Política e Resenha

O Massacre de Manguinhos: quando a Pátria decidiu calar suas melhores mentes

Opinião  •  Memória e Ciência Nacional

Quarenta anos depois da reintegração dos cientistas cassados pela ditadura, um país que se quer soberano precisa relembrar o preço que pagou por perseguir o pensamento livre.

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esta quarta-feira, 5 de agosto, o Brasil celebra o Dia Nacional de Saúde, data que homenageia o nascimento de Oswaldo Cruz. Em frente ao Castelo de Manguinhos, símbolo maior da ciência brasileira, uma cerimônia marcará também uma efeméride menos lembrada, porém igualmente essencial: os 40 anos da reintegração de cientistas do Instituto Oswaldo Cruz cassados pela ditadura militar. É uma data para orgulho, mas também para memória — e a memória, quando honesta, dói.

Em 1º de abril de 1970, o Diário Oficial da União publicou a cassação dos direitos políticos e a demissão sumária de dez dos maiores nomes da ciência nacional, todos ligados ao Instituto Oswaldo Cruz. O instrumento usado foi o Ato Institucional nº 5, decretado em dezembro de 1968, que concentrou poderes absolutos nas mãos do Executivo e inaugurou o período mais sombrio do regime militar. O entomologista Herman Lent, um dos atingidos, batizou o episódio de “Massacre de Manguinhos” — nome que carrega a dimensão exata do que ali se perdeu.

Não foi acidente burocrático nem excesso isolado de algum general mais afoito. Foi projeto. Enquanto a propaganda oficial vendia a imagem de um “Brasil Grande”, moderno e tecnocrático, a cúpula do regime desmontava, com precisão cirúrgica, os núcleos de pensamento autônomo que poderiam sustentar essa grandeza de verdade. Ciência soberana e liberdade acadêmica eram vistas como ameaça, não como alicerce.

O cerco começou muito antes dos decretos

Antes das cassações formais de 1970, Manguinhos já vivia sob um regime cotidiano de vigilância e assédio. Interventores alinhados à ditadura substituíram o mérito científico pela suspeita ideológica. Verbas de pesquisa eram cortadas sem explicação, correspondências científicas eram abertas e lidas, laboratórios inteiros passaram a ser monitorados como se fossem células subversivas. Inquéritos administrativos absurdos e humilhações em reuniões públicas corroíam, dia após dia, a saúde física e mental de pesquisadores respeitados internacionalmente.

Nesse cenário de asfixia lenta, a trajetória do hematologista Walter Oswaldo Cruz — filho do próprio patrono do Instituto — resume a tragédia. Walter viu, ainda em vida, o templo científico erguido por seu pai começar a ruir sob pressão política. As condições de trabalho sabotadas e o cerco constante cobraram um preço que se tornaria fatal: sua morte prematura, em 1967, antecipou em três anos o golpe final que atingiria seus colegas.

“O maior inimigo do pensamento autoritário é o pensamento livre, porque, ao ser livre, ele se torna libertário.”
— Sérgio Arouca, sanitarista e ex-presidente da Fiocruz

Em 1970, o golpe de misericórdia. Dez cientistas — Haity Moussatché, Augusto Cid de Mello Perissé, Domingos Arthur Machado Filho, Fernando Braga Ubatuba, Herman Lent, Hugo de Souza Lopes, Masao Goto, Moacyr Vaz de Andrade, Sebastião José de Oliveira e Tito Arcoverde Cavalcanti de Albuquerque — tiveram seus direitos políticos cassados e foram aposentados à força, proibidos de atuar em qualquer instituição pública do país. Décadas de pesquisa, coleções científicas insubstituíveis e projetos em andamento foram abandonados da noite para o dia. Seus orientandos também foram banidos, e técnicos que trabalhavam ao lado deles foram transferidos sob pressão para outros órgãos do Ministério da Saúde. Foi a destruição deliberada de um ecossistema inteiro de conhecimento.

Uma perseguição nacional, não um episódio isolado

Manguinhos foi a ponta mais visível de um padrão repetido em todo o território nacional. Logo após o golpe de 1964, o Navio Raul Soares, ancorado no porto de Santos, converteu-se em prisão flutuante para mentes brilhantes como o parasitologista Luiz Hildebrando Pereira da Silva, o farmacologista Boris Vargaftig e o fisiologista Thomas Maack. Todos foram empurrados ao exílio — e lá reconstruíram carreiras de peso mundial, no Institut Pasteur, em Paris, e na Cornell University, nos Estados Unidos. O Brasil perdeu; o mundo ganhou.

A Universidade de São Paulo viveu expurgo semelhante, hoje documentado no chamado Livro Negro da USP: o bioquímico Isaías Raw, os parasitologistas Erney Camargo e Luís Rey, o imunologista Michel Rabinovitch — todos formados na escola de excelência liderada por Samuel Pessoa — foram varridos de seus laboratórios junto com os “Dez de Manguinhos”, interrompendo décadas de avanço no combate a doenças negligenciadas que ainda castigavam o povo brasileiro.

A violência, muitas vezes, ultrapassou a demissão e alcançou o extermínio físico. A professora Ana Rosa Kucinski, do Instituto de Química da USP, e seu marido, o físico Wilson Silva, desapareceram em abril de 1974 e foram assassinados pela repressão, segundo a Comissão Nacional da Verdade, na Casa da Morte, em Petrópolis. Na UFMG, o parasitologista Amílcar Vianna Martins foi cassado; no Instituto Butantan, o mesmo destino colheu Sebastião Baeta Henriques e Olga Bohomoletz.

Um país que exportou seus próprios gênios

O físico teórico Mário Schenberg, reconhecido mundialmente, foi preso e cassado. Jayme Tiomno e sua esposa, a física experimental Elisa Frota Pessoa, foram hostilizados e afastados. José Leite Lopes, do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, foi cassado em 1969 e partiu para o exílio. Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira, idealizadores da Universidade de Brasília, foram perseguidos até o fim — Darcy reconstruindo universidades pela América Latina, Anísio morrendo, em 1971, em circunstâncias trágicas e nunca plenamente esclarecidas. Fernando Henrique Cardoso, Florestan Fernandes, José Arthur Giannotti e Bento Prado Júnior foram cassados na USP. Celso Furtado, arquiteto da SUDENE, foi um dos primeiros a perder seus direitos políticos, já em 1964. Milton Santos foi preso na Bahia e exilado — para depois lecionar na Sorbonne e no MIT. O Brasil expulsou sua própria inteligência e depois assistiu, de fora, ao brilho que ela produzia em outras nações.

A memória como ato de soberania

Não há grandeza nacional construída sobre o silêncio imposto a quem pensa. Ao decepar os braços da pesquisa científica brasileira, a ditadura não puniu apenas indivíduos: sequestrou o futuro do país, atrasou a autonomia tecnológica e empurrou para o exílio parte do talento que poderia ter consolidado uma nação verdadeiramente soberana. Os efeitos dessa mutilação — a dependência científica e tecnológica que ainda hoje nos acompanha — são a fatura que continuamos pagando.

Celebrar os 40 anos da reintegração dos cientistas de Manguinhos não é exercício de nostalgia partidária. É reconhecer, com a coragem que falta a poucos, que o verdadeiro nacionalismo se constrói protegendo — e não perseguindo — quem ousa pensar livremente pelo Brasil. A ciência é patrimônio da Pátria. Calá-la, ontem como hoje, é trair o próprio país que se diz defender.

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Coluna de Opinião — Artigo escrito em homenagem aos cientistas brasileiros perseguidos pela ditadura militar e a todos que, mesmo sob ameaça, jamais deixaram de pensar livremente pelo Brasil.