Política e Resenha

Quando a paixão não é amor

Artigo de Opinião

A ilusão da projeção e o caminho para o encontro verdadeiro

Por Padre Carlos

Poucas experiências humanas são tão intensas quanto a paixão. Ela colore a realidade e faz o outro parecer perfeito, quase divino. Os olhos se rendem, o coração acelera, e por um instante temos a sensação de ter encontrado algo maior do que nós mesmos. Mas, como mostra a psicologia analítica de Carl Gustav Jung, muito do que chamamos amor é, na verdade, uma projeção. Vemos no outro aquilo que pertence ao nosso próprio mundo interior — nossos anseios, nossas carências, nossas imagens arquetípicas ainda não reconhecidas.

O ser humano deixa de ser um indivíduo concreto para se tornar uma espécie de deusa, um príncipe encantado, um salvador. E isso, invariavelmente, prepara o terreno para a decepção. Ninguém sustenta por muito tempo o peso de ser a resposta para o vazio existencial de outra pessoa. Mais cedo ou mais tarde, a fantasia racha, e o que resta é o susto de descobrir que amávamos uma imagem — não uma pessoa.

O amor como encontro entre uma pessoa real e uma fantasia

O amor, sustentado apenas por projeção, não é um encontro entre duas pessoas, mas entre uma pessoa real e uma fantasia. Por isso, ele frequentemente gera frustração, dependência emocional e ressentimento. A ferida não vem do outro em si, mas da distância entre quem ele é e quem imaginávamos que fosse. Quantas relações se desfazem não por falta de amor, mas por excesso de expectativa? Quantos corações se partem não porque foram traídos, mas porque foram, finalmente, vistos como humanos?

“O verdadeiro amor começa quando retiramos as projeções e aceitamos o outro como ele é. Isso não diminui o relacionamento — ao contrário, torna-o finalmente possível.”

— inspirado na obra de Robert A. Johnson

Robert A. Johnson propõe algo mais maduro do que o enlevo da paixão: a retirada consciente das projeções como caminho de libertação. Amar não é adorar como um ídolo, mas reconhecer o outro como humano, livre e imperfeito — capaz de falhar, de mudar, de decepcionar e, ainda assim, permanecer digno de afeto. É um amor menos deslumbrante, mas infinitamente mais real.

O mito cultural da alma gêmea perfeita

A nossa cultura, no entanto, ainda alimenta o mito da alma gêmea perfeita — uma expectativa que nenhum relacionamento consegue sustentar. Filmes, canções e narrativas populares insistem em nos vender a fantasia de uma metade que preenche todos os vazios, que compreende sem palavras, que nunca decepciona. Essa é uma promessa impossível, e cobrá-la de outro ser humano é uma forma sutil, ainda que involuntária, de violência afetiva.

Superar essa projeção é um ato de maturidade psicológica. Significa compreender que aquilo que admiramos no outro pode revelar potenciais adormecidos dentro de nós mesmos. Em vez de esperar que alguém complete nossa existência, somos chamados a desenvolver nossa própria inteireza — a tarefa mais silenciosa e mais exigente de toda vida adulta.

O amor que floresce da realidade

O amor verdadeiro não nasce da idealização, mas da realidade. Ele floresce quando dois seres humanos, conscientes de suas limitações, escolhem caminhar juntos sem exigir perfeição um do outro. Não é um amor de conto de fadas, mas de terra firme — construído dia após dia, decisão após decisão, perdão após perdão. É menos deslumbramento e mais compromisso; menos êxtase e mais presença.

Talvez o maior gesto de amor que possamos oferecer a alguém não seja a admiração cega, mas o olhar honesto: enxergar o outro como ele realmente é e, ainda assim, escolhê-lo. É nesse encontro — despido de fantasia, cheio de verdade — que a paixão finalmente pode amadurecer e se tornar amor.

Psicologia
Relacionamentos
Carl Jung
Amadurecimento

Padre Carlos

Articulista convidado