Padre Carlos
Em um país acostumado a conviver com profundas desigualdades sociais, poucas políticas públicas simbolizam tão claramente a ideia de cidadania quanto o Sistema Único de Saúde. O SUS não nasceu apenas como um programa governamental; nasceu como um compromisso moral da Constituição Federal de 1988, que reconheceu a saúde como um direito de todos e um dever do Estado.
Essa decisão foi ousada. Talvez até revolucionária. Afinal, poucos países de dimensões continentais e com uma população superior a 200 milhões de habitantes tiveram a coragem de afirmar que nenhum cidadão deveria ser privado de atendimento médico por não possuir dinheiro para pagar. Foi uma aposta na dignidade humana.
Há quem critique o SUS diariamente. Muitas dessas críticas são legítimas. Filas, demora em consultas especializadas, dificuldades de gestão, falta de recursos e desigualdades regionais são problemas reais que precisam ser enfrentados. Defender o SUS não significa fechar os olhos para suas falhas. Pelo contrário: significa lutar para que ele seja cada vez melhor.
Entretanto, é preciso reconhecer uma verdade que frequentemente passa despercebida. Milhões de brasileiros só conseguem realizar consultas, cirurgias, exames de alta complexidade, tratamentos oncológicos, transplantes, vacinação, atendimento de urgência e acompanhamento de doenças crônicas graças à existência do Sistema Único de Saúde.
Quem nunca precisou recorrer ao SUS talvez não perceba a dimensão dessa conquista. Mas basta visitar uma unidade básica de saúde, uma maternidade pública ou um hospital de emergência para compreender que ali não está apenas um serviço público. Está presente a própria ideia de solidariedade nacional.
A pandemia da Covid-19 revelou isso de maneira incontestável. Enquanto diversos países enfrentavam enormes dificuldades para organizar campanhas de vacinação em larga escala, o Brasil utilizou justamente a estrutura construída pelo SUS ao longo de décadas para imunizar milhões de pessoas em tempo recorde. A mesma rede que muitas vezes é criticada mostrou ao mundo sua extraordinária capacidade de mobilização.
Também é importante recordar como nasceu essa política pública. Quando os constituintes de 1988 decidiram criar o SUS, muitos afirmavam que seria impossível financiar um sistema tão abrangente. Talvez tivessem razão ao dizer que os recursos eram insuficientes naquele momento. Mas os idealizadores compreenderam algo fundamental: primeiro era necessário reconhecer o direito; depois, construir os mecanismos para financiá-lo. Direitos fundamentais não podem depender apenas da conveniência dos orçamentos.
O verdadeiro desafio brasileiro nunca foi decidir entre manter ou extinguir o SUS. A questão sempre foi encontrar formas permanentes de garantir seu financiamento, aprimorar sua gestão, combater desperdícios e assegurar que cada centavo investido se transforme em atendimento digno à população.
Nenhum sistema de saúde é perfeito. Países ricos também enfrentam filas, dificuldades financeiras e desafios administrativos. A diferença está na escolha que uma sociedade faz sobre quais valores pretende defender. O Brasil escolheu afirmar que a vida humana vale mais do que a capacidade de pagamento de cada cidadão.
Essa talvez seja a maior herança da Constituição de 1988. Ela transformou a saúde em um direito e não em um privilégio.
O SUS ainda precisa evoluir. Precisa de investimentos, inovação tecnológica, valorização dos profissionais de saúde e gestão eficiente. Mas seria um grave erro confundir seus problemas com sua essência. Corrigem-se falhas; não se abandona uma conquista civilizatória.
Em tempos de tantas divisões políticas, talvez exista um ponto capaz de unir brasileiros de diferentes correntes ideológicas: a convicção de que nenhuma pessoa deve ser condenada ao sofrimento ou à morte simplesmente porque nasceu pobre.
Enquanto essa convicção permanecer viva, o Sistema Único de Saúde continuará sendo muito mais do que uma política pública. Será a expressão concreta de uma sociedade que decidiu colocar a dignidade humana acima das diferenças econômicas e afirmar que cuidar da vida é, antes de tudo, um dever coletivo.





