Política e Resenha

ARTIGO – Dos Manicômios ao Feminicídio: Quando a Sociedade Trocou o Choque Elétrico Pela Bala

 

 Padre Carlos

 

Durante séculos, o machismo encontrou diferentes maneiras de punir mulheres que ousavam desafiar a autoridade masculina. A história da violência contra elas não começou com o feminicídio estampado nas manchetes dos jornais. Muito antes de um revólver disparar ou de uma faca interromper uma vida, existia outro instrumento de dominação: o manicômio.

A mulher considerada “difícil”, “desobediente”, “rebelde”, “contestadora”, “histérica” ou simplesmente “inconveniente” era frequentemente rotulada como louca. Bastava contrariar o marido, recusar um casamento, demonstrar desejos próprios, denunciar agressões ou não corresponder ao modelo feminino esperado para que sua sanidade fosse colocada em dúvida.

Durante grande parte do século XX, milhares de brasileiras foram internadas em hospitais psiquiátricos sem apresentar qualquer doença mental. Eram vítimas de uma sociedade que confundia submissão com virtude e autonomia com insanidade.

Os antigos sanatórios tornaram-se verdadeiras prisões sociais.

Ali dentro, muitas perderam o nome, a identidade e a dignidade.

Recebiam eletrochoques aplicados de forma indiscriminada, eram submetidas a contenções físicas, isolamento prolongado, sedação excessiva e outras formas de tratamento hoje reconhecidas como profundamente desumanas. Em muitos casos, a internação não tinha finalidade terapêutica, mas disciplinadora. O objetivo era “corrigir” comportamentos considerados inadequados para uma mulher.

Não era a medicina quem falava.

Era o patriarcado vestido de jaleco branco.

O hospital psiquiátrico transformava-se num tribunal onde a sentença era a exclusão social.

A Reforma Psiquiátrica Brasileira, consolidada a partir da década de 1990 e fortalecida pela Lei nº 10.216, de 2001, representou uma das maiores conquistas da democracia brasileira. Ela buscou substituir o modelo manicomial por uma atenção psicossocial baseada no respeito aos direitos humanos, reduzindo as internações de longa permanência e fechando inúmeros hospitais psiquiátricos que haviam se tornado espaços de abandono e violência.

Mas o fim dos manicômios não significou o fim da violência contra as mulheres.

O machismo apenas mudou de método.

Se antes a mulher era silenciada atrás dos muros de um sanatório, hoje muitas são silenciadas definitivamente dentro da própria casa.

A cada dia, companheiras, esposas, namoradas e ex-companheiras são assassinadas por homens incapazes de aceitar o fim de um relacionamento, a autonomia feminina ou simplesmente a liberdade de uma mulher dizer “não”.

É como se a lógica permanecesse a mesma.

Antes, eliminava-se sua voz.

Hoje, elimina-se sua vida.

O feminicídio representa a forma mais extrema de uma cultura construída durante séculos. Ele não nasce de um acesso momentâneo de raiva. É o ponto final de uma mentalidade que ensinou homens a confundirem amor com posse, casamento com propriedade e masculinidade com poder absoluto.

O Brasil figura, há anos, entre os países com os maiores números absolutos de feminicídios do mundo, realidade que desafia governos, instituições e toda a sociedade. Os números revelam uma tragédia persistente e demonstram que leis, embora fundamentais, não bastam sem mudanças culturais profundas.

Ainda existem homens que acreditam possuir o direito de decidir se uma mulher vive ou morre.

Ainda existem famílias que relativizam agressões.

Ainda existem vizinhos que preferem o silêncio.

Ainda existem discursos que culpam a vítima.

Essa cultura precisa ser rompida.

Educação, justiça eficiente, proteção às vítimas e responsabilização dos agressores são pilares indispensáveis. Mas talvez o maior desafio seja ensinar às novas gerações que ninguém pertence a ninguém.

Amar nunca foi controlar.

Casar nunca foi possuir.

Relacionar-se nunca foi dominar.

A mulher não precisa pedir licença para existir.

Ela não é patrimônio do marido, nem extensão de sua vontade.

A história dos manicômios brasileiros nos ensina que a violência institucional pode desaparecer sem que desapareça a mentalidade que a sustentava. Fecharam-se os portões dos antigos hospitais psiquiátricos, mas ainda falta fechar, definitivamente, as portas do machismo que continua autorizando tantos homens a transformar o amor em sentença de morte.

Enquanto houver uma mulher assassinada porque decidiu viver sua própria vida, a sociedade continuará carregando a vergonha de um passado que insiste em sobreviver no presente.

Porque o verdadeiro tratamento de uma sociedade doente nunca foi prender suas mulheres.

Sempre será curar o machismo que adoece tantos homens.