Política e Resenha

Bira, o menino de Tremedal que ganhou o mundo

 O mistério de onde repousam suas cinzas

Entre Tremedal, Vitória da Conquista, Salvador, a França e o mundo, a trajetória de Ubirajara Pereira de Brito foi extraordinária; mas sua última geografia deixou uma pergunta sem resposta.

Há perguntas que nascem depois da morte. Algumas procuram apenas uma explicação. Outras procuram um lugar para a memória.

A pergunta que trago hoje não nasce da revolta, muito menos da acusação. Nasce da amizade. Nasce da saudade. Nasce daquela espécie de perplexidade que às vezes acompanha a partida de alguém que conhecemos profundamente e que, mesmo depois de morto, continua nos ensinando a fazer perguntas.

Por que as cinzas de Ubirajara Pereira de Brito, o nosso Bira, foram destinadas a Condeúba e à Lapa, segundo o relato que chegou até mim, e não a Tremedal ou Vitória da Conquista?

Eu não sei.
E talvez seja justamente porque não sei que preciso perguntar.

Não faço acusação à família. Não atribuo intenção a ninguém. Não conheço a decisão íntima que determinou o destino de suas cinzas. Pode existir uma explicação absolutamente simples, familiar, afetiva ou pessoal que eu desconheça.

Mas existe uma coisa que conheço.
Eu conheci Bira.
E conheci durante mais de quarenta anos.

Conheci o homem, o intelectual, o cientista, o professor, o homem público. Conheci também o amigo. Compartilhei sua conversa, sua inteligência, sua cultura e sua maneira particular de enxergar o mundo. Tenho, guardados comigo, dois livros prefaciado por ele, entre eles Pedralismo, um Fenômeno Social.

E há uma dívida de gratidão que talvez seja impossível pagar.
Bira me incentivou a escrever.

Se hoje transformo lembranças em palavras, se ainda acredito que a memória de uma cidade também pode ser contada por meio de livros, artigos e histórias, há um pouco daquele incentivo em cada página que escrevo.

Por isso esta não é uma biografia fria.
É uma despedida que ainda não terminou.
É a tentativa de compreender como um homem que pertenceu a tantos lugares pode ter deixado atrás de si uma pergunta tão pequena na aparência e tão grande no significado: onde repousa a memória de um homem?

O menino que saiu do sertão

Ubirajara Pereira de Brito nasceu em 1934 e morreu em Vitória da Conquista, aos 88 anos, em julho de 2022. Fontes locais e acadêmicas o identificam como filho de Tremedal, cidade de onde saiu ainda jovem em direção a Vitória da Conquista.

Há, curiosamente, um detalhe documental que merece registro: a página oficial da Presidência da República que relaciona os ministros do governo José Sarney o identifica como natural de Condeúba.

Não vou transformar essa divergência em certeza artificial.
Ao contrário.
Ela apenas mostra como a própria biografia de Bira já carrega uma geografia complexa, feita de raízes, famílias, cidades e caminhos.

Mas a memória regional que conheci — e que também aparece em registros acadêmicos — aponta para Tremedal como o lugar de onde saiu o menino que chegaria tão longe. Uma tese da UESB, inclusive, registra expressamente que Ubirajara Brito era de Tremedal, saiu de lá para Vitória da Conquista e depois seguiu para Salvador.

E é aqui que começa a grande história.
Porque há homens que deixam sua terra para conquistar o mundo.
E há outros que conquistam o mundo sem jamais deixar completamente a terra dentro de si.
Bira foi desses.

Tremedal foi o começo.
Conquista foi a formação.
Salvador foi a grande porta.
A França foi o salto para o mundo.
E a Bahia, de algum modo, continuou sendo a casa para a qual ele voltaria.

Padre Palmeira e a primeira porta

Em Vitória da Conquista, Bira encontrou o Ginásio do Padre Palmeira. O antigo Ginásio do Padre foi uma das experiências educacionais marcantes da cidade. Estudos sobre a história da educação conquistense registram a importância daquela instituição, dirigida pelo Padre Luiz Palmeira, para a formação de jovens da região.

Na memória de quem conviveu com Bira, ele chegou ali ainda adolescente e passou a morar na casa do padre, recebendo alimentação, acomodação e condições para estudar, enquanto ajudava em pequenas tarefas cotidianas.

Levar correspondências.
Buscar jornais.
Transportar materiais.
Ajudar nos serviços da casa.
Ajudar, inclusive, em tarefas ligadas às atividades religiosas do padre.

Não vejo nisso uma história de humilhação.
Vejo uma história de formação.
Porque muitas vezes os grandes destinos começam em tarefas pequenas.

Enquanto aquele menino levava uma correspondência ou um jornal, ninguém poderia imaginar que um dia ele levaria o nome do sudoeste baiano para universidades europeias e instituições científicas internacionais.

A grandeza de uma trajetória não costuma avisar quando está começando.
Talvez seja essa uma das mais bonitas lições de Bira.

Ele não nasceu em um centro científico.
Nasceu no interior.
Não começou a vida cercado pelas instituições que depois frequentaria.
Precisou atravessar portas.
E cada porta aberta produziu outra.

Euclides Dantas e a escola do sertão

Há ainda uma dimensão bonita nessa história.
Antes de Salvador, antes da universidade, antes da França, existiu a escola regional.

E, na memória histórica da região, aparece a figura extraordinária de Euclides Dantas. Bira chegou a registrar, em depoimento oral utilizado em pesquisa acadêmica da UESB, suas experiências de formação intelectual e a importância dos mestres que encontrou ainda muito jovem.

É importante lembrar isso porque a história de Bira não começou em Paris.
Começou no sertão.
Começou quando o conhecimento ainda era uma promessa.
Começou quando um menino precisava de alguém que dissesse: vá em frente.

Salvador: a porta que parecia não ser para ele

Depois veio Salvador. O Colégio Estadual da Bahia, conhecido historicamente como Colégio Central, foi parte dessa formação. Registros sobre sua trajetória indicam que Bira estudou no Colégio Estadual da Bahia entre 1951 e 1955.

Depois veio a Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia.
E aqui a história ganha uma dimensão maior.
Porque a universidade, naquele tempo, não era apenas uma instituição.
Era uma fronteira social.

Entrar na universidade significava atravessar um território que, para muitos jovens do interior, parecia reservado a outros.

Bira atravessou.
Formou-se engenheiro civil.
E não entrou apenas para aprender.
Passou também a ensinar.

Há registros de sua atuação como professor de Física do Colégio Estadual da Bahia e, posteriormente, como professor da Escola Politécnica da Bahia.

Aquele menino que um dia precisou de ajuda para estudar começava a se tornar mestre de outros.
A roda começava a girar.

O sertanejo diante do mundo

Então veio a França.
E aqui gosto de imaginar, apenas como imagem literária, o momento em que aquele homem que havia saído de Tremedal percebeu a distância que havia percorrido.

Tremedal.
Conquista.
Salvador.
Paris.

No mapa, um oceano.
Na inteligência, nenhuma fronteira.

Bira doutorou-se em Ciências Físicas pela Faculdade de Ciências de Orsay, da Universidade de Paris, e atuou como professor de Geonuclear naquela instituição. Foi também pesquisador do Centre National de la Recherche Scientifique, o CNRS, uma das mais importantes instituições científicas da França.

Não é preciso inventar grandeza.
Os documentos já são grandes o bastante.
Um menino do interior da Bahia chegou à ciência europeia.
E voltou.
Essa talvez seja a parte mais bonita de sua história.

A ciência, a Lua e o mundo

Bira chegou a participar do grupo de cientistas que analisaram amostras de rochas lunares trazidas pelas missões Apollo. A própria Prefeitura de Vitória da Conquista registra essa participação em sua nota oficial de pesar.

É uma imagem poderosa.
As mãos de um homem nascido no sertão baiano diante de fragmentos trazidos da Lua.
A metáfora praticamente se escreve sozinha.

Um menino que veio de uma terra de estradas de chão, dificuldades e horizontes largos acabou examinando pedaços de um outro mundo.
Mas talvez o mais importante seja aquilo que aconteceu depois.

Bira não ficou preso à própria glória.
Voltou.

Exerceu funções públicas relevantes, foi ministro da Educação e da Ciência e Tecnologia e ocupou outras posições na administração pública e na área científica. Documentos do governo federal registram sua atuação como secretário-geral do Ministério da Educação e sua presença na estrutura do Ministério da Ciência e Tecnologia.

A Câmara de Vitória da Conquista também registra sua atuação como diretor executivo das Pioneiras Sociais da Rede Sarah de Hospitais de Brasília e sua participação em organismos científicos nacionais e internacionais.

Não preciso aumentar o currículo.
O currículo já é extraordinário.

O homem que poderia morar no mundo

E aqui está uma das grandes contradições bonitas da vida de Bira.
Depois de conhecer o mundo, ele poderia ter ficado no mundo.

Poderia ter escolhido Paris.
Poderia ter escolhido outro país.
Poderia ter permanecido entre os grandes centros científicos.

Mas voltou para a Bahia.
E escolheu Vitória da Conquista como morada.
A cidade que o recebera adolescente tornou-se também a cidade onde ele morreria.

A Câmara Municipal registrou, no momento de sua morte, essa relação: Bira era filho de Tremedal, mas havia adotado Vitória da Conquista como sua terra.

Isso diz muito.
Porque existem cidades que nos dão nascimento.
E existem cidades que nos dão destino.

Tremedal lhe deu o começo.
Conquista lhe deu a formação.
Tremedal era o menino.
Conquista era o jovem que descobria o mundo.
Uma cidade era origem.
A outra, construção.

E talvez por isso Bira pudesse dizer, como ficou na memória de seus amigos, que era filho das duas.

O amigo que me ensinou a escrever

Agora preciso deixar a biografia de lado.
Porque existe uma parte dessa história que nenhum documento oficial consegue registrar.
A amizade.

Eu conheci Bira durante mais de quarenta anos.
E conviver com ele era desfrutar de uma inteligência que não fazia questão de se esconder atrás de formalidades.

Era conversar com alguém que tinha visto muito mais mundo do que nós, mas que continuava falando da Bahia com familiaridade.

Bira não era apenas o cientista que aparecia nos currículos.
Era o amigo.
Era o homem que conversava.
Era o intelectual que provocava.
Era aquele que fazia a gente pensar um pouco além do lugar onde estava.

Tenho dois livros autografados por ele.
Um deles, Pedralismo, um Fenômeno Social.

À primeira vista, são apenas livros.
Para mim, não.
São vestígios.
São objetos que sobreviveram ao tempo.
São quase uma fotografia da amizade.

E existe uma coisa ainda maior. Bira me incentivou a escrever. Talvez ele não soubesse a dimensão daquele gesto. Mas eu sei. Há pessoas que nos dão livros. Há pessoas que nos dão oportunidades. E há pessoas que nos dão coragem. Bira me deu um pouco dessa coragem.

Por isso, quando escrevo sobre ele, não escrevo apenas sobre o cientista.
Escrevo sobre alguém que ajudou a formar o escritor que sou.

Se há alguma presença de Bira nas minhas páginas, ela não está apenas no nome dele.
Está no próprio ato de escrever.

A última viagem

Em 20 de julho de 2022, Bira morreu no Hospital Samur, em Vitória da Conquista, aos 88 anos. A Câmara Municipal registrou sua morte e informou que o corpo seria levado para Salvador para cremação.

A morte, para um homem que atravessou tantas fronteiras, acabou sendo a única fronteira diante da qual todos somos iguais.

O cientista.
O professor.
O ministro.
O amigo.
O menino de Tremedal.
Todos encontram, um dia, a mesma porta.

Bira havia escolhido ser cremado.
E assim foi.

Depois, porém, surgiu para mim uma pergunta que permanece.
E as cinzas?

Segundo o relato que trago nesta memória, parte de suas cinzas foi destinada a Condeúba e à Lapa.
E é aqui que preciso ser muito cuidadoso.

Eu não tenho a explicação.
Não encontrei, nas fontes públicas consultadas, um documento confiável que esclareça por que esses lugares foram escolhidos.

Não quero inventar.
Não quero acusar.
Não quero transformar uma dúvida em conflito familiar.

Pode haver uma razão perfeitamente legítima.
Pode haver uma história de família que eu desconheça.
Pode haver um desejo de Bira que não chegou até mim.
Pode haver vínculos afetivos que não conheci.
Pode simplesmente existir uma explicação que nunca foi publicada.

Mas então por que perguntar?
Porque memória também é pergunta.
E porque Bira, para mim, sempre esteve ligado a duas cidades.

Tremedal e Vitória da Conquista.
A primeira, como origem.
A segunda, como formação, vida e morada.

É por isso que a questão me acompanha.
Por que não Tremedal?
Por que não Vitória da Conquista?
Não afirmo que deveriam necessariamente ser.
Pergunto apenas por que não foram.

Condeúba e os laços de sangue

Condeúba não é uma cidade estranha à história familiar de Bira. Há registros oficiais que o identificam como natural de Condeúba, e isso mostra que os vínculos familiares e biográficos entre Bira e o município não podem ser simplesmente descartados.

Mas existe uma diferença entre genealogia e memória.
Uma família pode nascer em determinado lugar.
Uma pessoa pode construir sua vida em outro.
E o coração, esse território sem cartório, pode pertencer a vários.

Talvez seja essa a questão.
A memória pertence ao sangue?
Ou pertence também aos lugares onde a vida aconteceu?

Tremedal, a mãe distante

Quando penso em Tremedal, não penso apenas em um município.
Penso no primeiro chão.
Na primeira paisagem.
Na terra que viu nascer um menino que ainda não sabia que um dia seu nome seria pronunciado em universidades, instituições científicas e gabinetes de governo.

Tremedal foi o princípio.
Foi onde começou a história.

E há alguma coisa profundamente simbólica nisso.
Porque uma terra não deixa de ser mãe quando o filho vai embora.
Às vezes acontece exatamente o contrário.
Quanto mais longe o filho vai, mais forte se torna a imagem do lugar de onde ele partiu.

Bira atravessou oceanos.
Mas não nasceu em Paris.
Nasceu na Bahia.

Conquista, a segunda casa

E Conquista?
Conquista foi a cidade que recebeu o adolescente.
Foi onde encontrou mestres.
Foi onde estudou.
Foi onde viveu uma parte decisiva de sua formação.
Foi onde começou a construir o homem que o mundo conheceria.

E foi também onde voltou para morar.
Foi onde morreu.
A própria cidade o recebeu em sua Câmara Municipal para a despedida pública, antes da cremação.

Por isso, quando penso nas cinzas de Bira, não consigo deixar de pensar nessas duas cidades.
Uma deu o nascimento.
A outra testemunhou o destino.

Talvez seja impossível escolher entre elas.
Talvez nem seja preciso.

A pergunta que permanece

Foi Bira quem me ensinou, entre tantas coisas, a importância da palavra.
E agora sou eu quem precisa usar a palavra para fazer uma pergunta sobre ele.

Não uma denúncia.
Não uma acusação.
Uma pergunta.

Se alguém conhece a história verdadeira, talvez possa esclarecê-la.
Talvez exista uma carta.
Talvez exista um pedido.
Talvez exista um documento.
Talvez alguém da família tenha uma explicação que os amigos não conhecem.
Talvez tudo seja muito simples.

E eu gostaria de saber.
Não para contestar.
Não para julgar.
Mas porque a história de um homem como Bira merece ser contada com a maior fidelidade possível.

Ele atravessou fronteiras científicas.
Atravessou fronteiras políticas.
Atravessou fronteiras geográficas.
E agora, depois da morte, permanece diante de uma fronteira diferente: a fronteira entre aquilo que sabemos e aquilo que apenas perguntamos.

Epílogo: onde descansa um homem?

Talvez essa seja a pergunta verdadeira.
Onde descansa um homem?

No lugar onde nasceu?
No lugar onde estudou?
No lugar onde amou?
No lugar onde trabalhou?
No lugar onde morreu?
No lugar onde suas cinzas foram lançadas?
Ou em todos eles?

Bira foi menino de Tremedal.
Foi estudante de Vitória da Conquista.
Foi engenheiro em Salvador.
Foi cientista na França.
Foi homem público no Brasil.
Foi reconhecido internacionalmente.
Foi um homem que conheceu o mundo.
E, apesar de tudo, voltou.

Por isso talvez sua história não possa caber dentro de um único município.
Talvez Bira tenha muitas pátrias afetivas.
Mas isso não elimina a pergunta.
Ao contrário.
Torna a pergunta maior.

Por que suas cinzas foram para Condeúba e para a Lapa?
Por que não Tremedal?
Por que não Vitória da Conquista?

Talvez alguém saiba.
Talvez um dia essa resposta apareça.
E, quando aparecer, será recebida não como acusação, mas como peça que faltava no grande mosaico da vida de um homem extraordinário.

Até lá, resta a memória.
E memória não é coisa que se enterre.

Pode-se lançar cinza ao chão.
Pode-se levá-la para uma cidade, para outra, para uma montanha, para uma igreja, para uma paisagem.
Mas a memória não obedece a mapas.
Ela volta.

Volta pela estrada. Volta pelo sertão. Volta às salas de aula. Volta às conversas. Volta aos livros autografados. Volta às amizades. Volta ao menino. Volta ao homem. Volta a Tremedal. Volta a Vitória da Conquista.

E talvez seja esse o destino verdadeiro de Bira.
As cinzas podem ter uma geografia.
A memória, não.

Porque um homem que nasceu no sertão, atravessou o oceano, chegou à ciência internacional, conheceu o poder, voltou para a Bahia e ainda encontrou tempo para incentivar um amigo a escrever não pode ser reduzido ao lugar onde suas cinzas foram lançadas.

Bira pertence à ciência.
Pertence à história.
Pertence aos amigos.
Pertence à Bahia.
Pertence a Tremedal.
Pertence a Vitória da Conquista.
E pertence, sobretudo, à memória daqueles que tiveram a sorte de conhecê-lo.

Eu fui um deles.
E talvez por isso continue perguntando.
Não para perturbar os mortos.
Mas para que os vivos não esqueçam.

Onde repousam as cinzas de Bira, talvez saibamos.
Onde repousa sua memória, isso ninguém poderá decidir por nós.

Vitória da Conquista
Tremedal
Memória
Ubirajara de Brito
Sudoeste Baiano

Durval Lemos Menezes — Política e Resenha