Política e Resenha

ARTIGO – Entre as Urnas e os Tribunais: Até Quando?

 

 Padre Carlos

 

Há um ponto delicado na democracia que poucos gostam de admitir: a hora de aceitar a derrota. Não se trata apenas de um gesto político, mas de um compromisso ético com a própria ideia de convivência democrática. O problema é que, no Brasil de hoje — e também em cidades como Vitória da Conquista — esse momento parece estar sendo constantemente adiado.

As eleições terminam, as urnas falam, a Justiça Eleitoral valida. O Tribunal Superior Eleitoral cumpre seu papel. O Supremo Tribunal Federal entra como última instância. E ainda assim, o que deveria ser ponto final vira reticência. A cada decisão, surge um novo recurso. A cada negativa, uma nova esperança jurídica — ou talvez, uma nova recusa em aceitar o veredito das urnas.

Para o cidadão comum, aquele que acorda cedo, enfrenta filas, paga impostos e vota com a expectativa de que sua escolha tenha valor, isso começa a soar estranho — para não dizer desgastante. A democracia, que deveria ser um terreno firme, passa a parecer um campo movediço, onde nada nunca se resolve por completo.

É legítimo recorrer? Sem dúvida. O sistema jurídico existe exatamente para isso. Mas há uma linha tênue entre o direito de questionar e o hábito de protelar. Quando os recursos se tornam sucessivos e previsíveis, o debate deixa de ser jurídico e passa a ser político — e, em alguns casos, emocional.

Surge então uma pergunta inevitável, quase incômoda: se não houver vitória no Supremo Tribunal Federal, qual será o próximo passo? Cortes internacionais? Tribunais imaginários? Ou, quem sabe, instâncias celestiais? A ironia aqui não é gratuita — ela reflete o sentimento crescente de uma população que começa a ver o processo democrático sendo esticado além do razoável.

Enquanto isso, a cidade segue. Ou melhor, tenta seguir. Porque a instabilidade política cobra seu preço. Afeta decisões administrativas, trava projetos, contamina o ambiente institucional e, acima de tudo, cansa o espírito coletivo. Não há desenvolvimento possível onde reina a incerteza permanente.

A democracia não é apenas o direito de disputar — é também o dever de reconhecer o resultado. Sem isso, o sistema perde credibilidade, e o eleitor, paciência. E quando o eleitor perde a paciência, o que está em jogo já não é apenas uma eleição, mas a própria confiança nas instituições.

Talvez esteja na hora de um gesto simples, mas poderoso: encerrar o ciclo. Permitir que a cidade respire. Que a política volte a ser instrumento de construção, não de prolongamento de disputas. Que Vitória da Conquista possa viver, enfim, um tempo de tranquilidade — algo que, convenhamos, já não é pedir demais.

Porque, no fim das contas, a democracia não pode ser um processo infinito. Ela precisa, em algum momento, chegar ao seu destino.