Política e Resenha

O TEMPO COMO MEDIAÇÃO DO SER SOCIAL: DIÁLOGO ENTRE SANTO AGOSTINHO E GEORG LUKÁCS

 

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FILOSOFIA • HISTÓRIA • SOCIEDADE

O TEMPO COMO MEDIAÇÃO DO SER SOCIAL

Diálogo entre Santo Agostinho e Georg Lukács

Marcelo Seráfico e José Alcimar*

“Tempo não é dinheiro. Essa é uma brutalidade que o capitalismo faz como se o capitalismo fosse o senhor do tempo. Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida.”

— Antonio Candido

Por que não imaginar um diálogo entre Santo Agostinho e Georg Lukács em torno do “ser social”, um ser que se “distende no tempo”, portanto se objetiva na História? Sem que pudesse fazê-lo, porque impedido pelo tempo — sempre histórico —, Santo Agostinho, o Mestre de Hipona, ao pensar o tempo como distentio animi (distensão da alma), já não estaria, avant la lettre, na contramão daquilo que o capitalismo, dezenas de séculos depois da publicação de As Confissões, vai fazer com o tempo, ao comprimi-lo pela inexorável lógica da produção e do consumo?

Há, na férrea lógica do sistema do capital, lugar para o tempo como distensão da alma? Em lugar da distentio animi, o que de fato prevalece é a compressio animi — a compressão da alma.

O tempo não é apenas uma medida. É o espaço histórico no qual o ser humano se forma, age, trabalha, ama, pensa, cria cultura e constrói possibilidades de existência.

O tempo como formação do ser social

As reflexões aqui apresentadas, pensadas e escritas por nós — e contra os nós — e a quatro pés, quatro mãos e duas mentes, porque a cabeça deve pensar desde os pés, querem pensar o tempo como espaço da formação do ser social e no horizonte do materialismo histórico e dialético, sem o que restará somente o tempo expropriado de conteúdo humano, sem distensão nenhuma, inclusive a agostiniana, e impossibilitado de humanização.

A questão filosófica e científica a responder, e que nos inquieta, passa a ser: o tempo se distende e realiza como o quê?

Como luta, diria Marx; como ação, diria Weber; como coesão, proporia Durkheim. O social como realização das possibilidades humanas de reproduzir-se no tempo, como espécie biológica e como espécie capaz de compreender e conferir sentido racional à sua existência e ação.

Como libertar o tempo da tirania do capital?

Como libertar o tempo da tirania que lhe impõe o poder do capital? Mais do que formas de sensibilidade a priori e abstratas, como quer Kant, tempo e espaço são categorias históricas e constitutivas do ser social.

Até mais importante do que o espaço — por que de que vale ter espaço sem que nos apropriemos do tempo? — é somente pela categoria tempo que nos fazemos e nos apropriamos do espaço humano.

Tempo e espaço não são realidades neutras. São dimensões nas quais se desenvolvem as relações sociais, os conflitos históricos, o trabalho, a cultura e as possibilidades de emancipação humana.

Política, religião, ciência e cultura no tempo

A política, a economia, a religião e a ciência seriam, assim, formas específicas de lutar, agir e coexistir no tempo e no espaço, em face das múltiplas e complexas diferenças entre as tantas espécies constitutivas do real e dos impasses desencadeados pelas dificuldades com que cada uma delas se defronta para satisfazer suas necessidades e, no caso dos humanos, transcendê-las.

É no processo de apropriação e uso da natureza, ao longo do tempo, que o Homem altera sua própria natureza e produz a cultura, da qual mitologia, religião, ciência, política e filosofia são constituintes. E o faz de acordo com circunstâncias que não escolhe, sempre herda, como alertava Marx com a lucidez que lhe era peculiar.

Trabalho, alienação e a compressão da existência

O tempo reduzido à rotinização sisífica, como o que é requerido e controlado pela forma alienada do trabalho prevalente no capitalismo, esse tempo não nos permite afirmar e alargar aquilo que o velho Mouro de Trier denominava de ser genérico humano.

Trata-se do confronto entre a omnilateralidade e a unilateralidade. A primeira significa abertura de possibilidades e vai ao encontro da distentio animi de Agostinho e do ser social em Lukács.

A segunda é a que sacrifica nosso ser genérico e nos conforma à uniformidade improdutiva do trabalho alienado, tornando-nos funcionais em relação aos fins do sistema e extraviados de nós mesmos, encarcerados na jaula de ferro aludida por Weber ou na jaula de vidro denunciada por Nicholas Carr.

“Entre a distensão da alma e a compressão da existência, encontra-se uma das grandes questões do nosso tempo: quem controla o nosso tempo controla, em grande medida, as possibilidades da nossa própria vida.”

Agostinho e Lukács: uma ponte entre o sagrado e o profano

Encontrar e buscar sentido para essa distensão da alma no tempo se torna um esforço simultaneamente existencial, em sentido filosófico e religioso, e epistemológico, quando visto pelo prisma do entendimento racional-científico.

Que bela e fecunda ponte essa entre o Santo e os profanos! Agostinho não se fará ateu ao visitar o ser social lukácsiano e, menos ainda, Lukács tornar-se-á religioso ao reconhecer o potencial epistemológico que a distentio animi agostiniana nos oferece.

Ela é que permite atravessar com alguma calma as turbulentas águas da estupidez irracionalista contemporânea, o desbunde pós-moderno.

* Marcelo Seráfico e José Alcimar são professores da Universidade Federal do Amazonas. Marcelo Seráfico, do Departamento de Ciências Sociais, e José Alcimar, do Departamento de Filosofia. Ambos, cultores da distentio animi e no contracurso da unilateralidade capitalista. Agosto de 2026.

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