Política e Resenha

ARTIGO — Deus escreve certo por linhas tortas

 

Padre Carlos

Há frases que atravessam gerações porque parecem guardar uma sabedoria que somente o tempo consegue revelar. Uma delas, que sempre me acompanhou como homem de fé, é aquela que diz: “Deus escreve certo por linhas tortas.”

Durante muito tempo, enxerguei esse provérbio apenas como uma maneira de dizer que, mesmo diante das dificuldades, dos desencontros e das aparentes derrotas, Deus pode estar conduzindo a história por caminhos que não conseguimos compreender.

Mas confesso que, diante dos acontecimentos recentes envolvendo o Supremo Tribunal Federal, a Polícia Federal, a Advocacia-Geral da União e o ministro André Mendonça, comecei a olhar para essa velha frase com outros olhos.

Quando Jorge Messias teve seu nome rejeitado pelo Senado para uma vaga no STF, muita gente interpretou o episódio como uma derrota política. Houve quem lamentasse. O próprio André Mendonça afirmou que o Brasil havia perdido a oportunidade de ter um grande ministro.

Eu também fiquei tentando compreender.

Hoje, depois de conhecer os questionamentos apresentados em relatório da Polícia Federal sobre a atuação da AGU na crise envolvendo Mendonça, começo a pensar que talvez aquela rejeição tenha sido menos uma derrota do que um daqueles misteriosos caminhos tortos pelos quais a história, às vezes, acaba chegando a um destino diferente do que imaginávamos.

E aqui faço uma ressalva: não estou dizendo que Jorge Messias seja desonesto, incompetente ou que tenha cometido qualquer crime. O relatório da PF apresenta hipóteses e questionamentos; não cabe a mim transformar suspeitas ou interpretações institucionais em condenações.

O que me chamou atenção foi outra coisa.

A Polícia Federal esperava uma reação jurídica da AGU diante de determinadas iniciativas de André Mendonça. Messias decidiu não seguir esse caminho. A AGU sustentou que sua cautela tinha razões jurídicas e institucionais e que uma intervenção poderia trazer riscos para as próprias investigações.

Pode-se concordar ou discordar dessa decisão.

Mas uma coisa me parece evidente: quando uma instituição deixa de agir diante de um conflito institucional, essa omissão também produz consequências.

É justamente aí que começo a compreender melhor o significado daquele voto do Senado.

O problema não é simplesmente Jorge Messias ter ou não ter razão. O problema é que o episódio revelou uma tensão muito maior: até onde pode ir um ministro do Supremo na condução de uma investigação? Até onde pode a Polícia Federal questionar decisões judiciais? Qual é o limite da atuação da AGU? Quem deve proteger a autonomia investigativa da PF quando surgem conflitos com o Judiciário?

São perguntas grandes demais para serem respondidas por paixões partidárias.

E talvez seja esse o ponto que mais me preocupa.

Nos últimos meses, o conflito entre André Mendonça e a cúpula da Polícia Federal se tornou cada vez mais evidente. A PF vê determinadas iniciativas do ministro como uma forma de ingerência sobre o trabalho investigativo, enquanto Mendonça sustenta a necessidade de maior controle e celeridade nas investigações.

É uma situação delicadíssima.

Porque democracia não é apenas eleger governantes. Democracia também é preservar os limites entre as instituições.

Quando esses limites começam a ficar nebulosos, todos deveriam acender a luz amarela.

Foi nesse contexto que passei a compreender de outra maneira a rejeição de Jorge Messias pelo Senado.

Talvez, sem que ninguém soubesse naquele momento, aquela votação tenha impedido que ele chegasse ao Supremo justamente quando uma das maiores disputas institucionais dos últimos tempos começava a se desenhar.

É claro que ninguém pode afirmar que Messias, se estivesse no STF, seria simplesmente um integrante de uma “tropa de choque” de André Mendonça. Isso seria transformar uma hipótese em certeza.

Mas também é legítimo perguntar: qual seria sua posição diante dos conflitos que hoje envolvem Mendonça, a Polícia Federal e outros ministros da Corte?

A pergunta é inevitável porque o próprio relatório da PF menciona o apoio de Mendonça à indicação de Messias e questiona aspectos da relação entre eles.

E aqui volto à minha fé.

Talvez Deus realmente escreva certo por linhas tortas.

Talvez uma derrota eleitoral, política ou institucional possa, com o passar do tempo, revelar-se uma proteção que ninguém conseguiu enxergar naquele momento.

Não sei se foi isso que aconteceu com Jorge Messias.

Mas começo a admitir que pode ter sido.

E digo isso não por prazer diante da derrota de ninguém. Muito menos por desejar o mal a Jorge Messias. Ao contrário. Desejo que ele continue exercendo seu papel com independência, responsabilidade e compromisso com as instituições.

O que defendo é algo maior: nenhuma autoridade, seja ministro do STF, chefe da Polícia Federal, advogado-geral da União ou presidente da República, pode estar acima dos limites institucionais.

O Estado Democrático de Direito não pode depender das virtudes pessoais de seus ocupantes. Precisa depender de regras, controles, transparência e equilíbrio entre os Poderes.

Talvez seja justamente essa a grande lição desse episódio.

Há momentos em que aquilo que parece uma derrota pode ser uma proteção.

Há caminhos que parecem tortos, mas que podem evitar precipícios.

E há decisões que só conseguimos compreender depois que os acontecimentos revelam aquilo que nossos olhos não conseguiam enxergar.

Por isso, hoje, olhando para trás, confesso:

quando Jorge Messias não passou no Senado, eu não entendi nada.

Talvez eu tenha sido injusto com aqueles que votaram contra.

Hoje começo a pensar que talvez tenha sido um livramento.

Desculpe, Wagner, mas naquele momento eu realmente não tinha entendido nada.

Agora, olhando para a crise entre STF, Polícia Federal e AGU, começo a compreender.

Quem sabe aquela porta que se fechou não tenha sido, justamente, a maneira encontrada pela história para impedir que outra porta se abrisse no momento errado?

Sou homem de fé.

E continuo acreditando que, muitas vezes, Deus escreve certo por linhas tortas.

Mas também aprendi que, na política e nas instituições, cabe aos homens escreverem direito — porque a democracia não pode ficar esperando que Deus corrija aquilo que nós mesmos fazemos errado.

Padre Carlos