Política e Resenha · Tributo · Vitória da Conquista, 17 de maio de 2026
Rui Medeiros

O materialista mais cristão que já conheci
Por Padre Carlos
Há paradoxos que não confundem — que revelam. Há contradições aparentes que, no fundo, são sínteses raras, condensações de humanidade mais intensa do que qualquer sistema filosófico jamais conseguiu nomear com precisão. Rui Medeiros é um desses paradoxos vivos: declara-se materialista com a mesma convicção com que, nos fatos cotidianos, pratica a mais genuína das caridades. Chamo-o, há décadas, em silêncio e com admiração que só cresce, de o materialista mais cristão que já conheci. E não há nessa frase nenhuma ironia — apenas o reconhecimento honesto de quem caminha ao seu lado há tempo suficiente para saber que algumas pessoas são maiores do que qualquer rótulo que lhes tentemos impor.
Um homem que não consegue ficar indiferente
Conheci Rui Medeiros nos anos de chumbo e de trincheira, quando a palavra “companheiro” ainda carregava o peso exato do risco partilhado. Militamos juntos no Partido Comunista do Brasil, enfrentamos juntos as fraturas dolorosas do racha partidário nos anos setenta — aquele momento em que as divergências ideológicas rasgavam amizades com a violência cirúrgica de um bisturi. Rui e Zé Novais eram os representantes da nossa célula na região do Sudoeste da Bahia, e juntos cruzamos o limiar de 1980 ingressando no Partido dos Trabalhadores, carregando a esperança como quem carrega um braseiro nas mãos: queimava, mas não se abandonava.
O que me impressiona em Rui — e continua impressionando, com o tempo que passa e a amizade que se aprofunda — é a sua radical impossibilidade de indiferença. Ele simplesmente não consegue cruzar os braços diante do sofrimento alheio. Não é retórica, não é performance política. É um reflexo visceral, quase involuntário, da maneira como ele escolheu — ou foi escolhido — para estar no mundo. Quando a injustiça aparece diante de seus olhos, algo nele se move antes que qualquer raciocínio possa formular resposta. Era assim nas décadas de luta. É assim hoje. A vida não lhe tirou isso — e talvez seja esse o sinal mais claro de que o que Rui carrega não é doutrina, mas caráter.
“Dom Celso José Pinto da Silva, meu bispo naqueles anos, resumiu com uma frase o que eu tentaria dizer em páginas: Rui atende a todos com atenção e dedicação, independentemente do horário. Independentemente de tudo.”
— Testemunho de Dom Celso José Pinto da Silva
Um ministério em trajes seculares
Rui chegou ao direito como quem chega a uma vocação. Não como carreira — como chamado. Sua militância no movimento estudantil e na luta dontra a ditadura, forjou nele não apenas o intelectual capaz de debater Marx com rigor e paixão, mas o homem capaz de sentar ao lado do mais humilde dos clientes e tratá-lo com a mesma seriedade com que trataria qualquer causa histórica. Há nisso algo que me faz lembrar, inevitavelmente, de Cosme de Farias — aquele símbolo inesquecível da advocacia popular baiana, que enxergava no tribunal não um espaço de prestígio, mas um altar de justiça.
Rui ainda exerce a advocacia como quem exerce um ministério. E é exatamente aí — nessa zona limítrofe entre o secular e o sagrado — que o paradoxo do “materialista cristão” encontra sua explicação mais honesta. Ele não precisa de doutrina religiosa para agir com graça. A graça, nele, é estrutural: é a maneira como o sensível coexiste com o rigoroso, como a ternura convive com a firmeza, como o partido e a pessoa humana nunca foram contraditórios em sua prática cotidiana. Não é teologia. É uma vida inteira de escolhas coerentes.
Há algo que Dom Celso intuiu com mais precisão do que qualquer laudo biográfico: um homem que atende a todos, em qualquer hora, não está praticando uma profissão — está praticando uma espiritualidade. Não importa que Rui não use essa palavra. Os gestos são mais verazes do que os vocabulários.
Fui ordenado sacerdote e aprendi, ao longo de décadas, a distinguir entre os que falam de Deus e os que o praticam sem sabê-lo. Rui pertence claramente à segunda categoria — e essa é, na minha leitura, a categoria mais exigente, a mais rara e, paradoxalmente, a mais próxima do evangelho.
O que a prisão não conseguiu levar
A ditadura militar não poupou Rui Medeiros. Como tantos de nós que ousamos não calar, ele conheceu o peso concreto do Estado quando este decide usar a força bruta como argumento definitivo. Passou pela experiência da prisão política — e o que me comove não é apenas a coragem de ter resistido, mas o que ele trouxe de volta dessa experiência: não o rancor, não o endurecimento que tantas vezes transforma vítimas em espelhos de seus algozes. Rui voltou inteiro. Voltou — e permanece — com a mesma disponibilidade, a mesma abertura, a mesma capacidade de escutar que o definem desde que o conheço.
Professor universitário, advogado popular, militante partidário, ex-preso político, companheiro de jornada — cada um desses títulos é verdadeiro. Mas nenhum deles, sozinho, captura o que Rui é em essência. Em essência, Rui é um homem que tomou partido da humanidade. Não de uma facção da humanidade — da humanidade inteira, com seus contraditórios, suas fraquezas, suas esperanças improváveis. E é esse partido — o partido da humanidade — que ele ainda sustenta, com a mesma convicção de sempre.
O nome mais justo que posso oferecer
Não escrevo estas linhas para construir um monumento. Monumentos são frios, imóveis, distantes. Escrevo para dizer em voz alta o que a convivência de décadas me ensinou — e que a gratidão, quando não encontra palavras, apodrece por dentro. Não quero carregar esse apodrecimento. Quero que Rui saiba, enquanto ainda estamos aqui, caminhando juntos neste mundo que tanto exige de quem se recusa à acomodação, o quanto sua presença importou e importa.
Há uma palavra que carregamos da política e que sobrevive a todos os descredos, a todas as derrotas e a todas as traições que o tempo nos ensina: companheiro. Ela é simples, desgastada, usada e abusada. Mas quando digo que Rui Medeiros é meu companheiro, sinto que a palavra recupera seu peso original — o peso de alguém que escolheu caminhar ao lado, não porque o caminho fosse seguro, mas porque a alternativa de caminhar sozinho era, para ambos, impensável.
“Hoje, chamá-lo de companheiro é o maior elogio que posso oferecer — e a palavra maior do que qualquer título que a vida pública tenha lhe conferido.”
O materialismo de Rui — honesto, corajoso, intelectualmente rigoroso — nunca o impediu de enxergar o sagrado ali onde ele se manifesta com mais clareza: no rosto do excluído, na causa do sem-voz, na dignidade do trabalhador que bate à porta de um escritório de advocacia sem saber se será ouvido. Rui ouve. Sempre ouviu. E isso, numa época em que o cinismo é a moeda mais corrente, continua sendo um ato de resistência espiritual — mesmo que ele jamais o chame assim.
Ao escrever seu nome com o afeto que os anos só aprofundam, penso que as categorias com que julgamos os homens — materialista ou espiritualista, marxista ou cristão, militante ou acadêmico — são sempre menores do que os homens que tentam descrever. Rui Medeiros é sempre maior do que qualquer rótulo. E é exatamente por isso que ele importa. Que sua presença entre nós ainda aquece. Que, ao estar ao seu lado, me sinto menos sozinho neste mundo que tanto precisa de gente que simplesmente não consiga ficar indiferente.
Rui Medeiros
Advocacia Popular
Bahia
Direitos Humanos
Partido dos Trabalhadores
Padre Carlos
Teólogo, sacerdote e colunista político
Editor do Política e Resenha · Vitória da Conquista, Bahia




