Política e Resenha

ARTIGO – Quando o sal deixa de salgar: a memória de Padre Alberto Antoniazzi e a atualidade de Padre Antônio Vieira

Padre Carlos

Há memórias que não desaparecem com o tempo. Pelo contrário: quanto mais os anos passam, mais percebemos a importância daqueles que, em algum momento de nossa caminhada, ajudaram a formar aquilo que somos. Hoje, ao recordar meus anos de formação na PUC de Belo Horizonte, veio-me à memória a figura de um grande professor, teólogo e intelectual: Padre Alberto Antoniazzi.

Não é apenas uma lembrança pessoal. É também um exercício de gratidão e de resgate da memória de um homem que deixou uma importante contribuição para a reflexão teológica, pastoral e ética da Igreja no Brasil.

Alberto Antoniazzi nasceu em Milão, em 1937, e iniciou sua trajetória na Arquidiocese de Belo Horizonte na década de 1960. Foi professor da PUC Minas, vice-reitor e uma das figuras intelectuais importantes do clero brasileiro. Dedicou-se à teologia, à filosofia, à pastoral e à reflexão sobre a presença da Igreja na sociedade. Morreu no dia de Natal de 2004, em Belo Horizonte.

Sua memória continua viva na própria PUC Minas. A instituição mantém um importante acervo documental dedicado a ele e, no Instituto de Filosofia e Teologia, existe inclusive a Medalha Acadêmica Professor Padre Alberto Antoniazzi, destinada aos alunos de melhor desempenho acadêmico.

Mas por que me lembrei hoje de Padre Alberto Antoniazzi?

Talvez porque alguns professores não nos ensinem apenas uma disciplina. Eles nos ensinam a olhar o mundo.

E, quando penso em ética, teologia e responsabilidade social, imediatamente me vem à memória uma das grandes páginas da literatura e da reflexão política e religiosa da língua portuguesa: o Sermão de Santo Antônio aos Peixes, do Padre Antônio Vieira, pregado em São Luís do Maranhão, em 1654.

Vieira era um homem do seu tempo, mas tinha uma extraordinária capacidade de enxergar além dele. Utilizando a metáfora dos peixes, dirigiu uma crítica contundente à sociedade, aos poderosos, aos pregadores e à corrupção dos costumes.

É impressionante perceber como uma reflexão escrita há quase quatro séculos continua encontrando eco no Brasil contemporâneo.

Vieira parte de uma passagem do Evangelho de Mateus: “Vós sois o sal da terra.”

E pergunta: se o sal existe para impedir a corrupção, por que a terra continua tão corrompida?

A resposta é de uma atualidade desconcertante.

O problema, diz Vieira, pode estar no sal que não salga ou na terra que não se deixa salgar. E então ele aprofunda a crítica: os pregadores podem dizer uma coisa e fazer outra; podem pregar a si mesmos em vez de pregarem Cristo; e aqueles que os escutam podem preferir imitar seus exemplos em vez de seguir seus ensinamentos.

Aqui está a genialidade de Vieira.

Ele não transforma a corrupção simplesmente em um problema dos outros. Ele nos obriga a olhar para dentro.

Quem deveria combater a corrupção também pode corromper-se.

Quem deveria defender a verdade pode negociar com a mentira.

Quem deveria ensinar ética pode abandonar seus próprios princípios.

Quem deveria servir ao bem comum pode transformar o poder em instrumento de interesse pessoal.

E aqueles que deveriam exigir coerência podem acabar aceitando a incoerência quando ela favorece seus próprios interesses.

É justamente nesse ponto que a lembrança de Padre Alberto Antoniazzi ganha para mim uma dimensão ainda maior.

Antoniazzi compreendia que a ética não poderia ficar confinada às páginas dos livros ou às salas de aula. Em um de seus trabalhos, publicado pela revista Horizonte, tratou diretamente da relação entre ética, religião e política, discutindo temas como democracia, modernidade e responsabilidade social.

Essa perspectiva nos permite compreender que a fé, quando levada a sério, não pode ser indiferente à sociedade.

Não basta falar de justiça. É preciso praticá-la.

Não basta defender a democracia. É preciso respeitá-la.

Não basta condenar a corrupção. É preciso recusar os pequenos privilégios que alimentam a cultura da corrupção.

Não basta falar em verdade. É preciso ter coragem para permanecer fiel a ela quando a mentira parece mais conveniente.

Talvez seja justamente isso que significa ser “sal da terra”.

O sal não existe para aparecer. Ele existe para preservar.

E uma sociedade precisa de pessoas capazes de preservar aquilo que não pode ser negociado: a dignidade humana, a verdade, a justiça, a liberdade, a responsabilidade, a solidariedade e o respeito pelo outro.

Vieira percebeu isso em 1654.

Antoniazzi dedicou sua vida intelectual a refletir sobre questões semelhantes em outro momento histórico.

E nós continuamos diante do mesmo desafio.

A corrupção não é apenas aquela que aparece nos grandes escândalos políticos. Existe também uma corrupção silenciosa, cotidiana, que começa quando nos acostumamos a justificar aquilo que condenaríamos se fosse praticado pelo nosso adversário.

Existe corrupção quando a ética passa a depender da conveniência.

Existe corrupção quando defendemos princípios apenas quando eles beneficiam o nosso lado.

Existe corrupção quando transformamos pessoas em instrumentos e instituições em propriedades particulares.

Existe corrupção quando a consciência se torna negociável.

E talvez esse seja um dos grandes ensinamentos do Sermão aos Peixes: não devemos perguntar apenas quem está corrompendo a sociedade. Devemos perguntar também o que estamos fazendo para impedir que ela se corrompa.

O problema do sal é que, se perder sua capacidade de salgar, deixa de cumprir sua finalidade.

A metáfora é poderosa porque pode ser aplicada à política, à religião, à universidade, ao jornalismo, à Justiça, às instituições e à própria vida cotidiana.

Que acontece quando aqueles que deveriam ser referências deixam de sê-lo?

O que acontece quando professores deixam de ensinar pelo exemplo?

Quando religiosos deixam de viver aquilo que pregam?

Quando políticos esquecem que o poder é uma responsabilidade e não um patrimônio?

Quando jornalistas abandonam a busca pela verdade?

Quando cidadãos passam a defender seus próprios interesses acima do bem comum?

A resposta de Vieira continua incômoda: a terra começa a apodrecer.

É por isso que resgatar a memória de homens como Padre Alberto Antoniazzi não é simplesmente olhar para o passado.

É procurar no passado instrumentos para compreender o presente.

A memória não deve ser um museu de nomes esquecidos. Deve ser uma ponte entre aquilo que fomos e aquilo que ainda podemos ser.

Ao recordar aquele professor que encontrei em minha trajetória na PUC de Belo Horizonte, percebo que algumas lições permanecem conosco mesmo quando os professores já partiram.

Talvez essa seja uma das maiores virtudes do verdadeiro mestre: ele continua ensinando depois de sua morte.

Padre Alberto Antoniazzi morreu em 2004, mas suas ideias permanecem presentes. Sua trajetória foi marcada pela esperança, pela reflexão e pela preocupação com os desafios da Igreja e da sociedade. Um estudo publicado pela própria PUC Minas o apresenta justamente como um “peregrino da esperança”, destacando sua contribuição intelectual e pastoral.

E é essa esperança que quero recuperar hoje.

Esperança de que a ética ainda seja possível.

Esperança de que a política possa voltar a ser compreendida como serviço.

Esperança de que a religião possa contribuir para uma sociedade mais justa sem transformar a fé em instrumento de poder.

Esperança de que a educação continue formando pessoas, e não apenas profissionais.

Esperança de que ainda existam homens e mulheres dispostos a ser sal.

Porque o grande problema talvez não seja apenas descobrir se a terra está corrompida.

A pergunta mais profunda é outra:

Onde estão aqueles que ainda querem salgá-la?

Padre Antônio Vieira fez essa pergunta em 1654.

Padre Alberto Antoniazzi dedicou sua vida à reflexão sobre ética, religião, política e sociedade.

E nós, tantos séculos depois, continuamos diante do mesmo dilema.

Talvez seja justamente por isso que precisamos voltar aos grandes mestres.

Não para repetir suas palavras mecanicamente, mas para recuperar a coragem de pensar.

Para recuperar a capacidade de indignação.

Para recuperar a ética.

Para recuperar a memória.

E, sobretudo, para compreender que nenhuma sociedade conseguirá vencer a corrupção apenas criando leis ou punições. Uma sociedade verdadeiramente ética precisa também formar consciências.

É preciso que o sal volte a salgar.

E talvez essa seja a homenagem mais bonita que podemos prestar aos nossos grandes mestres: não permitir que suas lições morram conosco.

Hoje, ao recordar Padre Alberto Antoniazzi e ao reencontrar as palavras de Padre Antônio Vieira, percebo que o tempo não apagou essas vozes.

Ao contrário.

Talvez seja o nosso tempo que finalmente esteja precisando ouvi-las novamente.

Padre Carlos