
Hoje, um filme inteiro passou pela minha mente. Daqueles que não se assistem com os olhos, mas com a alma. Um daqueles roteiros que não precisam de palavras, porque o que se sente fala mais alto. A notícia da nomeação de Monsenhor Gilvan Pereira Rodrigues como bispo auxiliar de São Salvador da Bahia tocou fundo, não apenas pelo peso da missão que ele agora abraça, mas pela memória viva que ele desperta em mim — e, ouso dizer, em tantos de nós que fomos marcados por uma geração inesquecível.
Sim, mais um amigo de seminário chamado ao episcopado. E embora os anos tenham se acumulado como folhas sobre folhas — quase três décadas desde o último encontro — o sentimento permanece intacto. Porque quem compartilha os anos de formação, os silêncios do discernimento vocacional, as alegrias discretas e os dramas da juventude consagrada, forma laços que o tempo não dissolve. Apenas amadurece.
Nosso tempo de formação foi algo raro. A geração que atravessou os corredores das casas de formação nas décadas de 1980 e 1990 foi forjada no ferro da profundidade intelectual e na argila sensível da espiritualidade. Vivíamos a transição do mundo, da Igreja e do pensamento teológico. E estávamos lá, no olho do furacão, dentro de uma verdadeira incubadora de vocações sólidas e lideranças eclesiais que hoje florescem nas catedrais do Brasil.
Belo Horizonte era, então, mais do que uma capital mineira. Era o centro nervoso da teologia brasileira. Uma cidade onde os institutos de formação pululavam, os centros religiosos fervilhavam de ideias, e as congregações disputavam espaço com um entusiasmo que beirava o profético. Era difícil encontrar uma ordem ou congregação que não tivesse ao menos uma casa em BH — ou ao menos um estudante frequentando as salas dos nossos teólogos mais inspirados.
Recordo-me dos dias em que discutíamos Rahner, guardávamos silêncio diante de Balthasar, e nos apaixonávamos pela simplicidade complexa de Teresa e João da Cruz. Os corredores, os claustros, as capelas. Cada espaço tinha seu eco, sua marca, sua centelha. E no meio disso tudo, Gilvan. Discreto, constante, com aquele olhar de quem sabe ouvir antes de falar — um traço raro e precioso.
Hoje, ao vê-lo chamado ao episcopado, sinto como se uma parte de todos nós também estivesse sendo levada junto. Não por vaidade, mas por reconhecimento. Reconhecimento de um tempo em que o chamado de Deus encontrava eco numa juventude que buscava, com zelo, verdade e entrega. Um tempo que deixou frutos — e que ainda frutifica.
Parabéns, Gilvan. Não apenas pelo título, mas pela trajetória silenciosa que agora ganha o som dos sinos episcopais. Que tua missão em Salvador seja regida pela mesma serenidade e firmeza com que viveste tua formação. E que tua presença, como bispo, continue sendo luz para os que caminham, e consolo para os que ainda buscam.
Nós, teus amigos de outrora, seguimos aqui — na distância dos corpos, mas na intimidade das lembranças e na comunhão da fé. Que o filme de hoje nunca se apague, e que tua história inspire novas vocações, como aquela que um dia te trouxe até nós.
Amém e Axé.




