades. O que não pode faltar a nenhuma delas é o reconhecimento de que a disputa política deve permanecer subordinada às regras constitucionais e ao interesse da sociedade.
| Vencer e perder
O Brasil precisa superar a ideia de que uma eleição transforma automaticamente vencedores em donos do país e derrotados em inimigos da nação. Quem vence recebe a responsabilidade de governar; quem perde conserva o direito de fiscalizar, criticar e disputar novamente a confiança dos eleitores. Todos, entretanto, permanecem submetidos à Constituição e às instituições democráticas. |
É essa compreensão que permite a uma sociedade atravessar períodos de tensão sem comprometer sua unidade nacional. A democracia não se sustenta apenas com eleições periódicas. Ela depende também da cultura política, da responsabilidade dos representantes eleitos, da liberdade de expressão e da disposição de reconhecer a legitimidade daqueles que pensam de maneira diferente.
Vitória da Conquista e o compromisso democrático
Em Vitória da Conquista, uma cidade cuja vida política expressa a diversidade de opiniões de sua população, esse compromisso possui um significado especial. O município precisa continuar sendo um espaço em que as divergências sejam resolvidas pelo debate, pela participação popular e pelas instituições, e não pela intolerância.
Como articulista, sempre defendi que a política deve estar a serviço da sociedade, e não ser reduzida a uma guerra permanente entre grupos que se consideram donos da verdade. A firmeza de princípios não é incompatível com a cordialidade; a defesa de um projeto político não exige a desqualificação de quem escolheu outro caminho. Ao contrário, quanto mais profundas forem nossas convicções, maior deve ser nossa responsabilidade na maneira de defendê-las.
É por isso que considero oportuno parabenizar o presidente da Câmara Municipal de Vitória da Conquista por suas palavras. Seu pronunciamento oferece uma contribuição importante para a construção de um ambiente político mais respeitoso, no qual o compromisso com a democracia seja maior do que as divergências circunstanciais de uma eleição.
Que essa mensagem não permaneça apenas como uma declaração pública, mas se transforme em prática cotidiana: no funcionamento do Legislativo, no relacionamento entre os representantes eleitos e na maneira como a política municipal se relaciona com a população.
A grandeza de um homem público
Afinal, a grandeza de um homem público não se mede apenas pela capacidade de defender suas ideias ou conquistar votos. Mede-se também pela capacidade de reconhecer os limites do próprio poder, respeitar as instituições e compreender que o mandato recebido das urnas é uma responsabilidade, jamais um privilégio absoluto.
Parabenizar uma postura democrática não significa necessariamente concordar com todas as posições políticas de quem a expressa. Significa reconhecer que existem valores que precisam estar acima das disputas partidárias. O respeito à soberania popular, o diálogo, a responsabilidade institucional e a convivência entre diferentes são alguns desses valores.
Que Deus abençoe o Brasil, ilumine nossos representantes e conceda ao povo brasileiro a sabedoria necessária para compreender que a democracia é uma construção coletiva. E que Vitória da Conquista continue dando exemplos de que é possível defender ideias com firmeza, exercer a política com responsabilidade e reconhecer, mesmo nas diferenças, a dignidade de todos os cidadãos.
Porque, no fim das contas, o Brasil é maior do que qualquer eleição, a democracia é maior do que qualquer partido e o interesse público deve ser sempre maior do que as ambições individuais.
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Respeito às urnas
Padre Carlos — Colunista político — Política e Resenha




