Política e Resenha

Quando o Idoso Deixa de Escolher, Começa a Desaparecer

 

Padre Carlos

Há uma violência que quase nunca aparece nas estatísticas. Não deixa hematomas, não produz manchetes e, muitas vezes, nasce do amor. É a violência silenciosa de retirar do idoso o direito de decidir sobre a própria vida.

Ela começa de forma quase imperceptível.

Primeiro, alguém escolhe a roupa “porque é mais fácil”. Depois decide o que ele vai comer “porque é mais saudável”. Em seguida organiza sua rotina, seus horários, suas visitas e até responde por ele quando alguém lhe faz uma pergunta. Tudo parece razoável. Tudo parece cuidado. Mas, pouco a pouco, algo profundamente humano vai sendo retirado: a autonomia.

A maior parte das pessoas imagina que a perda da autonomia acontece apenas quando surgem doenças graves ou limitações físicas. Não é verdade. Muitas vezes ela começa muito antes, dentro da própria família, quando o idoso deixa de ser consultado e passa apenas a ser conduzido.

Existe uma enorme diferença entre cuidar e controlar.

Cuidar é proteger sem sufocar. É oferecer apoio sem apagar a identidade de quem sempre construiu sua própria história. Controlar, ainda que com as melhores intenções, transforma uma pessoa em espectadora da própria existência.

Na psicanálise existe uma compreensão fundamental: o ser humano precisa sentir que seus desejos possuem valor. A identidade não é construída apenas pelas lembranças do passado, mas também pela capacidade de continuar fazendo escolhas no presente.

Quando ninguém mais pergunta ao idoso o que ele deseja, a mensagem transmitida, ainda que involuntariamente, é devastadora:

“Você já não precisa decidir.”

E, por trás dessa frase silenciosa, esconde-se outra ainda mais cruel:

“Sua vontade já não importa.”

Não é difícil entender por que tantos idosos passam a demonstrar tristeza, desânimo ou aquela aparente “teimosia” que tantas famílias criticam.

Talvez não seja teimosia.

Talvez seja resistência.

Talvez seja o último território onde ainda conseguem afirmar sua individualidade.

Quando um idoso insiste em escolher uma roupa diferente, prefere um caminho específico ou deseja realizar uma tarefa simples sozinho, ele pode estar dizendo muito mais do que imaginamos:

“Eu ainda existo.”

“Eu ainda sou capaz.”

“Eu continuo sendo eu.”

É evidente que existem limites.

A segurança jamais pode ser negligenciada. Há situações em que doenças, fragilidade física ou comprometimento cognitivo exigem que determinadas decisões sejam assumidas pelos familiares ou cuidadores. Nessas circunstâncias, proteger é um dever.

Mas essas situações não podem servir de justificativa para retirar do idoso todas as escolhas que ainda pode fazer.

Ao contrário.

Quanto maior for sua capacidade preservada, maior deve ser o incentivo para que continue exercendo sua autonomia.

Escolher entre duas camisas.

Decidir o cardápio do almoço.

Opinar sobre um passeio.

Participar das decisões da casa.

Receber explicações antes que outros decidam por ele.

São gestos aparentemente pequenos, mas que preservam algo imenso: a dignidade.

A Organização Mundial da Saúde já reconhece que o envelhecimento saudável não depende apenas da ausência de doenças. Depende, sobretudo, da manutenção da funcionalidade, da participação social e do respeito à autonomia da pessoa idosa.

Envelhecer não significa deixar de ser sujeito.

Significa continuar escrevendo a própria história com o ritmo que o tempo permitir.

Infelizmente, nossa sociedade cultua tanto a juventude que começa a tratar a velhice como sinônimo de incapacidade. É um preconceito discreto, quase invisível, mas profundamente destrutivo.

Esquecemos que aqueles cabelos brancos carregam décadas de decisões, sacrifícios, aprendizados, vitórias e derrotas.

Quem passou uma vida inteira criando filhos, sustentando uma família, trabalhando e enfrentando desafios não perde, de um dia para o outro, a capacidade de pensar, sentir e desejar.

O respeito verdadeiro não está apenas em oferecer remédios, alimentação ou conforto.

Está em fazer perguntas.

“O que você acha?”

“Como prefere fazer?”

“Qual é sua vontade?”

Essas perguntas têm um poder extraordinário.

Elas devolvem ao idoso aquilo que nenhuma aposentadoria, nenhum patrimônio e nenhum tratamento médico conseguem oferecer: o sentimento de continuar pertencendo à própria vida.

No fundo, todos nós caminhamos na mesma direção.

Se tivermos o privilégio de envelhecer, um dia também desejaremos que nossos filhos, netos ou cuidadores nos enxerguem além das limitações físicas.

Não quereremos apenas proteção.

Quereremos respeito.

Quereremos ser ouvidos.

Quereremos continuar escolhendo.

Porque enquanto alguém ainda pode dizer “eu prefiro”, “eu penso”, “eu quero”, permanece viva a chama mais bonita da existência humana: a liberdade de ser autor da própria história.

E talvez seja justamente isso que define uma sociedade verdadeiramente civilizada: não a forma como trata seus jovens, mas a delicadeza com que preserva a autonomia, a dignidade e a voz daqueles que já percorreram quase toda a estrada.

Há escolhas que parecem pequenas.

Mas, para quem envelhece, podem significar a diferença entre apenas continuar vivendo e continuar sendo quem sempre foi.