
Padre Carlos
Faltam apenas seis anos para que o Brasil comemore um dos marcos mais importantes de sua história democrática: o centenário do voto feminino. Em 1932, com a promulgação do Código Eleitoral, as mulheres conquistaram o direito de participar das eleições, rompendo uma das mais antigas barreiras da exclusão política. Era uma vitória histórica, resultado da coragem de mulheres como Bertha Lutz e tantas outras que enfrentaram uma sociedade construída sobre o alicerce do patriarcado.
Quase um século depois, porém, é impossível afirmar que essa batalha terminou.
Ela apenas mudou de campo.
A frase estampada na imagem é provocadora: “O voto das mulheres será decisivo nas eleições. Não à toa aparece esse discurso de que ‘mulher não sabe votar’. O medo deles é exatamente porque sabemos.”
Independentemente da concordância ou discordância com o tom da mensagem, ela toca numa ferida histórica que ainda permanece aberta: o machismo político.
Recentemente, declarações atribuídas a um integrante da direita, neto de um ex-presidente e general do período da ditadura militar, reacenderam um debate que muitos imaginavam superado. Mais do que uma polêmica circunstancial, elas revelam que ainda sobrevivem, em alguns setores da sociedade, resquícios de uma visão segundo a qual a mulher precisa ser tutelada, orientada ou desqualificada quando participa da vida pública.
O problema não está apenas na frase.
Está na mentalidade que a torna possível.
Durante séculos, disseram às mulheres que elas não podiam estudar porque eram frágeis demais para o conhecimento.
Depois afirmaram que não podiam administrar bens porque lhes faltava racionalidade.
Também lhes negaram espaço nas universidades, na magistratura, na medicina, na política e nas Forças Armadas.
Quando reivindicaram o direito de votar, ouviram que seriam facilmente manipuladas pelos maridos, pelos padres ou pelas emoções.
A história mostrou exatamente o contrário.
As mulheres não apenas votaram.
Governaram cidades, estados e países. Tornaram-se ministras, cientistas, professoras, empresárias, juízas, diplomatas e lideranças em praticamente todas as áreas da sociedade.
Ainda assim, sobrevive um preconceito silencioso.
Quando um homem vota de maneira considerada equivocada, diz-se que ele fez uma escolha política.
Quando uma mulher vota de forma diferente daquela esperada por determinados grupos, ainda há quem tente explicar seu voto como fruto da emoção, da influência ou da incapacidade de compreender a política.
É um tratamento desigual que dificilmente seria aceito em qualquer outro contexto democrático.
A democracia pressupõe um princípio elementar: todos os cidadãos são igualmente capazes de exercer seus direitos políticos. Isso inclui homens e mulheres, independentemente de suas convicções ideológicas.
O voto feminino não precisa de tutela.
Precisa de respeito.
Também é importante reconhecer que as mulheres brasileiras não constituem um bloco homogêneo. Elas pensam de maneiras diferentes, pertencem a diversas classes sociais, religiões, profissões e correntes políticas. Há mulheres de esquerda, de centro e de direita. Há eleitoras conservadoras, liberais e progressistas. Reduzir todas a uma única forma de pensar é outro tipo de simplificação que empobrece o debate público.
Talvez a maior conquista desses quase cem anos não tenha sido apenas colocar uma cédula na urna.
Foi afirmar um princípio muito mais profundo: o de que a cidadania não tem gênero.
Por isso, quando alguém sugere, explícita ou implicitamente, que mulheres “não sabem votar”, a frase carrega um peso histórico que vai muito além da disputa eleitoral do momento.
Ela ecoa um passado em que milhões de brasileiras eram impedidas de decidir os rumos do próprio país.
Felizmente, esse passado não voltou.
Mas seus ecos ainda insistem em aparecer.
Daqui a seis anos, quando o Brasil celebrar o centenário do voto feminino, haverá muito o que comemorar. Entretanto, a melhor homenagem que a sociedade poderá prestar às pioneiras de 1932 não será apenas recordar a data.
Será garantir que nenhuma mulher precise, em pleno século XXI, continuar ouvindo que sua inteligência política vale menos do que a de qualquer homem.
Porque o direito de votar foi conquistado há quase cem anos.
O direito de ser plenamente respeitada como cidadã continua sendo uma conquista diária.




