Política e Resenha

Quem cuida de quem cuida da enfermagem?

Artigo • Saúde Mental & EnfermagemQuem cuida de quem cuida da enfermagem?

por Padre Carlos

Há pedidos de socorro que não podem ser tratados como uma simples mensagem. Há palavras que atravessam a tela do celular e chegam à consciência como um grito. Foi assim que recebi o relato de uma técnica de enfermagem que procurou uma médica para pedir ajuda. Ela não estava pedindo apenas por si mesma. Estava pedindo pela enfermagem.

“Eu não aguento mais perder gente.”

A frase é curta, mas carrega um mundo de sofrimento.

Segundo o relato dessa profissional, quatro colegas teriam cometido suicídio em apenas um mês. É uma afirmação grave, que precisa ser devidamente investigada e contextualizada antes de ser transformada em estatística. Mas existe algo que não depende de números para ser levado a sério: uma profissional da enfermagem está dizendo que seus colegas estão adoecendo e que alguma coisa precisa ser feita.

E quando alguém que trabalha diariamente cuidando da vida chega ao ponto de dizer que não aguenta mais assistir à perda de seus colegas, a sociedade deveria parar para ouvir.

A pergunta que precisamos fazer é simples e incômoda: quem cuida de quem cuida?

Da homenagem ao cuidado real

Durante a pandemia, a enfermagem foi chamada de heroína. Vimos profissionais exaustos, usando equipamentos de proteção durante horas, entrando em quartos onde poucos tinham coragem de entrar. Aplaudimos nas janelas. Fizemos homenagens. Publicamos fotografias. Chamamos enfermeiros, técnicos e auxiliares de anjos.

Mas existe uma diferença enorme entre homenagear alguém e cuidar dessa pessoa.

Talvez tenhamos criado uma perigosa romantização da profissão. O enfermeiro que suporta tudo é considerado forte. O técnico que trabalha além dos limites é chamado de guerreiro. Aquele que não reclama parece demonstrar compromisso.

Mas a verdade é outra: profissionais de enfermagem também são seres humanos.

Sentem medo. Sentem cansaço. Chorando ou não, carregam histórias.

A enfermagem está ao lado do paciente quando muitas vezes a própria família precisa ir embora. É quem percebe uma alteração no quadro clínico, quem administra medicamentos, quem acompanha a dor, quem atende ao chamado durante a madrugada. É quem segura uma mão em momentos de desespero e, não raramente, presencia os últimos instantes de uma vida.

E depois de tudo isso, muitas vezes precisa fechar aquela porta e entrar no quarto seguinte. Como se nada tivesse acontecido. Mas aconteceu.

Alguma coisa fica.

Fica o rosto do paciente. Fica o sofrimento da família. Fica a lembrança de uma morte inesperada. Fica a pressão de uma decisão tomada em segundos. Fica o medo de cometer um erro. Fica a cobrança de superiores e, algumas vezes, a agressividade de pacientes e acompanhantes.

E depois vem outro plantão.

E outro.

E outro.

Um problema estrutural, não apenas individual

Não podemos falar seriamente de saúde mental na enfermagem sem falar das condições concretas em que esses profissionais trabalham.

Não basta recomendar terapia.

É claro que acompanhamento psicológico pode ser fundamental. Mas não podemos transformar um problema estrutural em uma responsabilidade exclusivamente individual. Não adianta dizer ao trabalhador “cuide da sua saúde mental” quando ele trabalha em jornadas exaustivas, enfrenta equipes reduzidas, precisa fazer plantões sucessivos e ainda convive com insegurança profissional, baixos salários ou vínculos precários.

É preciso cuidar de quem cuida.

Isso significa criar programas permanentes de saúde mental para profissionais de saúde, com atendimento psicológico acessível, acompanhamento institucional, espaços de escuta e prevenção. Significa combater o assédio moral, reduzir a sobrecarga, garantir descanso, dimensionar corretamente as equipes e oferecer condições dignas de trabalho.

Significa também discutir a realidade de muitos profissionais submetidos a contratos terceirizados, cooperativas e vínculos instáveis.

O debate sobre as cooperativas de saúde

Cooperativismo não é, por natureza, sinônimo de exploração. Uma cooperativa verdadeira pode ser instrumento legítimo de organização profissional e distribuição de renda. O problema aparece quando qualquer modelo de contratação é utilizado para transferir riscos para o trabalhador, enfraquecer direitos ou esconder relações precárias de trabalho.

Quando um profissional precisa recorrer a vários plantões e diferentes vínculos para conseguir sobreviver, alguma coisa está errada.

Quando reclamar pode significar perder a escala, existe um problema.

Quando o trabalhador tem medo de falar sobre as próprias condições de trabalho porque teme não ser chamado novamente, existe um problema ainda maior.

E quando esse ambiente de insegurança se soma à exposição permanente à dor, à doença e à morte, precisamos compreender que estamos diante de uma questão de saúde pública e saúde ocupacional.

A enfermagem não pode ser lembrada somente quando falta profissional no hospital. Não pode ser valorizada apenas nas campanhas eleitorais. Não pode receber aplausos quando salva vidas e silêncio quando pede ajuda.

A sociedade precisa compreender que defender a enfermagem não significa defender privilégios. Significa defender aqueles que estão diariamente na linha de frente do cuidado.

Pedir ajuda é um ato de coragem

Quando um profissional da saúde adoece, não sofre apenas o trabalhador. Sofre a família. Sofre a equipe. Sofre o paciente. Sofre o próprio sistema de saúde.

Um profissional emocionalmente destruído não deixou de ser competente ou dedicado. Ele simplesmente chegou ao limite humano.

Por isso, talvez seja necessário abandonar definitivamente a ideia de que pedir ajuda é sinal de fraqueza.

Pedir ajuda é um ato de coragem.

Precisamos ensinar isso dentro das escolas de enfermagem, nos hospitais, nas unidades básicas de saúde, nas clínicas, nos serviços de home care e em todos os lugares onde esses trabalhadores exercem sua profissão.

Precisamos criar canais seguros de escuta.

Precisamos identificar sinais de sofrimento.

Precisamos capacitar gestores para reconhecer o adoecimento emocional.

Precisamos garantir que o profissional possa dizer “não estou bem” sem medo de ser julgado, humilhado ou substituído.

E precisamos falar abertamente sobre suicídio entre profissionais da saúde, sem sensacionalismo, mas também sem silêncio.

Ouvir antes que seja tarde

O pedido daquela técnica de enfermagem deveria servir como um chamado à responsabilidade. Ela pediu que uma médica usasse sua voz porque acredita que algumas vozes são mais ouvidas do que outras.

Eu gostaria de inverter essa lógica.

Não deveríamos precisar de uma pessoa famosa para acreditar na dor de quem trabalha na enfermagem. Deveríamos ouvir a própria enfermagem.

Ouvir antes que o grito vire silêncio.

Ouvir antes que o cansaço vire desistência.

Ouvir antes que a desesperança transforme uma vida em estatística.

A enfermagem não precisa de heróis. Precisa de respeito, dignidade, segurança, remuneração justa, condições adequadas de trabalho e cuidado psicológico.

Precisamos parar de chamar de “vocação” aquilo que muitas vezes é exploração.

Precisamos parar de chamar de “guerreiro” aquele profissional que está simplesmente tentando sobreviver ao próprio trabalho.

Precisamos parar de aplaudir o trabalhador que ultrapassa todos os limites e começar a construir um sistema que não o obrigue a ultrapassá-los.

Não existe cuidado de qualidade quando quem cuida está adoecendo.

Aquela mensagem que chegou como um pedido de socorro talvez seja muito maior do que a história de uma profissional.

Pode ser um espelho. E talvez esteja na hora de a sociedade olhar para ele.

Há milhares de enfermeiros, técnicos e auxiliares entrando diariamente nos hospitais enquanto nós dormimos. Eles chegam para cuidar de desconhecidos, administrar medicamentos, controlar sinais vitais, enfrentar emergências, acolher famílias e, muitas vezes, testemunhar a morte.

No final do plantão, porém, existe uma pergunta que quase nunca fazemos:

“E você, profissional da enfermagem, como está?”

Talvez essa seja a pergunta que precisamos começar a fazer. E, principalmente, precisamos estar preparados para ouvir a resposta.

Porque quem dedica a própria vida a cuidar dos outros também merece ser cuidado.

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— Padre Carlos