Política e Resenha

ARTIGO – Dinheiro, Poder e Salvação: A Lição do Administrador Infiel

 

 

(Padre Carlos)

A parábola do administrador infiel, narrada no Evangelho de Lucas (16,1-13), é uma das mais provocativas de Jesus. O Mestre não elogia a fraude, nem a injustiça, mas a astúcia de quem, diante de uma crise, soube reinventar sua vida. O administrador, prevendo a perda do cargo, abre mão do lucro imediato e aposta no futuro: faz amigos, garante vínculos e assegura sua sobrevivência.

Jesus denuncia que falta essa mesma inteligência espiritual aos “filhos da luz”. Muitos não percebem os riscos que ameaçam a salvação e vivem como se o amanhã não existisse. A lição é clara: devemos administrar nossa vida e nossos bens com sabedoria, porque tudo o que temos é dom. Como dizia Sêneca: “A vida não é dada a ninguém em propriedade, mas a todos em administração”.

A Igreja ensina que a propriedade é natural ao homem, mas jamais absoluta. Ela só faz sentido se cumpre sua função social. São Basílio de Cesaréia foi contundente: “Ao faminto pertence o pão que guardamos; ao nu, o manto que escondemos; ao pobre, o dinheiro que enterramos”. Essa perspectiva nos obriga a refletir: nossos bens estão a serviço do próximo ou apenas a serviço de nós mesmos?

Vivemos numa sociedade onde o dinheiro tornou-se ídolo. Por ele, muitos trabalham como escravos, sacrificam família e saúde, corrompem e se deixam corromper, vendem a dignidade e traem princípios. O dinheiro se converte em senhor, mas Jesus é categórico: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro”.

O caminho cristão é outro. Não renunciar à propriedade, mas administrá-la como quem cuida de algo emprestado para devolver ao verdadeiro dono: Deus. O dinheiro não é mal em si, mas o apego a ele mata a alma. A escolha está posta: ou fazemos do dinheiro um instrumento para servir ao Reino de Deus, ou seremos seus servos até a perdição.