Padre Carlos
Durante a campanha presidencial norte-americana de 2016, Donald Trump fez uma declaração que se tornaria um símbolo da força da fidelidade política. Disse que poderia “atirar em alguém na Quinta Avenida” e não perderia eleitores. A frase era uma hipérbole, mas carregava uma mensagem poderosa: há parcelas do eleitorado cuja lealdade ao líder parece resistir até mesmo aos episódios mais controversos.
A política contemporânea, infelizmente, tem oferecido exemplos que fazem essa reflexão parecer menos exagerada do que muitos imaginavam.
No Brasil, as investigações envolvendo o líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante, reacenderam o debate sobre a forma como segmentos da sociedade reagem quando suspeitas recaem sobre lideranças que admiram. Segundo a Polícia Federal, a justificativa apresentada para explicar a origem de R$ 430 mil apreendidos em espécie estaria sendo contestada pela investigação, que aponta indícios de que o contrato apresentado para fundamentar a versão da venda de um imóvel não corresponderia aos fatos divulgados pelos investigadores. O caso segue em apuração, e caberá à Justiça avaliar as provas e assegurar ao parlamentar o pleno exercício do direito de defesa.
Mas a dimensão política do episódio vai muito além do aspecto jurídico.
Em democracias maduras, a credibilidade de um agente público é um patrimônio tão importante quanto sua própria atuação parlamentar. Quando surgem investigações dessa natureza, espera-se que apoiadores, partidos e lideranças defendam o devido processo legal, mas também reconheçam a importância da transparência e da prestação de contas.
O problema surge quando a identidade política passa a valer mais do que os fatos. Nesses momentos, qualquer investigação é automaticamente classificada como perseguição, qualquer prova é rejeitada como manipulação e qualquer decisão institucional é interpretada como parte de uma conspiração. A discussão deixa de ser sobre evidências e passa a ser sobre pertencimento.
Esse comportamento não é exclusivo da direita nem da esquerda. Ao longo da história recente do Brasil, diferentes grupos políticos reagiram da mesma maneira quando seus líderes foram alvo de investigações. A fidelidade partidária, muitas vezes, substituiu o senso crítico.
Entretanto, chama atenção quando líderes que construíram sua imagem pública defendendo rigor contra a corrupção passam a enfrentar questionamentos semelhantes aos que antes dirigiam aos adversários. Nesses casos, a coerência deixa de ser apenas uma virtude e transforma-se numa exigência moral.
A democracia não sobrevive quando cidadãos escolhem quais instituições merecem confiança apenas conforme o interesse do momento. A Polícia Federal, o Ministério Público e o Poder Judiciário devem ser respeitados quando investigam aliados e adversários. Caso contrário, a defesa da Justiça transforma-se apenas em instrumento de disputa política.
A frase de Donald Trump permanece atual justamente porque nos obriga a refletir sobre os riscos da idolatria política. Nenhum líder democrático deve estar acima do escrutínio público. Nenhum parlamentar, por mais influente que seja, pode esperar que sua palavra substitua as provas. Nenhum partido deveria considerar seus representantes imunes às perguntas que a sociedade tem o direito de fazer.
A verdadeira democracia não exige seguidores incondicionais. Exige cidadãos livres, capazes de apoiar seus representantes quando agem corretamente e de cobrá-los quando surgem suspeitas sérias, sempre respeitando a presunção de inocência e o devido processo legal. Quando a lealdade política supera os fatos, quem perde não é um partido ou um governo. Quem perde é a própria República.





