Ensaio • Tecnologia e Educação
José Alcimar e Marcelo Seráfico*
As universidades, de onde sai quase todo o conhecimento produzido no Brasil, embarcaram na balela da dita Inteligência Artificial (IA) sem nenhuma reflexão preliminar e mínima sobre as implicações do aprendizado de máquina e seus efeitos sobre a propriedade intelectual, os direitos autorais, os impactos materiais (sociais e ambientais, sobretudo) decorrentes da implantação da infraestrutura dos data centers, a soberania política e, no cotidiano da educação, sobre questões pedagógicas simples como a da relação entre professores e estudantes.
Ao se autonomizar do criador e adquirir vida própria, a IA ganha estatuto de sujeito e converte em objetos — rebaixados ao nível de mediação — professores e estudantes. Objetos submetidos a uma dupla mitologia, como sugere Kate Crawford: “o mito de que os sistemas não humanos (computadores ou cavalos) são análogos à mente humana” e “o mito de que a inteligência é algo que existe de forma independente, como algo natural e separado das forças sociais, culturais, históricas e políticas”.
“Tais mitos infectaram por décadas o pensamento das ciências da computação e cognitivas, segundo a engenheira Ellen Ullman, convertendo-se numa espécie de pecado original desses campos de conhecimento.”
Daí que, por vias tortas, o complexo desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação, hoje, passados os tempos heroicos de Alan Turing, seja reduzido por quem as produz, as utiliza e por elas é utilizado ao dualismo cartesiano: afinal, a IA não passaria de uma inteligência incorpórea, livre de qualquer relação com o mundo material.
Sob o encanto da mitologia da IA, conceito e reflexão já não mais encontram abrigo no ensino e as universidades aderem por capitulação e entusiasmo, sem filtro cognitivo, às facilidades do feitiço digital. Wittgenstein atribuía à filosofia a tarefa básica de lutar contra os efeitos enfeitiçadores que formas de discurso exercem sobre o pensamento. O discurso da IA vai mais longe: mais do que enfeitiçar, torna ocioso, senão obsoleto, o ato de pensar. Afinal, pela IA, é possível existir sem pensar.
O admirável mundo novo pós-Huxley
Causa, ou deveria causar, vergonha ou alguma preocupação o modo acachapado, alienado, passivo como professores e cientistas — docentes e pesquisadores (como talvez prefiram alguns) — estão lidando com esse admirável mundo novo. Há deles que preparam as aulas usando o aprendizado de máquina — termo técnico que o marketing das Big Techs batizou de IA —, outros já tentam corrigir provas fazendo o mesmo e vários “escrevem” o que chamam de artigos com o prestimoso auxílio de quem lhes rouba a alma do ofício.
Imbecilizados, muitos cavam a própria cova, pois ensinam a máquina a fazer o que deveriam fazer. Sob o inebriamento dos dispositivos digitais, seguem como povo marcado e feliz — diria Zé Ramalho — rumo ao matadouro, pois logo, e sem se dar conta, se tornarão prescindíveis.
A IA opera sob um sistema lógico inexorável, funciona com eficiência programática e submete a intelligentsia aos limites de sua intensa, abrangente e avassaladora ignorantsia. A essa altura da fase digital do capitalismo, de sua cada vez mais desinibida estrutura bélica, reconhecer que parte da intelligentsia não entendeu a natureza suicida dessa lógica implica pôr em causa todo o sistema de educação e ciência, que parece absolutamente funcionalizado, submetido à ordem do capital.
O reino do algoritmo produz de forma serial a figura adorniana do semiculto: o que vive do cultivo de si mesmo sem si mesmo. Estamos diante de uma tragédia não só anunciada como propagada e cultivada por suas vítimas, que hoje se julgam beneficiárias das máquinas que com elas aprendem. A alienação tomou os ossos de muitos! A redução do encéfalo gera consciências felizes!
O solucionismo tecnológico
Muitos tratam do assunto como se fosse igual à chegada do computador pessoal em nossas vidas. Um raciocínio compreensível, afinal, o trabalho se tornou um sistema regulado por métricas e metas cujo alcance é facilitado pelo uso de máquinas que aprenderam com pessoas. Ou seja, a IA é um complemento do sistema que ajuda a atender às métricas e a dar conta das metas quantitativas utilizadas para a distribuição de distinção entre “cientistas”, com isso erigindo as hierarquias meritocráticas tão criticadas quanto apreciadas na ordem que impõe a competição entre desiguais como cláusula pétrea às vezes passível de compensações.
A IA, longe de ser um problema, aparece como uma solução para trabalhadores da educação e da ciência exaustos. O sistema todo, embora alienante e expropriador da autonomia cognitiva e dos direitos da inteligência, sempre oferece compensações. Solucionismo tecnológico foi como Evgeny Morozov qualificou a ideologia do Vale do Silício que, aliada ao neoliberalismo de Wall Street, tornaram-se os mantras da nova era digital. Em suma: a cada problema criado pela tecnologia, ela mesma fornecerá a solução.
Ora, a singularidade do simulacro dialético entre problemas e soluções tecnológicas, nesse caso, é que a origem e o destino de uns e outros é a mesma. Não estão em pauta as consequências da (pós-)modernidade digital, lembrando Giddens, para a Terra e os trabalhadores, ou seja, a maioria dos que a habitam. O que está em causa é transformar a solução para cada um dos problemas gerados pelas Big Techs e seus associados em um ponto de partida para novo ciclo de acumulação de capital.
Daí que, do ponto de vista dos trabalhadores — cientistas e educadores o são — há um quid mas não um quo na lógica do solucionismo, pois no fim da linha o sistema tende a expelir quem hoje se sente aliviado por encontrar uma forma de ajustar-se, ao invés de combater o que leva à exaustão. O conto de fadas solucionista não tem final feliz!
“A IA é uma prova de que a miséria não significa ausência de meios. Quando apartados do reino dos fins, daquilo que ainda carrega dignidade, os meios podem encurtar o caminho da barbárie.”
Sob belas e atraentes vestes digitais a ignorância pode ocultar e dissimular seu desempenho criminoso. Como escreve Goethe por meio dos sofrimentos do jovem Werther: é coisa triste a raça humana. Trabalha, trabalha, para sobreviver, mas se enche de medo diante da pouca liberdade que lhe resta, a ponto de buscar todos os meios para se livrar dela.
* Professores dos Departamentos de Filosofia e de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas. Agosto de 2026.
Kate Crawford faz menção a Clever Hans, o cavalo-experimento de Wilhelm von Osten, ao qual este ensinou a resolver problemas de matemática, indicar a hora e identificar os dias do calendário, suscitando entusiasmado interesse científico em fins do século XIX. Cf. CRAWFORD, Kate. Atlas de Inteligencia Artificial: poder, política y costos planetarios. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2022, pp. 23-27.
Educação
Ensaio
José Alcimar e Marcelo Seráfico — Política e Resenha





