Política e Resenha · Análise Política
Vitória da Conquista, Bahia · 2025
O Absolutismo Monárquico: O Decoro Derretido de Flávio Bolsonaro

Por Padre Carlos
“Não tenho que justificar nada para ninguém.”
— Senador Flávio Bolsonaro (PL), em frente ao QG da PMERJ
A
frase, proferida com o desdém típico de quem confunde foro privilegiado com direito divino, não foi dita nos corredores de um palácio absolutista do século XVII. Veio a público em frente ao Quartel-General da Polícia Militar do Rio de Janeiro, dita pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), atual pré-candidato à Presidência da República. O contexto? O vazamento de áudios e mensagens que escancaram sua incômoda e multimilionária intimidade com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, artífice do colapso do Banco Master, preso sob a acusação de chefiar uma fraude financeira bilionária.
Ao tentar reduzir negociações de R$ 134 milhões — com pelo menos R$ 61 milhões efetivamente pagos por Vorcaro — à mera “compra de um carro” ou a um “investimento privado”, Flávio Bolsonaro opera um duplo atentado: contra a inteligência do cidadão e contra a própria essência da República.
O Mito do “Assunto Privado” e o Estelionato Republicano
O primeiro grande erro — senão desonestidade intelectual — do parlamentar é o argumento de que a transação para financiar uma cinebiografia de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, era de natureza puramente privada.
Não existe “assunto privado” quando um senador da República, eleito para representar o pacto federativo, chama de “irmão” o controlador de um banco cujas engrenagens operavam sob suspeita da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e que acabou liquidado pelo Banco Central. Pior: o dinheiro que irrigava o Master e as empresas de Vorcaro vinha, em larga escala, de vultosas operações com fundos de previdência pública — como o Rioprevidência.
O Que Exige o Decoro Parlamentar?
O decoro não é um conjunto de regras de etiqueta sobre como usar talheres em jantares oficiais. Ele está previsto no artigo 55 da Constituição Federal e detalhado nos códigos de ética do Senado. O decoro exige:
Probidade e Boa-Fé: O parlamentar deve agir de forma a preservar a dignidade do cargo.
Transparência Absoluta: O mandato pertence ao povo, não ao indivíduo. O eleitor tem o direito de saber quais interesses orbitam o gabinete de seus representantes.
Zelo pela Coisa Pública: Evitar a promiscuidade de relações com agentes que atentam contra o sistema financeiro nacional.
Ao mentir deliberadamente para seus próprios aliados e para a imprensa — afirmando meses atrás que sequer conhecia Vorcaro —, para depois ser desmentido por áudios explícitos de cobrança gravados na véspera da prisão do banqueiro, Flávio quebrou o decoro. Mentir para esconder relações espúrias é incompatível com o mandato.
O Comportamento Antirrepublicano
A postura de que “não se deve satisfações” é a antítese do republicanismo. A palavra “República” vem do latim res publica — coisa pública. Nela, governantes e legisladores são inquilinos do poder, funcionários do povo, obrigados a prestar contas de cada ato, de cada proximidade suspeita, de cada centavo que orbita suas campanhas ou projetos familiares.
“Quando Flávio Bolsonaro afirma que não precisa se justificar, ele adota a postura de um monarca absolutista que enxerga o Estado como sua propriedade e os cidadãos como súditos incapazes de explicação.”
É um comportamento que corrói a confiança nas instituições e insulta cada brasileiro que, dia após dia, paga seus impostos esperando em troca, pelo menos, a honestidade de quem governa.
Como um homem que pleiteia a cadeira de chefe de Estado pode olhar para a nação e declarar que não deve explicações sobre o fato de um fundo no Texas, controlado por aliados de seu irmão Eduardo Bolsonaro, ter recebido milhões de um criminoso financeiro confesso?
Conclusão: O Preço do Silêncio Arrogante
Ao escolher o silêncio altivo e a agressividade defensiva, Flávio Bolsonaro não apenas sabota sua pré-candidatura presidencial sob o peso da hipocrisia — afinal, a promessa histórica de seu grupo político sempre foi o combate à corrupção e à velha política —, mas também agride a ética que deveria nortear o Parlamento.
O senador tem, sim, que justificar. Deve explicações ao Senado, ao Conselho de Ética, à Polícia Federal e, primordialmente, aos milhões de brasileiros que pagam o seu salário. Em uma República digna desse nome, quem se recusa a prestar contas não está acima da lei; está apenas confessando que o seu mandato já não serve ao interesse público, mas tão somente aos interesses privados de sua dinastia e de seus “irmãos” de ocasião.
Em toda tirania, o tirano começa por declarar que não deve satisfações.
A República responde: deve. Sempre.
Banco Master
Daniel Vorcaro
Decoro Parlamentar
República
Padre Carlos · Teólogo, sacerdote e colunista político · Vitória da Conquista, Bahia




