Política e Resenha

O SUS e o desafio único de oferecer saúde gratuita a mais de 210 milhões de brasileiros

Saúde Pública · Brasil

O SUS e o desafio único de oferecer saúde gratuita a mais de 210 milhões de brasileiros

Uma reflexão sobre a escala, a história e o significado de um sistema sem paralelo no mundo.

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Brasil é o único país do mundo que propôs o que se propôs: oferecer saúde gratuita para todos, em um país com mais de 210 milhões de habitantes. Não existe outro no mundo, só nós. E aqui não se trata de um recorte, de uma população específica — vamos tratar todos os brasileiros. É uma tarefa absurda, não é?

Pessoal fala do NHS, do National Health System da Inglaterra, que maravilha. Primeiro, vai lá e conversa com os ingleses para ver se eles pensam assim. Segundo, o sistema deles começou depois da Segunda Guerra Mundial, em 1945. E aí eles estabeleceram, num país rico, com alto nível educacional, pessoas que tiveram tempo para organizar. Até eu organizaria um serviço de saúde assim.

Uma escala sem precedentes

60 milhões de habitantes lá, quero ver aqui: 210 milhões, tremenda diversidade geográfica, diferenças sociais absurdas. Como é que você dá saúde gratuita para todos nessas condições? O Brasil fez esse tremendo esforço, e não foi no decorrer de 80 anos, como os ingleses. O SUS tem pouco mais de 30 anos — e nós conseguimos. Hoje você não encontra uma criança no Brasil que não tenha acesso a um pediatra.

“Eu nasci na Pituba, um bairro de Salvador, e eu não tive pediatra. Nem aquela molecada que jogava bola comigo na rua tomou vacina. Nem eu, nem minhas irmãs, nem meus irmãos.”

O tamanho do passo que demos

Quer dizer, nós demos um grande passo. Comparar a construção de um sistema universal de saúde em três décadas, num país continental e desigual, com experiências centenárias de nações ricas, é ignorar a real dimensão do que foi construído. O SUS não é perfeito — e ninguém que o defenda dirá o contrário — mas é, sem exagero, uma das mais ambiciosas políticas públicas já tentadas em qualquer lugar do mundo.

Nenhum outro país no mundo propôs oferecer saúde universal e gratuita a uma população de mais de 210 milhões de pessoas. O Brasil propôs — e, com todas as suas falhas, sustenta essa promessa há mais de trinta anos.

Entender essa trajetória exige comparar o comparável: não o SUS de hoje com o NHS consolidado, mas o Brasil de 1988 — sem tradição de sistema público universal, com desigualdades profundas e dimensões continentais — com o país que, décadas depois, garante acesso pediátrico a praticamente toda criança nascida em seu território.

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Artigo baseado em relato pessoal sobre a construção e o alcance do Sistema Único de Saúde.