
Padre Carlos
No Brasil, as coincidências deixaram de ser eventos estatísticos. Viraram método administrativo. Há coincidências demais para pouca ingenuidade disponível no mercado. E o mais novo capítulo dessa novela tropical foi entregue por Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, desmontando mais uma peça do “não sei de nada”, escola filosófica fundada informalmente por políticos brasileiros e aperfeiçoada pela família Bolsonaro.
A história é uma obra-prima do realismo fantástico nacional.
O fundo do advogado de Eduardo Bolsonaro compra uma casa de US$ 3,6 milhões em Arlington, Texas.
E onde mora Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos?
Ora, em Arlington, Texas.

Mas calma! Não sejamos precipitados! Coincidências acontecem! Às vezes você sai para comprar pão e, sem querer, adquire uma mansão milionária justamente na cidade onde mora o cliente do seu sócio político. Quem nunca?
A cereja mofada do bolo vem no nome que aparece assinando a compra: André Porciúncula, ex-secretário do governo Bolsonaro e sócio de Eduardo em outra empresa. Tudo muito republicano. Muito institucional. Muito “mercado imobiliário patriótico”.
Perguntaram quem mora na casa.
Resposta: “essa informação não é de interesse público”.
Claro. Evidentemente.
Porque quando figuras públicas ligadas a um ex-presidente, investigadas em múltiplos episódios, movimentam milhões envolvendo fundos, imóveis, lobby internacional e conexões financeiras nebulosas, o cidadão brasileiro precisa mesmo é se preocupar com o preço do tomate.
O resto seria mera curiosidade mórbida da imprensa.
Aliás, essa frase — “não é de interesse público” — deveria ser tombada pelo IPHAN como patrimônio histórico da cara de pau brasileira. Ela merece uma placa de bronze ao lado de expressões clássicas como “caixa dois não existiu”, “não tenho contato com ele” e “não sabia de nada”.
E então surge novamente o nome do banqueiro Daniel Vorcaro, personagem que parece estar em todos os episódios dessa série chamada Narcos de WhatsApp.
Segundo as investigações, parte daqueles R$ 61 milhões teria irrigado o fundo ligado ao advogado de Eduardo. O mesmo fundo que, por uma coincidência cósmica digna de alinhamento planetário, resolveu comprar um imóvel justamente na cidade onde o deputado licenciado reside nos EUA.
Mas tudo sem relação alguma, evidentemente.
Talvez tenha sido obra do Espírito Santo do mercado financeiro.
A Polícia Federal investiga se o dinheiro serviu para bancar a estadia luxuosa de Eduardo enquanto ele fazia lobby contra o STF em território americano. Veja que coisa injusta: o sujeito sai do Brasil para defender a liberdade… e acabam implicando até com a casa onde ele mora.
É quase uma perseguição arquitetônica.
O mais impressionante nessa história não é nem o enredo. O Brasil já perdeu a capacidade de se surpreender com absurdos. O espantoso é a estética do cinismo. É a tranquilidade com que tudo é tratado. A naturalidade bovina dos envolvidos. A crença sincera de que basta responder “não é de interesse público” e pronto: dissolve-se a suspeita como Sonrisal institucional.
E reparem como o roteiro se repete:
➡️ Pede-se dinheiro a um banqueiro;
➡️ O dinheiro vai parar num fundo ligado a aliados;
➡️ O fundo compra imóvel milionário;
➡️ O imóvel aparece exatamente onde mora o beneficiado político;
➡️ Todos alegam desconhecimento;
➡️ E metade do país ainda grita “mito”.

Convenhamos: se isso fosse roteiro de série da Netflix, o crítico diria que o texto exagerou na inverossimilhança.
Mas o bolsonarismo conseguiu um feito histórico: transformou a caricatura em método de governo e o deboche em estratégia de defesa.
E há algo quase poético nisso tudo.
Durante anos, venderam-se como paladinos anticorrupção. Guerreiros da moralidade. Exterminadores da velha política. Bastou o poder chegar e surgiu aquilo que sempre aparece quando o fanatismo encontra o dinheiro: fundos obscuros, amizades milionárias, imóveis suspeitos, operações nebulosas e patriotas vivendo confortavelmente no exterior enquanto seus seguidores berram contra “o sistema” em grupos de WhatsApp.
No fim, talvez exista mesmo uma grande coincidência nisso tudo.
A coincidência entre discurso moralista e práticas que lembram exatamente aquilo que juravam combater.
E essa, sim, parece ser a única coincidência permanente da política brasileira.




