Política e Resenha

A credibilidade é o primeiro patrimônio de um homem público

 

 

Padre Carlos

A democracia sustenta-se sobre instituições, leis e eleições. Mas existe um elemento menos visível e igualmente indispensável para sua estabilidade: a credibilidade dos homens e mulheres que exercem funções públicas. Quando ela é colocada em dúvida, não é apenas a imagem de um parlamentar que sofre desgaste; é a confiança da sociedade na própria política que se enfraquece.

A nova fase da investigação da Polícia Federal envolvendo o líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante, insere-se exatamente nesse delicado terreno. Segundo informações divulgadas pela imprensa, a PF afirma ter encontrado indícios de que a justificativa apresentada para explicar a origem de R$ 430 mil apreendidos em espécie — a venda de um imóvel — teria sido sustentada por um contrato considerado inverídico, levando os investigadores a apurar também a hipótese de fraude processual. Até o momento, trata-se de uma investigação em andamento, e não de uma decisão judicial definitiva.

É fundamental recordar um princípio que distingue o Estado Democrático de Direito de regimes arbitrários: toda pessoa tem direito à presunção de inocência, ao contraditório e à ampla defesa. Nenhuma investigação autoriza, por si só, uma condenação antecipada no tribunal da opinião pública. Caberá às autoridades competentes examinar as provas, ouvir os envolvidos e permitir que a Justiça se manifeste.

Entretanto, a política exige um padrão de responsabilidade que vai além da esfera penal. A credibilidade de um líder político não depende apenas de sua situação jurídica, mas também da consistência de suas explicações perante a sociedade. Quando a versão apresentada por um agente público passa a ser questionada pelos próprios órgãos encarregados da investigação, instala-se inevitavelmente uma crise de confiança.

Essa crise possui efeitos que extrapolam o caso individual. O parlamentar ocupa a liderança de uma das maiores bancadas da Câmara dos Deputados. Em posições dessa natureza, cada suspeita repercute sobre o partido, sobre os aliados e sobre o próprio ambiente institucional. A população, cansada de sucessivos escândalos envolvendo diferentes grupos políticos ao longo das últimas décadas, tornou-se menos tolerante com situações que aparentam falta de transparência.

Há um aspecto particularmente relevante nesse episódio. Independentemente da orientação ideológica dos envolvidos, o eleitor brasileiro passou a exigir coerência entre discurso e prática. Quem constrói sua trajetória pública defendendo ética, combate à corrupção e respeito ao dinheiro público naturalmente será cobrado com intensidade ainda maior quando surgirem questionamentos sobre sua própria conduta.

Ao mesmo tempo, seria um grave erro transformar uma investigação em sentença definitiva. A história recente do país demonstra que algumas acusações resultaram em condenações, enquanto outras não resistiram ao exame aprofundado da Justiça. O devido processo legal existe exatamente para separar suspeitas de fatos comprovados.

O verdadeiro teste das instituições democráticas não ocorre quando tudo parece normal. Ele acontece justamente nos momentos em que figuras influentes são investigadas. Se a Polícia Federal conduz seu trabalho com autonomia, se o Ministério Público atua dentro da lei e se o Poder Judiciário decide com imparcialidade, fortalece-se a República, qualquer que seja o resultado final do processo.

No fim das contas, permanece uma verdade que atravessa governos, partidos e ideologias: o maior patrimônio de um homem público não é seu mandato, sua influência ou sua capacidade de articulação. É sua credibilidade. Ela leva anos para ser construída, mas pode começar a ruir no instante em que as versões apresentadas deixam de convencer a sociedade ou passam a ser confrontadas pelas evidências produzidas pelas instituições.

A democracia não exige políticos infalíveis. Exige políticos transparentes, responsáveis e dispostos a responder, com serenidade e provas, às perguntas que a sociedade tem o direito de fazer. É dessa disposição que nasce a confiança pública — e sem confiança não há representação política capaz de permanecer sólida por muito tempo.