Política e Resenha

ARTIGO – Perdeu, Playboy! Mas o Preço Não Foi Apenas um Mandato

 

 

Padre Carlos

“Perdeu, playboy!”

A expressão, tão comum nas redes sociais, resume bem aquilo que muitos estão dizendo após a decisão da desembargadora Carina Cristiane Canguçu Virgens, do Tribunal Regional Eleitoral da Bahia, que determinou o afastamento liminar do vereador Diogo Azevedo por infidelidade partidária. Mas a verdade é que essa história está longe de caber em um meme.

Não foi por falta de aviso.

Na política, quase sempre há quem aconselhe, quem alerte, quem peça prudência. Há amigos que tentam evitar o pior. Há companheiros que conhecem os riscos. Há dirigentes partidários que lembram que a legislação eleitoral não costuma perdoar aventuras políticas mal calculadas.

Mesmo assim, há quem prefira acreditar que nada acontecerá.

Agora aconteceu.

O presidente da Câmara Municipal de Vitória da Conquista, Ivan Cordeiro, apenas cumpriu o seu papel institucional ao comunicar que a Casa recebeu oficialmente a decisão do TRE-BA e encaminhou o documento para a Procuradoria Jurídica. Fez questão de esclarecer que a decisão é provisória e ainda poderá ser revista pelo plenário do Tribunal. Mas, enquanto isso, os procedimentos legais caminham para a convocação do primeiro suplente do União Brasil, Alisson Roberto Seles Sá.

É assim que funciona o Estado de Direito.

O que muitos insistem em ignorar é que essa história nunca foi apenas sobre um mandato.

Mandatos começam e terminam.

O que realmente fica são os relacionamentos construídos ao longo da caminhada.

Na política, confiança vale mais do que discursos.

Lealdade vale mais do que promessas.

Credibilidade leva anos para ser construída e poucos minutos para ser colocada em dúvida.

Quando alguém decide mudar de partido, especialmente em circunstâncias delicadas, não rompe apenas uma filiação partidária. Rompe expectativas. Rompe compromissos. Rompe alianças que, muitas vezes, foram construídas muito antes da campanha eleitoral.

E isso deixa marcas.

Há pessoas que enxergam a política apenas como um jogo de cargos.

Quem pensa assim costuma descobrir tarde demais que ela também é feita de memória.

As pessoas lembram.

Os partidos lembram.

Os aliados lembram.

Os eleitores também.

Não são poucos os casos, na política brasileira, em que uma decisão tomada acreditando ser estrategicamente brilhante terminou produzindo exatamente o efeito contrário.

A legislação sobre fidelidade partidária existe justamente para proteger a vontade do eleitor e preservar o sistema representativo. O mandato pertence ao partido em diversas hipóteses previstas pela Justiça Eleitoral, e essa não é uma novidade surgida ontem. É uma regra conhecida por qualquer agente político minimamente experiente.

Talvez o maior prejuízo nem seja jurídico.

Recursos podem ser apresentados.

Decisões podem ser revistas.

Mandatos podem até ser recuperados.

Mas existe algo que dificilmente retorna ao estado original: a confiança.

Quando ela se rompe, não há decisão judicial capaz de restaurá-la completamente.

Por isso, a verdadeira reflexão vai muito além do processo que tramita no TRE.

Ela fala sobre escolhas.

Sobre cálculo político.

Sobre prudência.

E, principalmente, sobre compreender que toda decisão pública produz consequências privadas.

Na política, ninguém perde apenas um cargo.

Perde espaços.

Perde influência.

Perde parceiros.

Às vezes perde amigos.

Às vezes perde portas que jamais voltarão a se abrir.

Por isso, olhando para tudo o que aconteceu, é impossível não concluir que realmente não foi por falta de aviso.

Na política, como na vida, toda escolha cobra um preço.

E, às vezes, esse preço é muito maior do que um mandato.