Artigo de Opinião · Política Regional
Vitória da Conquista Não Precisa de Padrinho

A Cidade que Sempre Foi Madrinha do Sudoeste Baiano
Por Durval Lemos Menezes
A Vocação Histórica para a Liderança: Duco, Non Ducor
Há uma máxima que define o espírito das grandes metrópoles e que se aplica, com precisão cirúrgica, a Vitória da Conquista: “Duco, non ducor” — conduzo, não sou conduzido. Essa expressão sintetiza a essência de uma comuna que já nasceu líder. Como bem pontuou o intelectual Padre Carlos em sua recente e precisa narrativa, Conquista não precisa de padrinhos eleitorais; Conquista exige e carece de legítimos representantes.
Para compreender essa altivez, é preciso resgatar a própria gênese do município. O bandeirante João Gonçalves da Costa, fundador desta comuna, não era um mero desbravador, mas um líder regional de proporções impressionantes. Ele gerenciava uma área geográfica correspondente a 24.700 km² — superior à área total do Estado de Israel (aproximadamente 21.000 km²) e equiparável à extensão territorial de Sergipe.
“Conquista jamais foi uma coadjuvante no cenário estadual. Ao longo de sua história, abrigou e emancipou uma constelação de distritos que hoje formam o coração do sudoeste baiano.”
— Durval Menezes
Todos esses municípios, hoje independentes para caminhar com as próprias pernas e pensar com seus próprios cérebros, são filhos e afilhados políticos de Conquista — entre eles Poções, Macarani, Itarantim, Itapetinga, Encruzilhada, Itambé, Maiquinique, Ibicuí, Nova Canaã, Iguaí, Planalto, Anagé, Cândido Sales, Belo Campo, Caatiba e Barra do Choça. A cidade acolhe milhares de famílias oriundas dessas localidades, consolidando-se, de fato e de direito, como a autêntica madrinha política e capital regional do sudoeste baiano.
A Era de Ouro da Representação Política
Essa musculatura geográfica e demográfica sempre se traduziu em representação política de alto nível, caracterizada por homens de refinada cultura e amor supremo à terra.
Como esquecer o pioneirismo do Dr. Diogo Sá Barreto, o combativo advogado e promotor que se tornou o primeiro deputado estadual da comarca? Ou a erudição do Dr. Adriano Bernardes Batista, que além de parlamentar, alcançou o ápice acadêmico como reitor da Universidade Católica da Bahia? A história também reverencia Orlando Spínola, que por quatro décadas dignificou o mandato parlamentar, sendo reconhecido como um dos maiores intelectuais e tribunos que o Estado já produziu.
A lista de luminares é vasta: o Dr. Juarez Hortélio, criminalista de escol e líder de governo na Assembleia; o Dr. Adauto Pinheiro, médico e duas vezes Secretário de Estado; nomes como Antônio José Nascimento, Coriolano Sales, Leônidas Cardoso, Guilherme Menezes, Clóvis Flores e Elquisson Soares.
Na esfera federal, a altivez se manteve com o Dr. Régis Pacheco — prefeito, deputado e governador que dedicou mais de 50 anos à vida pública —, com Edivaldo Flores, cujo brilho administrativo foi elogiado pelo presidente Juscelino Kubitschek, e com Elquisson Soares, eleito por três vezes o melhor deputado da Bahia. Raul Ferraz , advogado formado pela Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia.
Foi Prefeito de Vitória da Conquista-BA, no período 1977/1982. Deputado Federal (1983-1987) e Deputado Federal Constituinte (1987-1991).
Autor do livro O Brasil que eu quis criar (na Constituinte) – Gráfica do Congresso Nacional.
Autor do PL nº 2.191/87, que veio a ser a Lei nº 10.257/2001, denominada Estatuto da Cidade.
O Diagnóstico do Presente: O Afrouxamento da Liderança
Se o passado nos orgulha, o presente nos impõe uma severa e preocupante reflexão. Nos últimos anos, a representação de Conquista fragmentou-se. Fomos representados por alguns que agiram por real amor à cidade, mas também por outros movidos pelo oportunismo e pela mera conveniência política. O diagnóstico atual é incômodo, mas inevitável: há um erro político de liderança.
Enquanto a cidade padece com uma crise de representação na Assembleia e no Congresso — incapaz de resolver gargalos históricos como a arrastada e urgente duplicação da rodovia Rio-Bahia, cujo atraso segue gerando transtornos econômicos e ceifando dezenas de vidas —, assistimos a uma gritante abdicação do papel de líder por parte do Executivo Municipal.
“A decisão de ‘liberar’ os vereadores da base aliada para apoiarem qualquer candidato é um erro tático e político “
O parlamento municipal e os partidos que dão sustentação ao governo não podem agir como átomos isolados. Os vereadores possuem deveres partidários e, acima de tudo, um compromisso com o desenvolvimento e a blindagem política de Vitória da Conquista.
O Perigo da Pulverização: O Voto Desperdiçado
O resultado prático dessa “liberação” já é conhecido: a pulverização do eleitorado conquistense. A ausência de um vetor centralizado fará com que os votos do município sejam dispersados entre dezenas de candidatos forasteiros, que nenhum vínculo real possuem com o nosso povo.
A estimativa, baseada no profundo conhecimento do tabuleiro político local, é alarmante: mais de 100 deputados diferentes deverão obter votação em Vitória da Conquista. Veremos candidatos de fora conquistando fatias minguadas — alguns com 5.000, 2.000 ou 1.000 votos, e outros raspando o tacho com 30, 20 ou meros 5 votos.
Isso não é democracia plena; é o mais puro desperdício de oxigênio político. É jogar o voto do cidadão na lata do lixo. Ao pulverizar nosso potencial nas urnas, abrimos mão da oportunidade de ouro de eleger uma bancada robusta, de fato focada em defender os interesses de Conquista e de sua região.
Como segundo maior colégio eleitoral do interior da Bahia, Vitória da Conquista precisa resgatar o seu orgulho e a sua postura de vanguarda.
Não são os nossos cidadãos que dependem das migalhas de líderes externos. São os políticos “lá do alto”, instalados nas capitais, que precisam e dependem da força política de Conquista. Está mais do que na hora de a nossa liderança política lembrar-se disso e voltar a conduzir, em vez de se deixar levar.
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Articulista:
Durval Lemos Menezes nasceu em Iguá, distrito do município de Vitória da Conquista, na Bahia. É filho de Dante Menezes; neto, pelo lado paterno, do professor Abdias Menezes e, pelo lado materno, do coronel Antônio da Silva Lemos. É casado com Miriam de Souza Menezes, com quem tem quatro filhos – Dante Menezes Neto, Danilo, Murilo e Sabrina – e seis netos – Matheus, Lucas, Tiago, Nicole, João Pedro e Sophia.
Cursou o ensino fundamental, antigo curso primário e ginasial, em Vitória da Conquista, e o ensino médio, antigo curso colegial, na cidade do Rio de Janeiro. Em 1964 ingressou no Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Brasil, mas se graduou em Ciências Sociais no estado de Minas Gerais, especializando-se em Geografia e Sociologia.
Exerceu o magistério por 35 anos. Foi diretor do Colégio Clemente Viana de Castro e do Centro Integrado de Educação Navarro de Brito. Foi secretário de Educação e Cultura de Vitória da Conquista, na administração do prefeito Nílton Gonçalves.
Em 1977, prestou serviço de assessoria à casa civil do Governo do Estado da Bahia quando exerceu a função de Chefe da Assessoria da 13ª Região Administrativa.
Aposentou-se em 1995 como diretor da 20ª Diretoria Regional de Educação e Cultura da Bahia (DIREC/20).
Pertence à Academia de Letras de Vitória da Conquista e é autor dos livros O Poeta do Mulungu, A Conquista dos Coronéis e O Pedralismo um Fenômeno Social.
É membro da Associação dos Sociólogos da Bahia.
— Analista independente com profundo conhecimento do tabuleiro político do sudoeste baiano. As opiniões expressas são de responsabilidade exclusiva do autor e não representam necessariamente a posição deste veículo.




