Política e Resenha

ARTIGO — No PL, defender a soberania brasileira virou crime de lesa-Trump

 

(Padre Carlos)

Há momentos na política brasileira em que a realidade parece ter contratado um roteirista de comédia. O problema é que ninguém avisou ao público. A expulsão — posteriormente revista — do deputado federal Antônio Carlos Rodrigues do PL, depois de ele criticar Donald Trump e defender a soberania brasileira diante da aplicação da Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes, foi um desses momentos. O episódio aconteceu em julho de 2025, quando Rodrigues chamou a punição americana de “absurdo” e afirmou que Trump deveria cuidar dos Estados Unidos em vez de se meter nos assuntos brasileiros.

Parece uma frase banal. Afinal, em qualquer país minimamente convencido de sua própria soberania, dizer que um presidente estrangeiro deve cuidar dos assuntos de seu próprio país seria quase uma obviedade. Mas não no fascinante universo político em que vivemos. No Brasil de determinadas alas do bolsonarismo, aparentemente, existe uma nova regra constitucional: a soberania nacional continua sendo brasileira, desde que não contrarie Washington.

Antônio Carlos Rodrigues descobriu isso da maneira mais didática possível.

O deputado não precisou defender Lula. Não precisou vestir vermelho. Não precisou fazer discurso em defesa do PT. Não precisou sequer abandonar o PL. Bastou dizer que Donald Trump não deveria interferir nos assuntos internos do Brasil e que Alexandre de Moraes era um jurista competente.

Pronto.

Crime gravíssimo.

Aparentemente, para uma parte do PL, o problema não é mais defender o Brasil. O problema é defender o Brasil quando isso desagrada Donald Trump.

Eis aí uma inversão de valores que mereceria estudo em faculdade de Ciência Política, Sociologia, Psicologia e, por que não, Psiquiatria política — embora os psiquiatras provavelmente devolvessem o caso dizendo que não trabalham com fenômenos partidários tão complexos.

Valdemar Costa Neto foi direto ao justificar a decisão: segundo ele, a pressão da bancada havia sido muito grande e criticar o presidente dos Estados Unidos seria uma “ignorância sem tamanho”. Também afirmou que Trump é o presidente do país mais forte do mundo e que seria necessário diálogo e diplomacia.

É uma argumentação curiosa.

Porque, seguindo essa lógica, talvez o cidadão brasileiro devesse escolher suas opiniões internacionais de acordo com o tamanho do PIB do país criticado.

Se for o presidente de uma potência, silêncio reverencial.

Se for presidente de uma nação menor, pode criticar à vontade.

Imagine o Itamaraty recebendo a nova cartilha: “Antes de emitir qualquer opinião, consulte o ranking econômico do país envolvido.”

E há uma pergunta que não quer calar: quando foi que a grandeza econômica de uma nação passou a determinar o direito que os brasileiros têm de defender sua própria soberania?

Trump pode ser o presidente dos Estados Unidos. Pode ser poderoso. Pode comandar uma das maiores economias do planeta. Pode ter influência militar, econômica e diplomática extraordinária. Tudo isso é verdade.

Mas ele não é presidente do Brasil.

E isso também é verdade.

A soberania brasileira não deveria depender da aprovação da Casa Branca, de Mar-a-Lago ou de qualquer outro endereço onde esteja hospedado o presidente americano.

O mais curioso é que Rodrigues não estava fazendo uma defesa abstrata de Alexandre de Moraes. Estava defendendo um princípio muito maior: nenhum governo estrangeiro deveria utilizar instrumentos de pressão contra autoridades brasileiras como se o Brasil fosse uma extensão administrativa dos Estados Unidos.

Pode-se discordar de Moraes. E muita gente discorda.

Pode-se criticar decisões do STF. E deve-se poder criticá-las.

Pode-se questionar excessos do Judiciário, discutir liberdade de expressão, devido processo legal, limites institucionais e separação dos Poderes.

Tudo isso faz parte da democracia.

Mas uma coisa é criticar Moraes como brasileiro.

Outra, completamente diferente, é comemorar que uma potência estrangeira tente punir uma autoridade brasileira e considerar isso uma vitória política.

E aqui está o ponto mais constrangedor de toda essa história.

A soberania brasileira, que deveria ser uma questão de Estado, acabou transformada em questão de torcida organizada.

Se a pressão vem da esquerda, determinados grupos gritam “entreguismo”.

Se vem de Washington contra alguém que eles não gostam, aparece uma multidão para comemorar.

É como se o patriotismo tivesse passado a funcionar por aplicativo: patriotismo disponível somente quando favorece o meu político.

O episódio Antônio Carlos Rodrigues revelou uma contradição monumental. O deputado foi punido por dizer que Trump não deveria se meter no Brasil. Segundo as reportagens da época, a decisão foi impulsionada pela pressão da bancada do PL.

Mas a pergunta deveria ser outra: o que exatamente o partido estava defendendo?

O Brasil?

Ou Trump?

Porque são coisas diferentes.

E aqui aparece a inversão de valores.

Durante décadas, a direita brasileira falou — corretamente — sobre soberania, independência nacional, defesa das instituições e interesse brasileiro. Agora, setores dessa mesma direita parecem ter encontrado uma espécie de soberania terceirizada: o Brasil é soberano, desde que Washington concorde.

É uma curiosa forma de nacionalismo.

Um nacionalismo que precisa de autorização estrangeira para funcionar.

Um patriotismo com passaporte americano.

E não há nada mais irônico do que um partido que se apresenta como defensor da pátria expulsar um deputado justamente porque ele disse que um presidente estrangeiro não deveria interferir nos assuntos brasileiros.

É quase uma caricatura pronta.

Faltou apenas alguém sugerir a criação do cargo de “Ministro brasileiro adjunto do governo Trump” para completar o organograma.

Mas há algo ainda mais grave.

A política brasileira não pode transformar relações internacionais em extensão das guerras internas. Estados Unidos são aliados importantes do Brasil. A relação entre os dois países é estratégica. Há interesses econômicos, comerciais, tecnológicos, militares e diplomáticos envolvidos.

Justamente por isso, o Brasil precisa de maturidade.

Aliados não são donos.

Potências não são tutores.

E presidente estrangeiro não é autoridade superior ao presidente da República, ao Congresso Nacional ou ao Supremo Tribunal Federal brasileiros.

O Brasil pode negociar.

Pode dialogar.

Pode divergir.

Pode protestar.

Pode buscar acordos.

Pode até ceder em determinados pontos, quando isso for interesse nacional.

O que não pode é transformar a política externa brasileira em torcida por político estrangeiro.

Porque, quando isso acontece, o interesse nacional desaparece.

E quando o interesse nacional desaparece, sobra apenas a paixão partidária.

O caso de Antônio Carlos Rodrigues é especialmente simbólico porque ele não foi expulso por defender uma potência estrangeira contra o Brasil. Foi justamente o contrário: ele foi punido por afirmar que uma potência estrangeira deveria respeitar os limites da soberania brasileira.

E depois veio a parte ainda mais curiosa da história: o próprio Conselho de Ética do PL recuou da expulsão em setembro de 2025. Ou seja, o partido conseguiu produzir uma crise política tão grande que primeiro expulsou, depois reconsiderou.

A política brasileira, como se sabe, às vezes não precisa de oposição.

Ela consegue produzir sua própria sátira.

No fim, Antônio Carlos Rodrigues acabou oferecendo uma rara oportunidade de reflexão sobre aquilo que deveria ser elementar: um deputado brasileiro tem todo o direito de discordar de Donald Trump, defender Alexandre de Moraes ou criticar uma sanção estrangeira sem ser tratado como inimigo da própria legenda.

E mais: deveria ser justamente o contrário.

Se alguém precisa ser lembrado de que o Brasil é um país soberano, talvez o problema não esteja no deputado que fez a lembrança.

Talvez esteja em quem se incomodou com ela.

Porque patriotismo não é gostar de quem ocupa a Casa Branca.

Patriotismo é defender os interesses do Brasil mesmo quando isso significa contrariar quem ocupa a Casa Branca.

E talvez seja exatamente aí que esteja a piada involuntária de toda essa história: o deputado foi acusado de ignorância por criticar o presidente do país mais poderoso do mundo.

Ora, se criticar o poderoso é ignorância, então talvez a democracia tenha descoberto sua nova definição.

Inteligência política, aparentemente, é saber quem pode mandar em você.

Só esqueceram de explicar uma coisa:

quem elegeu Donald Trump foram os americanos.

Os brasileiros elegeram os brasileiros.

E, enquanto isso continuar sendo verdade, a soberania do Brasil não pode depender do humor de Washington — nem da aprovação de qualquer partido brasileiro.

Porque uma coisa é ser aliado dos Estados Unidos.

Outra, bem diferente, é querer ser colônia.

E entre as duas existe uma palavra que alguns parecem ter esquecido:

Brasil.