Política e Resenha

ARTIGO – Quando até o STF reconhece: o tumor do Judiciário precisa ser arrancado (Padre Carlos)

 

 

 

Há tempos venho levantando a voz — muitas vezes solitária — para alertar a classe política e o próprio Judiciário brasileiro: o sistema de Justiça no país adoeceu. Não se trata de um mal passageiro, de uma febre institucional que cede com repouso ou discursos bem elaborados. É algo mais profundo, mais enraizado, mais perigoso.

Por isso, quando vejo agora o ministro Flávio Dino propor um pacto entre os Poderes para uma reforma do Judiciário, não recebo a notícia com surpresa, mas com uma inquietante sensação de confirmação. Aquilo que muitos insistiam em ignorar começa, enfim, a ecoar dentro do próprio Supremo Tribunal Federal — uma instituição que, em sua gênese, carrega traços corporativos e historicamente resistentes a mudanças estruturais.

E quando o problema atravessa as muralhas de proteção do próprio sistema, é sinal de que a enfermidade é mais grave do que se imaginava.

Não estamos diante de uma simples necessidade de ajustes técnicos, de modernização administrativa ou de revisão pontual de procedimentos. O que está em jogo é a credibilidade de um dos pilares da República. Um Judiciário desacreditado, lento, por vezes desigual e, em alguns casos, contaminado por privilégios e distorções, deixa de ser instrumento de justiça e passa a ser fonte de insegurança.

É preciso dizer com todas as letras: não há mais espaço para paliativos.

Durante muito tempo, tentaram tratar essa crise com “remédios leves” — pequenas reformas, discursos de ocasião, medidas cosméticas. Mas a doença avançou. Criou raízes. Espalhou-se de forma silenciosa, corroendo a confiança da sociedade.

Agora, o diagnóstico começa a ser assumido até por aqueles que sempre estiveram dentro do sistema.

E quando isso acontece, a verdade se impõe com força brutal: não basta medicar, é preciso intervir.

O Brasil precisa de coragem institucional para enfrentar essa realidade. Reformar o Judiciário não é atacá-lo — é salvá-lo. É resgatar sua função essencial de garantir direitos, equilibrar poderes e proteger o cidadão comum.

Arrancar o tumor pode ser doloroso. Pode gerar resistência. Pode expor feridas que muitos prefeririam manter ocultas. Mas é o único caminho para preservar o organismo vivo da democracia.

Negar isso, agora, já não é mais possível.