Política e Resenha

ARTIGO – Quando os Privilégios se Tornam um Problema para a Democracia

 

Por Padre Carlos

O debate sobre férias, folgas e benefícios concedidos a magistrados e procuradores não pode ser tratado apenas como uma questão técnica ou jurídica. O assunto toca em algo muito maior: a relação de confiança entre as instituições públicas e o cidadão comum que trabalha, paga impostos e espera que o Estado funcione de forma justa para todos.

Ninguém questiona a importância do Poder Judiciário. Juízes e procuradores exercem funções essenciais para a democracia. São eles que ajudam a garantir o cumprimento das leis, a proteção dos direitos e a defesa das instituições. O problema não está na relevância dessas carreiras. O problema surge quando os mecanismos de controle parecem insuficientes para impedir que interesses corporativos prevaleçam sobre o interesse coletivo.

Em uma democracia saudável, quem recebe benefícios não deveria ter poder decisivo para definir ou ampliar os próprios benefícios. Essa regra vale para qualquer setor da sociedade. É uma questão de bom senso.

Imagine um gerente definindo sozinho o próprio salário. Imagine vereadores decidindo seus vencimentos sem qualquer fiscalização. Imagine uma empresa permitindo que seus diretores sejam os únicos responsáveis por aprovar suas vantagens financeiras. Em qualquer uma dessas situações, a sociedade enxergaria um conflito evidente de interesses.

Por que, então, deveríamos enxergar de forma diferente quando o assunto envolve determinadas carreiras do Estado?

O cidadão brasileiro observa essas discussões com um sentimento crescente de desconforto. E esse desconforto tem uma razão simples.

Enquanto milhões de trabalhadores enfrentam jornadas exaustivas, salários apertados e dificuldades para sustentar suas famílias, surgem notícias sobre mecanismos que ampliam períodos de descanso ou permitem indenizações milionárias relacionadas a férias e licenças não utilizadas.

O trabalhador da escala 6×1 sabe exatamente o que isso significa.

Ele sabe o que é perder aniversários dos filhos por causa do trabalho.

Ele sabe o que é sair de casa antes do amanhecer e voltar depois do anoitecer.

Ele sabe o que é enfrentar ônibus lotados, filas em hospitais públicos e dificuldades para pagar as contas no final do mês.

Quando esse mesmo trabalhador vê determinadas categorias discutindo formas de ampliar benefícios já existentes, é natural que se pergunte: estamos vivendo sob as mesmas regras?

Essa pergunta não nasce da inveja. Nasce da comparação entre realidades muito diferentes.

O cidadão não deseja que juízes e procuradores ganhem mal. Pelo contrário. Ele compreende a responsabilidade dessas funções. O que ele deseja é equilíbrio. Deseja que as regras sejam construídas levando em conta a realidade do país e não apenas os interesses de grupos específicos.

O maior patrimônio de qualquer instituição não é o orçamento que recebe nem os poderes que possui. O maior patrimônio é a confiança da população.

E confiança não se impõe por decreto.

Ela é construída diariamente por meio de decisões que demonstram compromisso com a sociedade.

Quando uma instituição passa a ser percebida como distante da realidade da maioria dos brasileiros, sua autoridade moral começa a se enfraquecer. Não porque perca suas atribuições legais, mas porque perde algo igualmente importante: a identificação do povo com sua missão.

Por isso, discutir uma reforma do Judiciário não deveria ser considerado um ataque às instituições. Pelo contrário. Deveria ser visto como uma oportunidade de fortalecê-las.

Reformas existem para corrigir distorções, aumentar a transparência e adaptar estruturas às exigências de cada época. Nenhuma instituição democrática deve estar acima desse processo.

O Brasil mudou. A sociedade mudou. As exigências de transparência mudaram.

O que muitos brasileiros esperam não é um Judiciário mais fraco. É um Judiciário mais próximo da realidade do país que julga.

Um Judiciário que compreenda que a legitimidade não nasce apenas da Constituição, mas também da capacidade de demonstrar sensibilidade diante das dificuldades enfrentadas pela população.

No final das contas, a questão não é quantos dias de férias alguém pode ter. A verdadeira questão é saber se as regras que organizam a vida pública estão sendo construídas para servir ao interesse da coletividade ou para preservar privilégios de grupos específicos.

Essa é uma reflexão que o Brasil precisa fazer com seriedade.

Porque nenhuma democracia se fortalece quando parte da população começa a acreditar que existem dois pesos e duas medidas.

Uma para quem trabalha para sustentar o sistema.

Outra para quem possui o poder de decidir como o sistema funcionará.

E toda vez que essa percepção cresce, a distância entre as instituições e o povo aumenta um pouco mais. Uma distância que nenhuma democracia deveria aceitar como normal.