Editorial — Política Baiana
Uma análise sobre governismo, alianças e o duelo entre Jerônimo Rodrigues e ACM Neto pelo governo do estado
A
Bahia não é apenas mais um estado no tabuleiro eleitoral brasileiro: é o quarto maior colégio eleitoral do país, um território onde a política se faz com a intensidade de um pequeno país e a complexidade de uma federação inteira. As eleições de 2026 chegam a esse estado como um daqueles episódios raros em que o resultado não está escrito antes do primeiro debate. Depois de duas décadas de hegemonia petista ininterrupta, o Partido dos Trabalhadores enfrenta, na figura de ACM Neto, o adversário mais competitivo que já testou essa hegemonia desde 2006. Este texto não pretende antecipar vencedores. Pretende, isto sim, explicar por que esta disputa é, estruturalmente, uma das mais equilibradas e sofisticadas da política brasileira contemporânea — e por que qualquer previsão apressada tende a subestimar a complexidade do jogo.
Para entender a eleições Bahia 2026, é preciso voltar ao momento fundador: 2006, quando Jaques Wagner rompeu quatro décadas de domínio do chamado carlismo — a máquina política erguida por Antonio Carlos Magalhães. Aquele rompimento não foi apenas uma alternância de poder; foi a substituição de uma estrutura oligárquica por outra, desta vez organizada em torno do PT e de seus aliados históricos. Ao longo de vinte anos, o petismo baiano deixou de ser um projeto de oposição para se tornar o próprio establishment estadual, absorvendo prefeitos, vice-prefeitos, ex-adversários e estruturas municipais inteiras. Esse processo de acomodação é a chave para compreender por que o PT Bahia chega a 2026 não como um partido ideológico isolado, mas como uma federação de interesses locais amarrada por dois décadas de gestão.
É nesse terreno que nasce o fenômeno mais importante — e menos comentado — da política baiana: o governismo. Diferentemente do eleitor ideológico, fiel a uma legenda ou a uma causa, o eleitor governista vota em quem está no poder, ou em quem parece prestes a chegar lá. Prefeitos, vereadores e lideranças comunitárias em municípios de baixa renda per capita dependem de convênios, emendas e obras para sustentar suas próprias bases. Nesses municípios, quanto menor o desenvolvimento econômico local, maior a influência relativa do Estado — e, portanto, maior o peso do governismo sobre o resultado eleitoral. Esse comportamento não é exclusividade baiana, mas encontra no Nordeste, e na Bahia em particular, um solo especialmente fértil, dada a extensão do interior e a histórica dependência de recursos públicos para o desenvolvimento local.
Compreender essa dinâmica exige separar dois tipos de voto que frequentemente são confundidos pelos analistas: o voto ideológico e o voto pragmático. O primeiro é estável, resistente a crises de avaliação de governo, fiel a uma identidade partidária de longo prazo. O segundo é volátil, sensível à percepção de viabilidade, e migra conforme as pesquisas eleitorais indicam quem tem chance real de vencer. Na Bahia, o petismo histórico garante um piso ideológico relevante, mas é o eleitor pragmático — e o governista, entranhado na máquina municipal — quem decide, na prática, as eleições apertadas. É esse contingente que observa, calcula e só então se posiciona.
O peso eleitoral do presidente Lula na Bahia é, nesse contexto, um dado estrutural que nenhuma análise séria pode ignorar. Em 2022, Lula obteve cerca de 72% dos votos no estado — um dos maiores índices de qualquer unidade da federação. Este número não é apenas simbólico: ele revela a extensão da identificação do eleitorado baiano com a figura presidencial, que transcende preferências partidárias regionais.
Lula na Bahia — 2º turno de 2022
| Lula |
72,12%
|
Fonte: dados eleitorais oficiais do 2º turno de 2022 na Bahia.
O problema — e o dado mais revelador de toda essa equação — é que essa força presidencial não se transferiu de forma integral ao candidato a governador. Jerônimo Rodrigues venceu ACM Neto por aproximadamente 473 mil votos, com 52,79% dos votos válidos no segundo turno, em um universo de 8,5 milhões de eleitores. É uma vitória inequívoca, mas visivelmente inferior ao desempenho de Lula. Em termos simples: cerca de 20% do eleitorado baiano votou em Lula para presidente e não votou em Jerônimo para governador. Essa diferença entre a votação presidencial e a votação para governador é o retrato mais preciso da distância entre o carisma de uma liderança nacional e a capilaridade real de um projeto estadual. Lula arrasta consigo um eleitorado amplo e heterogêneo; Jerônimo, como qualquer governador, precisa validar sua gestão perante um eleitorado mais exigente e mais atento ao cotidiano local.
2º turno para o governo — Bahia 2022
| Jerônimo Rodrigues |
52,79%
|
| ACM Neto |
47,21%
|
Diferença aproximada de 473 mil votos, em um universo de 8,5 milhões de eleitores.
É esse gap de vinte pontos entre Lula e Jerônimo que explica, em grande medida, a decisão do PT Bahia de montar, para 2026, uma chapa integralmente formada por seus próprios quadros ao governo e ao Senado — a chamada chapa “puro-sangue”. Há uma narrativa corrente, defendida por parte dos analistas, de que essa escolha resultaria de um cálculo eleitoral frio: o partido teria avaliado sua força e concluído que poderia prescindir de aliados externos. Essa hipótese tem lastro real, porque nenhum partido, sobretudo o único de projeção nacional que ainda governa um estado desse porte, abriria mão do poder na Bahia sem avaliar minimamente as chances de vitória. Mas há uma segunda leitura, mais crítica, que merece ser registrada como interpretação — não como fato comprovado: a de que a composição da chapa também reflete a imposição de uma liderança específica dentro do partido, que já havia tentado o mesmo movimento quatro anos antes e desta vez encontrou menor resistência interna. As duas explicações não são mutuamente excludentes; é provável que cálculo eleitoral e disputa de poder interno tenham convivido na decisão final.
“O PT não faria uma chapa puro-sangue, com três candidatos próprios ao governo e dois ao Senado, se não tivesse feito as contas e reavaliado suas chances de vitória. Mas desbancar Otto ou Wagner não é a mesma coisa que desbancar Coronel — e é aí que o cálculo se torna mais arriscado do que parece.”
Essa observação toca no ponto mais delicado da engenharia política baiana: o papel de Otto Alencar, Jaques Wagner e Angelo Coronel agora na oposição. Wagner é o fundador simbólico do poder petista no estado; Otto Alencar representa a ponte histórica entre o governismo pragmático e setores mais conservadores do eleitorado baiano; Coronel, que o PT dispensou por sua vez, tornava-se peça-chave de sustentação parlamentar e de trânsito entre Brasília e Salvador. Uma eventual derrota de Coronel no Senado — algo que seria impensável há poucos anos — alteraria profundamente o equilíbrio de forças dentro da própria base governista, reduzindo a margem de manobra do PT em negociações futuras e fortalecendo o discurso de renovação que ACM Neto tenta consolidar.
A trajetória de ACM Neto, aliás, ajuda a explicar por que a competitividade atual não é acidental. Sua gestão à frente da prefeitura de Salvador consolidou uma reputação de eficiência administrativa, e sua passagem por Brasília ampliou sua capacidade de articulação nacional. Ainda assim, ele carrega um limite estrutural que já o derrotou em 2022: Neto venceu com folga nos maiores colégios eleitorais do estado — Salvador e Região Metropolitana — mas perdeu a eleição porque o PT, ao longo de duas décadas, promoveu uma interiorização consistente do seu voto, capilarizando-se em centenas de municípios de pequeno e médio porte onde a presença do Estado, e portanto do governismo, é proporcionalmente mais decisiva. Vencer nos grandes centros urbanos garante manchetes; vencer no interior garante governos.
O paradoxo eleitoral de ACM Neto
Neto é hoje, sem qualquer exagero, o principal líder de oposição no estado — por competência administrativa comprovada, talento político e capacidade de articulação. Mas a Bahia é um estado onde o PT aprendeu, ao longo de vinte anos, a operar os instrumentos do governo com precisão. Vencer nos grandes centros urbanos não basta quando o adversário domina a rede capilar de prefeitos, vice-prefeitos e ex-prefeitos espalhados pelo interior. É essa engenharia territorial, e não apenas a preferência ideológica do eleitor, que sustenta a resiliência petista.
As alianças partidárias completam esse quadro. Uma chapa puro-sangue tem vantagens evidentes — coesão interna, clareza de comando, ausência de disputas por espaço com aliados — mas também riscos consideráveis: menor capilaridade de palanques regionais, menor diversidade de capital político agregado e maior exposição caso a avaliação do governo Jerônimo se deteriore. Já a chapa formada em torno do União Brasil com o PL aposta exatamente no oposto: agregar capital político diverso, discurso de renovação e uma coalizão ampla que tenta transformar insatisfação difusa em voto de mudança. Nenhuma das duas fórmulas é isenta de risco; ambas apostam em leituras distintas sobre o que o eleitor baiano valoriza em 2026.
A avaliação do governo Jerônimo Rodrigues é, nesse tabuleiro, uma variável decisiva. Ao contrário de 2022, quando se beneficiava do desconhecimento do grande público — e, portanto, de uma rejeição naturalmente baixa — Jerônimo hoje é um governador conhecido, avaliado e comparado. Sua rejeição cresceu, ainda que moderadamente, e seu desempenho administrativo é julgado como correto, mas não formidável. Ainda assim, ele mantém pontuação competitiva nas pesquisas eleitorais, sustentado por uma combinação de aprovação de Lula, estrutura de máquina estadual e federal, e o já mencionado comportamento do governismo. É exatamente aqui que entra o eleitor indeciso: aquele que aguarda, observa e só se decide quando a percepção de viabilidade de um dos lados se consolida.
Pesquisa eleitoral mais recente
| Jerônimo Rodrigues |
41%
|
| ACM Neto |
37%
|
| Indecisos/outros |
22%
|
Cenário competitivo, dentro da margem de disputa — sem indicação segura de vencedor.
A disputa pela narrativa política é, talvez, a dimensão menos visível e mais decisiva desta eleição. Cada pesquisa divulgada é instrumentalizada por ambos os lados para reforçar uma sensação de inevitabilidade: o PT busca projetar continuidade e estabilidade; a oposição busca projetar renovação e esgotamento do governo. É essa disputa simbólica que alimenta o comportamento do próprio governismo, sempre pronto a migrar para quem parecer mais forte no momento da decisão.
Diante de tudo isso, cabe perguntar: quem chega mais forte à eleição? A resposta não pode se apoiar apenas em pesquisas eleitorais, que fotografam um momento, mas não capturam a dinâmica de uma campanha inteira. Em estrutura partidária e capilaridade eleitoral, o PT Bahia mantém vantagem histórica, sustentada por vinte anos de interiorização e por uma rede de prefeitos e lideranças municipais dificilmente replicável em poucos meses de campanha. Em capacidade de articulação e comunicação política, ACM Neto tem se mostrado competitivo, com discurso claro e experiência de gestão que dialoga com o eleitorado urbano. Em força municipal, o PT ainda leva vantagem no interior, embora a oposição tenha avançado em pautas de segurança e economia. Em rejeição e recall eleitoral, Jerônimo sofre o desgaste natural de quem governa, enquanto Neto convive com uma rejeição historicamente mais alta em certos segmentos, herança de disputas anteriores. Em desempenho administrativo, a avaliação do governo estadual é mediana, nem catastrófica nem exemplar — o que deixa margem tanto para a defesa da continuidade quanto para o discurso de mudança. Em alianças, o PT aposta na coesão da chapa puro-sangue; a oposição aposta na amplitude da coalizão União Brasil-PL. No cenário nacional, a aprovação de Lula segue como o maior trunfo do campo governista, ainda que sua influência presidencial já tenha se mostrado insuficiente, em 2022, para eleger Jerônimo com a mesma margem obtida por ele próprio. Por fim, em capacidade de crescimento durante a campanha, é justamente aí que reside a maior incerteza: candidaturas com estrutura de máquina tendem a crescer de forma mais previsível ao longo do período eleitoral, enquanto candidaturas de oposição dependem mais fortemente de momentum e de erros do adversário para romper o teto de votos.
Três cenários possíveis para o desfecho da disputa
Cenário 1 — vitória de Jerônimo Rodrigues. Este cenário se consolida se a estrutura de governismo se mantiver coesa, se a aprovação de Lula permanecer elevada e se o governo estadual conseguir entregar, nos meses finais, resultados perceptíveis em segurança pública e geração de emprego. A capilaridade da chapa puro-sangue nos municípios do interior, combinada à mobilização direta da máquina estadual e federal, tende a neutralizar o crescimento de ACM Neto nos grandes centros urbanos. Nesse cenário, o PT reedita a fórmula de 2022: uma vitória mais estreita do que a votação presidencial, mas suficiente para garantir mais quatro anos de continuidade.
Cenário 2 — vitória de ACM Neto. Este cenário se materializa caso a percepção de desgaste do governo Jerônimo se intensifique, caso a coalizão União Brasil-PL consiga converter sua vantagem nos grandes colégios eleitorais em avanço real no interior, e caso o discurso de renovação capture parte do eleitorado governista — aquele segmento que, historicamente, migra para quem demonstra viabilidade concreta de vitória. A chave para esse cenário está menos na conquista de novos eleitores ideológicos e mais na capacidade de Neto de romper, ainda que parcialmente, a barreira da interiorização petista, tema recorrente desde 2014.
Cenário 3 — eleição decidida nos últimos quinze dias. Dado o empate técnico apontado pelas pesquisas eleitorais mais recentes, esse é, estatisticamente, o cenário mais provável. Nele, o fator decisivo não será nenhuma variável estrutural, mas o comportamento do eleitor indeciso e do próprio governismo nos dias finais de campanha. Se as pesquisas de véspera indicarem vantagem consistente para um dos lados, o governismo — sempre atento a sinais de viabilidade — tende a se deslocar em bloco para o candidato percebido como vencedor, ampliando artificialmente a margem final em relação ao que indicavam as pesquisas anteriores. É o efeito manada típico de eleições polarizadas em ambientes de forte dependência da máquina pública.
Em eleições equilibradas como esta, a percepção de viabilidade pesa tanto quanto os programas de governo. Alianças se movem, discursos se ajustam e o próprio eleitor governista redesenha sua lealdade conforme as pesquisas e os fatos de campanha se sucedem. O cenário político da Bahia em 2026 seguirá sendo escrito, portanto, não apenas nos gabinetes de Salvador ou nos corredores de Brasília, mas na leitura cotidiana que milhões de eleitores farão da força real de cada candidatura até a última semana de outubro. Quem chegará mais forte à urna ainda é uma pergunta em aberto — e é exatamente essa incerteza que torna esta disputa pelo governo da Bahia uma das mais instigantes do cenário político nacional.
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ACM Neto
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PC
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Padre Carlos Analista político — comentários sobre a política baiana |





