Política e Resenha

Quando Vitória da Conquista decide preservar a própria alma

O Cristo de Mário Cravo: quando Vitória da Conquista decide preservar a própria alma

Por Padre Carlos

Há monumentos que ocupam um espaço na cidade. E há monumentos que ocupam um espaço na memória das pessoas. O Cristo Crucificado de Mário Cravo Júnior pertence à segunda categoria. Ele não é apenas uma escultura erguida sobre a Serra do Periperi. É uma presença. É parte da paisagem, da história e da identidade de Vitória da Conquista.

Por isso, considero extremamente importante o tombamento oficial do monumento como Patrimônio Histórico, Artístico, Cultural e Paisagístico do Município, estabelecido pelo Decreto nº 24.371/2026. O ato publicado no Diário Oficial representa muito mais do que uma decisão administrativa: representa o reconhecimento de que uma cidade que não preserva sua memória corre o risco de perder parte de sua própria identidade.

O Cristo Crucificado foi inaugurado em 9 de novembro de 1980. Desde então, atravessou décadas de transformações urbanas, políticas, sociais e culturais. Enquanto a cidade cresceu, mudou e se modernizou, o Cristo permaneceu ali, contemplando Vitória da Conquista do alto da Serra do Periperi.

Eu diria que ele se tornou uma espécie de testemunha silenciosa da nossa história.

Quantas gerações passaram diante daquele monumento? Quantas pessoas chegaram a Vitória da Conquista e tiveram naquela imagem uma das primeiras referências visuais da cidade? Quantos conquistenses cresceram olhando para o Cristo e associando sua presença à própria ideia de pertencimento?

É exatamente por isso que o tombamento chega em boa hora.

Uma obra que ultrapassa a fé

E há algo ainda mais significativo nessa decisão: a obra não pertence apenas à história religiosa de Vitória da Conquista. Mário Cravo Júnior, um dos grandes nomes da escultura brasileira e da arte baiana, criou uma representação do Cristo que foge de uma simples reprodução convencional da iconografia cristã.

Seu Cristo tem força, dramaticidade e uma linguagem escultórica moderna. Há naquela figura uma dimensão profundamente humana. É um Cristo que parece carregar não apenas a cruz, mas também as dores, as esperanças e as contradições do homem sertanejo.

Talvez seja justamente essa característica que explique por que a obra ultrapassou o campo da religião e se transformou em patrimônio cultural.

“O Cristo de Mário Cravo pertence à fé de muitos, mas também pertence à memória coletiva de todos. E patrimônio histórico é exatamente isso: aquilo que uma sociedade reconhece como parte de sua trajetória e decide transmitir às próximas gerações.”

O que o decreto realmente protege

O decreto municipal tem um mérito que considero fundamental: ele não protege somente a estrutura física da escultura. Protege também suas características artísticas, escultóricas, materiais, construtivas, formais e volumétricas, além de seus aspectos históricos, documentais, simbólicos, culturais e paisagísticos.

Isso é fundamental.

Preservar um monumento não significa simplesmente impedir que alguém o destrua. Significa compreender que uma obra de arte possui contexto, proporção, entorno, visibilidade e significado. Alterar indiscriminadamente seu ambiente pode ser uma forma silenciosa de descaracterizá-la.

Por isso, considero particularmente importante a definição futura da área de entorno e de proteção visual.

O Cristo não pode ser analisado isoladamente. Ele dialoga com a Serra do Periperi. Dialoga com o horizonte. Dialoga com a cidade. Dialoga com a própria paisagem de Vitória da Conquista.

Se perdermos essa relação, poderemos conservar a escultura fisicamente e, ao mesmo tempo, destruir aquilo que faz dela um monumento verdadeiramente singular.

Imagine, no futuro, uma Vitória da Conquista cada vez mais verticalizada, com construções ocupando indiscriminadamente os espaços de visibilidade do Cristo. Poderíamos ter uma escultura preservada e, ainda assim, ter perdido a paisagem que lhe dá sentido.

É justamente para evitar esse tipo de erro que o tombamento precisa ser acompanhado de planejamento urbano, responsabilidade ambiental e consciência cultural.

Preservar não é congelar

Mas preservar não significa congelar.

Também considero importante que o decreto mantenha a possibilidade de utilização do espaço para atividades culturais, turísticas, religiosas, educativas e de lazer. Patrimônio que não dialoga com a população corre o risco de transformar-se apenas em objeto de contemplação.

O Cristo precisa continuar vivo na cidade.

Pode ser espaço de oração, de turismo, de educação patrimonial, de manifestações culturais e de encontro. Pode receber visitantes. Pode ser integrado a roteiros turísticos. Pode ser valorizado como referência da história de Vitória da Conquista e da arte baiana.

O que precisamos impedir não é o uso do espaço. É o uso irresponsável.

E aqui está, talvez, a grande oportunidade que o tombamento oferece: transformar preservação em política pública.

Uma cidade feita também de memória

Vitória da Conquista possui uma história rica, mas ainda precisa avançar muito na valorização de seu patrimônio histórico e cultural. Uma cidade não é feita apenas de avenidas, prédios, viadutos e novas obras. Ela também é feita das marcas que o tempo deixou.

Uma cidade sem memória pode até crescer. Mas cresce sem saber exatamente quem é.

O Cristo de Mário Cravo nos lembra de onde viemos.

E, de alguma maneira, também nos pergunta para onde estamos indo.

Como conquistense, vejo nesse tombamento uma vitória da memória. Vejo uma decisão que ultrapassa governos e administrações porque pertence à cidade. O patrimônio histórico não deveria ser propriedade de um grupo político, de uma gestão ou de uma geração. Ele pertence à coletividade.

“O ato oficial marcado para segunda-feira, 17 de agosto, Dia Nacional do Patrimônio Histórico, ganha um significado especial. A data não poderia ser mais simbólica.”

É como se Vitória da Conquista estivesse dizendo a si mesma: nós reconhecemos o valor daquilo que recebemos das gerações anteriores e assumimos a responsabilidade de entregar isso às gerações que ainda virão.

O Cristo Crucificado de Mário Cravo Júnior continuará no alto da Serra do Periperi.

Mas, a partir de agora, ele estará ali também sob a proteção formal da lei.

Que este seja apenas o começo

Que esse tombamento seja apenas o começo.

Que possamos preservar nossas igrejas, nossas praças, nossos prédios históricos, nossos documentos, nossas manifestações culturais e nossas paisagens. Que possamos ensinar às novas gerações que patrimônio não é coisa velha. Patrimônio é aquilo que o tempo transformou em parte de nós.

E talvez seja essa a maior beleza do Cristo.

Ele está imóvel, mas a cidade ao seu redor nunca parou de mudar.

Ele permanece silencioso, mas conta uma história.

Ele está no alto da Serra do Periperi, mas pertence ao coração de Vitória da Conquista.

Agora, oficialmente reconhecido como patrimônio histórico, artístico, cultural e paisagístico, o Cristo de Mário Cravo deixa ainda mais claro que preservar uma obra de arte é, muitas vezes, preservar a própria alma de uma cidade.

E uma cidade que preserva sua memória não vive apenas do passado.

Ela constrói, com mais consciência, o seu futuro.

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Padre Carlos