Política e Resenha

A onda LuNeto e o sinal de alerta que a política baiana não pode ignorar

A onda LuNeto

Por Padre Carlos

Há momentos na política em que um fenômeno deixa de ser apenas uma conversa de bastidores e começa a ganhar vida própria. O chamado “LuNeto” — Lula para presidente e ACM Neto para governador — parece caminhar justamente nessa direção, e o mais interessante é que essa possibilidade não surgiu agora. Há pelo menos um ano, o Política e Resenha vinha chamando atenção para a possibilidade de o eleitor baiano separar cada vez mais as disputas nacional e estadual, recusando a velha lógica de que quem vota em Lula necessariamente precisa votar no candidato petista ao governo.

Um ano acompanhando o fenômeno

Em dezembro de 2024, este blog já analisava a necessidade de ACM Neto construir uma oposição capaz de romper a hegemonia petista na Bahia e observava que a eleição de 2026 poderia produzir uma disputa muito diferente das anteriores. Em março de 2025, novamente registramos que a liderança de Neto na corrida estadual poderia produzir um “efeito Neto” capaz de redesenhar o tabuleiro eleitoral baiano. Hoje, diante do crescimento do debate sobre o voto cruzado, aquela hipótese deixou de parecer uma simples especulação editorial.

O fenômeno precisa, entretanto, ser analisado com cuidado. “LuNeto” não significa necessariamente uma adesão ideológica a uma aliança entre Lula e ACM Neto. Significa, antes de tudo, a possibilidade de o eleitor estabelecer uma escolha pragmática: manter Lula no Palácio do Planalto e, simultaneamente, mudar o comando do governo baiano. É uma separação de votos que pode revelar algo muito mais profundo: a crescente autonomia do eleitor diante das estratégias tradicionais dos partidos.

E talvez seja exatamente isso que esteja incomodando o PT.

O caso Tiago Dias e a reação política e judicial

A reação política e judicial ao fenômeno merece atenção. O ex-prefeito de Jacobina, Tiago Dias, por exemplo, tornou pública sua intenção de votar em Lula para presidente e ACM Neto para governador, provocando uma representação eleitoral apresentada pelo grupo petista. O caso chegou às redes sociais e transformou uma manifestação individual de voto em um episódio de repercussão estadual.

Em uma democracia, o eleitor não pertence a partido algum. Ele pode votar em um candidato para presidente, em outro para governador, em outro para senador e fazer escolhas diferentes para deputado federal e estadual. A urna eletrônica brasileira não exige coerência partidária do eleitor. Exige apenas que ele manifeste livremente sua vontade.

Por isso, qualquer tentativa de impedir, intimidar ou criminalizar uma manifestação política legítima precisa ser examinada com extremo cuidado. A Justiça Eleitoral tem a função indispensável de impedir abusos, desinformação e ilegalidades durante uma campanha, mas isso é muito diferente de tentar controlar a forma como um cidadão organiza suas preferências eleitorais.

O episódio de Tiago Dias, portanto, não deve ser analisado apenas como uma briga entre PT e oposição. Ele coloca uma questão democrática maior: até onde pode ir a disputa eleitoral sem transformar o eleitor em propriedade política de uma legenda?

O debate da Band e a centralidade de Neto

No primeiro debate da eleição para o Governo da Bahia realizado pela Band, em 9 de agosto, participaram Jerônimo Rodrigues, ACM Neto e Ronaldo Mansur. A cobertura do debate registrou momentos em que Mansur e Jerônimo convergiram nos ataques a Neto, embora o candidato do PSOL também tenha apresentado diferenças em relação ao petista.

É possível interpretar essa dinâmica simplesmente como estratégia eleitoral. Afinal, debates são arenas de confronto e candidatos procuram naturalmente atingir o adversário que consideram mais ameaçador. Mas politicamente existe uma leitura adicional: quando diferentes candidaturas concentram seus ataques em um mesmo adversário, isso revela quem está ocupando o centro da disputa.

Não significa que exista necessariamente uma conspiração, nem que PSOL e PT tenham uma aliança eleitoral formal contra ACM Neto. Os fatos disponíveis não autorizam tamanha conclusão. Mas a dinâmica do debate evidencia que Neto passou a ocupar uma posição central no conflito eleitoral. E isso ajuda a compreender a importância do “LuNeto”.

O que dizem as pesquisas

A lógica tradicional da política baiana durante os últimos ciclos eleitorais foi construída sobre uma equação simples: Lula + PT = governador do campo lulista. O problema é que o eleitor pode decidir quebrar essa equação. E quando ele quebra uma equação eleitoral que parecia consolidada, os partidos entram em estado de alerta.

Paraná Pesquisas — 27 a 30 de junho de 2026

Cenário estimulado para o Governo da Bahia:

ACM Neto: 49,2%  |  Jerônimo Rodrigues: 37,5%

Não é uma fotografia definitiva da eleição, mas revela que existe uma disputa real e competitiva.

É justamente nesse ambiente que surge o voto cruzado. O eleitor baiano pode estar dizendo uma coisa muito simples: “Eu gosto de Lula para presidente, mas não necessariamente quero o PT no governo da Bahia.”

Isso não é uma contradição. É política. É democracia. É liberdade de escolha.

O precedente de 2022

A história recente da Bahia já demonstrou que o eleitor é perfeitamente capaz de separar suas escolhas. Em 2022, ACM Neto terminou o primeiro turno com 40,80% dos votos para governador, enquanto Lula obteve votação expressiva no estado para presidente. No segundo turno estadual, Jerônimo acabou vencendo com 52,79% contra 47,21% de Neto.

A novidade de 2026 pode ser justamente a tentativa de transformar essa separação de votos em fenômeno político consciente e declarado. E aqui está a grande ironia: quanto mais se tenta combater uma ideia apenas porque ela é eleitoralmente inconveniente, maior pode ser a curiosidade que se desperta em torno dela.

A autonomia que assusta as estruturas partidárias

O “LuNeto” talvez seja mais do que um slogan. Pode ser a expressão de um eleitorado que não quer mais receber o pacote completo oferecido pelos partidos. Um eleitor que diz: “Na eleição presidencial, faço uma escolha. Na estadual, faço outra.”

Essa autonomia assusta estruturas partidárias porque desmonta a velha engenharia eleitoral baseada na transferência automática de votos. Durante décadas, lideranças políticas construíram campanhas sobre a lógica de que o eleitor deveria seguir uma determinada combinação. Agora, as redes sociais permitem que pessoas comuns formulem suas próprias combinações, criem slogans, produzam vídeos e disputem a narrativa diretamente.

A política deixou de ser completamente vertical. O eleitor também virou produtor de narrativa. E isso é impossível de ser controlado apenas com estruturas partidárias.

O desafio do PT baiano

O PT baiano, portanto, precisa decidir se pretende combater o fenômeno ou compreender suas causas. Porque há uma diferença enorme entre as duas coisas. Se “LuNeto” estiver crescendo apenas por ação de influenciadores, ele pode desaparecer rapidamente. Mas se estiver crescendo porque existe um contingente de eleitores lulistas insatisfeitos com o governo estadual, então perseguir o slogan não resolverá o problema.

Será necessário compreender o eleitor. E esse é o ponto mais importante desta eleição. Partidos não perdem eleições porque um slogan viralizou. Perdem quando deixam de compreender aquilo que o slogan representa.

Talvez a pergunta correta, portanto, não seja “como impedir o LuNeto?”, mas sim: “por que um eleitor que pretende votar em Lula está disposto a votar em ACM Neto para governador?” Essa é uma pergunta incômoda. Mas a democracia costuma fazer perguntas incômodas.

A eleição pertence ao eleitor

O Política e Resenha vem acompanhando essa movimentação há mais de um ano. O que antes parecia apenas uma possibilidade — a separação entre o voto presidencial e o voto estadual — começa agora a aparecer no discurso público, nas redes sociais, nas manifestações de lideranças e na própria estratégia dos candidatos.

Ainda é cedo para afirmar que o “LuNeto” será decisivo em outubro. Não existe pesquisa suficientemente ampla que permita transformar o fenômeno em percentual consolidado do eleitorado. Tampouco é possível afirmar que todo eleitor lulista que simpatiza com a ideia efetivamente votará dessa maneira. Mas uma coisa já pode ser afirmada: o fenômeno entrou na agenda política. E quando uma ideia entra na agenda política, não adianta fingir que ela não existe.

A Bahia de 2026 poderá produzir uma eleição em que a maior surpresa não esteja apenas em quem ganhará ou perderá, mas na maneira como os baianos decidirão votar. Talvez o eleitor não queira mais votar de acordo com a cartilha dos partidos. Talvez queira Lula em Brasília e outro nome no Palácio de Ondina. Talvez queira exatamente o contrário. Talvez ainda esteja indeciso. E tudo isso é legítimo.

Porque, no final das contas, a eleição não pertence ao PT, ao União Brasil, ao PSOL, a Lula, a ACM Neto ou a Jerônimo Rodrigues. A eleição pertence ao eleitor. E talvez seja justamente essa descoberta que esteja provocando tanto barulho na política baiana.

A onda, se realmente existir, não será criada por este blog, por influenciadores ou por qualquer partido. Ela nascerá da urna. E, quando a urna fala, nenhuma estratégia de comunicação consegue substituir a vontade soberana do eleitor.


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Padre Carlos — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha