
Padre Carlos)
Falar do rosto materno de Deus ainda causa estranhamento em muitos ambientes religiosos, especialmente naqueles moldados por séculos de linguagem exclusivamente patriarcal. No entanto, essa estranheza não nasce da fé bíblica, mas de uma leitura limitada dela. A Escritura, a tradição teológica e a experiência espiritual mais profunda sempre reconheceram que Deus transcende o masculino e o feminino, e que nele habitam, de forma plena, as características que nós, humanos, associamos tanto ao pai quanto à mãe.
A Bíblia está repleta de imagens maternas aplicadas a Deus. O profeta Isaías, com ousadia poética e teológica, coloca nos lábios divinos a pergunta que desarma qualquer resistência: “Pode uma mãe esquecer-se do filho que ainda mama? Mesmo que ela se esqueça, eu não me esquecerei de ti”. Aqui, Deus não apenas se compara a uma mãe; Ele se apresenta como mais fiel, mais constante e mais amoroso do que o melhor amor materno conhecido. Trata-se de uma revelação poderosa sobre a misericórdia divina, que não abandona, não desiste e não rejeita.
O termo hebraico rahamim, frequentemente traduzido como misericórdia, vem de rehem, que significa útero. Misericórdia, portanto, não é apenas um sentimento abstrato, mas um amor visceral, uterino, que protege, gera vida e sofre com o sofrimento do outro. Quando dizemos que Deus é misericordioso, estamos afirmando que Ele ama como uma mãe ama: com entranhas, com corpo, com entrega total.
Jesus, no Evangelho, também rompe as categorias rígidas ao falar de Deus. Ele chora sobre Jerusalém e diz que quis reunir seus filhos “como a galinha reúne seus pintinhos debaixo das asas”. É uma imagem feminina, maternal, delicada e, ao mesmo tempo, profundamente forte. O Deus revelado por Jesus não é o déspota distante, mas o Deus que acolhe, cuida, toca feridas e se inclina diante da dor humana.
Nesse contexto, ganha força histórica e simbólica a famosa afirmação do Papa João Paulo I, que declarou publicamente: “Deus é pai, mas Deus é também mãe”. A frase causou alvoroço na cúria romana, não porque fosse herética, mas porque expunha o medo institucional de lidar com uma imagem de Deus que escapa ao controle do poder masculino. João Paulo I não negava a tradição; ao contrário, resgatava sua profundidade esquecida. Ele compreendia que falar do rosto materno de Deus não diminui a fé, mas a humaniza e a torna mais próxima do Evangelho.
Insistir apenas em um Deus exclusivamente masculino empobrece a experiência religiosa e afasta muitos que buscam acolhimento, cura interior e sentido para suas dores. O Deus-mãe não substitui o Deus-pai; Ele o completa na linguagem humana, mostrando que o amor divino é maior do que nossas categorias culturais, ideológicas ou clericais.
Num mundo marcado pela violência, pelo autoritarismo religioso e pela exclusão, recuperar o rosto materno de Deus é um ato profundamente político, espiritual e libertador. É afirmar que Deus não governa apenas com leis, mas com ternura; não se impõe apenas com autoridade, mas se revela no cuidado; não condena primeiro, mas acolhe antes de julgar.
Talvez o verdadeiro escândalo não seja dizer que Deus é mãe. O escândalo é perceber que Deus ama com uma radicalidade que muitos de nós, pais e mães humanos, ainda não conseguimos alcançar. Reconhecer esse rosto materno é, no fundo, permitir que a fé volte a ser abrigo, colo e esperança — exatamente como deve ser.




