Política e Resenha

QUANDO UM MILITANTE PARTE, UMA PARTE DA HISTÓRIA TAMBÉM SE VAI

QUANDO UM MILITANTE PARTE, UMA PARTE DA HISTÓRIA TAMBÉM SE VAI

Padre Carlos

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á mortes que nos fazem chorar. Há outras que, além das lágrimas, nos obrigam a olhar para trás. A partida de José Cerqueira Costa pertence a essa segunda categoria.

Cerqueira não foi apenas um militante político. Não foi apenas um homem ligado ao movimento sindical, às associações de moradores ou ao Partido dos Trabalhadores. Sua vida se confunde, em muitos momentos, com a própria história da organização popular de Vitória da Conquista. Quando ele parte, não desaparece somente um homem: silencia-se uma voz, fecha-se um capítulo e leva-se consigo uma parcela da memória política e social construída ao longo de décadas.

É por isso que sua morte provoca um sentimento que ultrapassa a tristeza pessoal.

Uma militância que não cabia nos discursos

Quem conheceu Cerqueira sabe que havia nele algo que não se encontra facilmente nos tempos atuais: a capacidade de transformar convicções políticas em presença concreta junto às pessoas. Sua militância não cabia nos discursos, nas reuniões partidárias ou nos documentos das organizações. Ela estava nas ruas, nas comunidades, nos sindicatos, nas associações de moradores e nos espaços onde homens e mulheres comuns aprendiam que também tinham o direito de participar das decisões sobre a cidade.

Cerqueira pertenceu a uma geração para a qual política era participação, organização popular e esperança. Uma geração que acreditou que democracia não deveria significar apenas votar de quatro em quatro anos, mas participar, reivindicar, discutir, pressionar e construir coletivamente.

José Cerqueira esteve ligado à Democracia Socialista (DS), histórica corrente da esquerda organizada dentro do PT. A DS nasceu em 1979, no contexto das lutas pela redemocratização brasileira, e participou ativamente da construção do Partido dos Trabalhadores. Sua história esteve profundamente ligada ao movimento sindical, aos movimentos sociais e à construção de uma esquerda que pretendia aproximar política partidária e organização popular. Não é um detalhe biográfico. É uma chave para compreender o homem.

“A política era feita olho no olho. Era feita com a palavra. Era feita com aperto de mão. Era feita caminhando. E Cerqueira caminhou muito.”

O Orçamento Participativo e a política que escuta

Sua passagem pela experiência do Orçamento Participativo de Vitória da Conquista é uma dessas marcas que ajudam a compreender sua importância. Pesquisas acadêmicas sobre a experiência conquistense registram José Cerqueira Costa como coordenador do Orçamento Participativo e Mobilização Social, inclusive entrevistado durante estudos sobre a implantação e o funcionamento daquela experiência de participação popular.

Isso diz muito. Porque o Orçamento Participativo não era apenas uma ferramenta administrativa. Representava uma determinada compreensão de democracia: a de que o cidadão não deveria ser apenas destinatário das políticas públicas, mas também sujeito das decisões.

Ele acreditava na política que sai dos gabinetes e encontra o povo. Na política que escuta. Na política que organiza. Na política que não tem medo da participação popular.

Em documentos públicos de Vitória da Conquista, seu nome aparece associado a diferentes espaços de participação social. A própria Câmara Municipal registrou, em 2009, José Cerqueira Costa entre as personalidades homenageadas com o Título de Cidadão Conquistense.

Os documentos registram cargos. A memória registra afetos.

Os decretos registram funções. Os amigos registram histórias.

Os arquivos registram nomes. As ruas registram presenças.

E talvez seja por isso que a morte de um militante antigo seja tão dolorosa. Porque sua existência não pertence apenas à sua família. Ela se espalha por muitas outras vidas.

Entre quem busca um cargo e quem deixa uma história

Há pessoas que passam pela política procurando um cargo. Outras passam pela política deixando uma história. Cerqueira pertenceu à segunda categoria.

Não significa que tenha sido perfeito. Nenhum ser humano é. Não significa que todos tenham concordado com suas posições. A militância política é feita também de divergências, disputas e escolhas. Mas existe uma diferença fundamental entre quem entra na política para servir a uma causa e quem simplesmente utiliza a política como instrumento de ascensão pessoal.

A marca de Cerqueira estava na militância. Na fidelidade às suas convicções. Na defesa da participação popular. Na proximidade com as comunidades. No compromisso com o movimento sindical e associativo. E isso merece ser reconhecido para além das paixões partidárias.

Um mundo em que a política exigia presença

Vitória da Conquista mudou muito nas últimas décadas. Cresceu, transformou-se, tornou-se uma das cidades mais importantes do interior da Bahia. Mudaram os bairros, mudaram as tecnologias, mudaram os partidos, mudaram as formas de fazer política. Mas existe uma coisa que não pode mudar: a necessidade de preservar a memória daqueles que ajudaram a construir a história da cidade.

Talvez os mais jovens não compreendam completamente o que significava fazer política em outros tempos. Hoje temos redes sociais, comunicação instantânea, grupos de WhatsApp, vídeos de poucos segundos e uma política muitas vezes transformada em espetáculo. Cerqueira pertenceu a outro mundo. Um mundo em que era preciso reunir pessoas numa sala. Ir às comunidades. Conversar durante horas. Convencer. Ser convencido. Construir. Recomeçar.

A militância exigia presença física. E presença é algo que nenhuma tecnologia substitui completamente.

“Quando um militante histórico morre, temos a sensação de que uma biblioteca também se fecha.”

Preservar a memória é mais do que uma nota de pesar

É por isso que homenagear Cerqueira não deve significar apenas publicar uma nota de pesar. É preciso preservar sua memória. Contar sua trajetória. Ouvir seus antigos companheiros. Registrar suas histórias. Pesquisar sua participação no movimento sindical, no movimento comunitário, no PT, na Democracia Socialista e na construção das experiências de participação popular em Vitória da Conquista.

Porque a memória política de uma cidade não pode ser construída somente a partir dos nomes que ocuparam os grandes cargos. Ela também precisa ser construída a partir daqueles que trabalharam silenciosamente nos bastidores da história. José Cerqueira foi um desses homens.

Talvez a melhor maneira de despedir-se dele seja compreender que a verdadeira militância não termina necessariamente quando o coração para de bater. Ela continua nas pessoas que foram tocadas por ela. Continua nas ideias que sobreviveram. Continua nas lutas que ainda precisam ser travadas. Continua nas comunidades que aprenderam a reivindicar seus direitos. Continua na democracia que aqueles homens e mulheres ajudaram a construir.

Hoje, Vitória da Conquista perde um militante. O movimento sindical perde uma memória. O movimento popular perde uma referência. A esquerda perde um homem de sua história. E nós, que ficamos, perdemos a oportunidade de ouvir mais uma vez aquela voz, acompanhar mais uma caminhada, discordar de alguma ideia, concordar com outra e, sobretudo, continuar aquela conversa que a vida sempre parece deixar para amanhã.

Mas a morte nos ensina, às vezes de maneira brutal, que não existe amanhã garantido. Por isso, resta agradecer.

Obrigado, Cerqueira, pela caminhada.

Pelas lutas.

Pela coragem de acreditar que a política poderia ser instrumento de transformação.

Pela defesa da participação popular.

Pela presença junto aos trabalhadores e às comunidades. E por ter ajudado a escrever, com sua própria vida, algumas páginas da história política e social de Vitória da Conquista.

Um dia, todos nós partiremos.

Mas alguns deixam apenas saudade.

Outros deixam também uma pergunta: que sociedade queremos construir depois que eles se forem?

Talvez essa seja a verdadeira herança de José Cerqueira Costa. Não apenas lembrá-lo. Continuar acreditando que a política pode ser, apesar de todas as suas contradições, uma forma de servir ao outro e transformar a realidade.

Descanse em paz, Cerqueira.

A caminhada terminou para você.

Mas a história que você ajudou a construir continua caminhando.

Memória Militância Vitória da Conquista Participação Popular

Padre Carlos

Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha