Política e Resenha

Independência sem soberania é apenas uma lembrança do passado

7 DE SETEMBRO DE 2026

Todo 7 de Setembro o Brasil se veste de verde e amarelo. As bandeiras aparecem nas ruas, o Hino Nacional ganha solenidade, os discursos evocam o grito do Ipiranga e, por algumas horas, somos convidados a recordar que, em 1822, um homem chamado Pedro rompeu politicamente com Portugal e proclamou a Independência. Mas talvez seja preciso fazer uma pergunta incômoda neste 7 de Setembro: o que significa ser independente no século XXI?

Porque uma coisa é conquistar a independência jurídica de um país. Outra, muito mais complexa, é conquistar e preservar sua soberania.

Os novos mecanismos da dependência

Em 1822, o desafio era romper os vínculos políticos que subordinavam o Brasil à Coroa portuguesa. Hoje, os mecanismos de dependência são muito mais sofisticados. Não chegam necessariamente em navios de guerra. Podem chegar na forma de tarifas comerciais, controle tecnológico, dependência financeira, domínio de cadeias produtivas, influência sobre recursos naturais, plataformas digitais, patentes, capitais internacionais ou pressão diplomática.

A bandeira pode continuar hasteada no mastro enquanto decisões fundamentais sobre o futuro de uma nação são tomadas muito longe de suas fronteiras.

É aí que a palavra soberania deixa de ser uma abstração jurídica e passa a ser uma questão concreta.

A Constituição Federal de 1988 foi bastante clara ao colocar a soberania entre os fundamentos da República. Também estabeleceu o desenvolvimento nacional como objetivo fundamental e determinou, nas relações internacionais, princípios como a independência nacional, a autodeterminação dos povos, a não intervenção e a igualdade entre os Estados.

Não é pouca coisa. A Constituição está dizendo que o Brasil não nasceu para ser subordinado a nenhuma potência. E isso deveria valer para todas elas.

A tradição do trabalhismo e do desenvolvimento nacional

É justamente por isso que precisamos recuperar uma dimensão do patriotismo brasileiro que, em determinados momentos da nossa história, parece ter sido esquecida: o patriotismo associado ao trabalho, ao desenvolvimento, à indústria nacional e à soberania econômica.

Essa tradição encontrou uma de suas expressões mais importantes no trabalhismo brasileiro. Getúlio Vargas, com todas as contradições de seu governo e de sua época, compreendeu algo que permanece atual: um país continental, com população numerosa, enormes recursos naturais e ambição de se transformar em potência não poderia permanecer eternamente condenado à condição de fornecedor de matérias-primas.

A criação da Petrobras, a construção de uma indústria de base e a aposta na capacidade produtiva nacional nasceram dessa compreensão.

Mais tarde, João Goulart, Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, cada um a seu modo e dentro de contextos históricos diferentes, também defenderam uma concepção de desenvolvimento na qual educação, trabalho, ciência, indústria e soberania deveriam caminhar juntos.

Podemos discordar de suas escolhas políticas. Podemos discutir seus erros e acertos. História não é catecismo.

Mas existe uma questão que atravessa essa tradição: um povo não se torna verdadeiramente livre quando apenas troca o governante estrangeiro pelo credor estrangeiro, pelo fornecedor estrangeiro ou pelo controlador estrangeiro de sua tecnologia.

A independência política precisa encontrar correspondência na capacidade econômica de uma nação.

O patriotismo de estética e o patriotismo de responsabilidade

Há quem fale diariamente em patriotismo, vista-se com as cores da bandeira e proclame que coloca o Brasil “acima de tudo”. Mas, quando chega a hora de discutir soberania, indústria brasileira, tecnologia nacional, petróleo, minerais estratégicos, Amazônia, defesa, ciência ou autonomia diplomática, descobre-se que aquele nacionalismo era mais uma estética do que uma política.

É fácil amar a pátria quando amar a pátria significa apenas vestir uma camiseta verde-amarela. Mais difícil é defendê-la quando isso exige contrariar interesses econômicos poderosos. Mais difícil ainda é defender o Brasil quando o interesse brasileiro entra em conflito com os interesses de uma potência estrangeira que admiramos.

Patriotismo verdadeiro começa justamente quando a bandeira deixa de ser decoração e passa a representar responsabilidade.

Não existe patriotismo verdadeiro na submissão. E tampouco existe soberania quando se troca uma dependência por outra.

O Brasil não precisa escolher entre ser quintal de Washington ou dependente de Pequim. O Brasil precisa ser Brasil.

Essa deveria ser uma das grandes ideias de uma política externa brasileira no século XXI. Não significa hostilidade aos Estados Unidos. Não significa hostilidade à China. Não significa hostilidade à Europa, à Rússia, à Índia ou a qualquer outro país. Significa simplesmente que o Brasil deve conversar com todos sem pertencer a nenhum.

Um país soberano negocia. Um país soberano faz alianças. Um país soberano estabelece relações comerciais. Um país soberano participa das instituições internacionais. Mas um país soberano conserva a capacidade de dizer não quando um determinado interesse estrangeiro contraria o interesse nacional.

A nova geopolítica da tecnologia e da energia

É justamente aí que os acontecimentos contemporâneos nos obrigam a abrir os olhos. O mundo entrou em uma nova fase de disputa geopolítica. Estados Unidos e China disputam tecnologia, mercados, cadeias produtivas e influência internacional. Minerais críticos ganharam importância estratégica. Terras raras tornaram-se fundamentais para tecnologias avançadas. Energia voltou a ocupar lugar central na geopolítica. A inteligência artificial abriu uma nova fronteira de poder. Chips, semicondutores, dados, satélites e infraestrutura digital passaram a ter importância comparável à de antigas matérias-primas.

Nesse mundo, quem controla tecnologia controla uma parte importante do futuro. Quem controla energia possui poder. Quem controla informação possui poder. Quem controla cadeias produtivas possui poder. E quem depende excessivamente de outros para produzir aquilo que é essencial ao seu desenvolvimento possui uma soberania limitada.

É por isso que a discussão sobre soberania tecnológica não é assunto para especialistas encerrados em universidades. Ela diz respeito ao trabalhador, ao estudante, ao empresário, ao agricultor, ao pesquisador e ao cidadão comum.

Quando compramos tecnologia que não dominamos, dependemos.

Quando exportamos minério bruto e importamos produtos sofisticados fabricados com aquele mesmo recurso, dependemos.

Quando vendemos matéria-prima e compramos conhecimento, dependemos.

Quando entregamos nossos dados sem compreender quem controla a infraestrutura que os processa, dependemos.

Quando não conseguimos produzir equipamentos fundamentais para nossa própria defesa, dependemos.

A dependência moderna nem sempre tem aparência de dependência. Às vezes ela chega embrulhada em palavras bonitas como “modernização”, “eficiência”, “integração global” ou “parceria estratégica”.

Parcerias são importantes. Integração internacional é indispensável. Globalização faz parte da realidade. Mas parceria não pode significar submissão. Integração não pode significar desnacionalização. E abertura econômica não pode significar a renúncia à capacidade de decidir.

Um país soberano não é aquele que fecha suas portas ao mundo; é aquele que abre suas portas sem entregar as chaves da própria casa.

A Amazônia e o patrimônio estratégico nacional

É nesse ponto que a Amazônia também precisa ser compreendida. A floresta não pode ser tratada apenas como território ambiental. É patrimônio brasileiro, mas também é um espaço de enorme importância geopolítica, científica, econômica e estratégica.

O Brasil deve proteger a Amazônia porque ela é patrimônio ambiental da humanidade, sim. Mas deve protegê-la também porque ela é brasileira.

Da mesma maneira, o petróleo não pode ser discutido apenas como mercadoria. É um recurso estratégico. As terras raras não são simplesmente pedras escondidas no subsolo. A biodiversidade não é apenas uma questão acadêmica. A água, a energia, os alimentos, os minerais estratégicos, os dados e a capacidade científica formam parte daquilo que poderíamos chamar de patrimônio estratégico nacional.

E talvez aqui esteja uma das maiores tarefas do Brasil contemporâneo: transformar riqueza natural em riqueza social.

Não basta possuir petróleo. É preciso possuir tecnologia. Não basta possuir minério. É preciso agregar valor. Não basta possuir uma enorme produção agrícola. É preciso dominar também a tecnologia, a indústria e os mercados que estão por trás dela. Não basta ter uma população numerosa. É preciso educá-la. Não basta possuir universidades. É preciso transformar conhecimento em inovação. Não basta ter trabalhadores. É preciso criar empregos dignos e produtivos.

Soberania popular: o povo também precisa ser livre

Porque não existe soberania nacional quando o povo não possui soberania sobre o próprio futuro. Essa frase deveria estar no centro de qualquer reflexão sobre o Brasil.

A soberania não pertence apenas ao Estado. Ela precisa chegar à sociedade. Um jovem que não encontra oportunidade de estudar e trabalhar não experimenta plenamente a independência de sua pátria. Uma indústria nacional que não consegue competir porque o país abandonou sua capacidade tecnológica não experimenta plenamente essa independência. Um pesquisador que precisa deixar o país para encontrar condições de desenvolver sua pesquisa representa uma perda de soberania. Um trabalhador submetido à precariedade permanente também é uma expressão da fragilidade de um projeto nacional.

É por isso que o verdadeiro nacionalismo precisa ser popular. Não pode ser apenas nacionalismo de elite. Não pode ser apenas nacionalismo militar. Não pode ser apenas nacionalismo econômico. E não pode ser apenas nacionalismo eleitoral. Precisa ser um projeto de país. Um projeto no qual o brasileiro possa dizer: este país também me pertence e o futuro dele também depende de mim.

Recuperar o sentido do 7 de Setembro

Talvez seja necessário, portanto, recuperar o significado do próprio 7 de Setembro. Independência não é uma fotografia amarelada nos livros escolares. Independência é uma tarefa histórica.

A geração de 1822 enfrentou um problema. A geração de hoje enfrenta outros. Naquele momento, era preciso afirmar que o Brasil não seria governado a partir de Lisboa. Hoje precisamos afirmar que o Brasil não será governado pelos interesses de Washington, Pequim, Bruxelas, Moscou ou qualquer outra capital estrangeira. Será governado pelos brasileiros.

Isso não significa isolamento. Significa maturidade. O Brasil pode ser amigo dos Estados Unidos sem ser subordinado aos Estados Unidos. Pode ser parceiro da China sem ser subordinado à China. Pode negociar com a Europa sem abandonar seus interesses. Pode dialogar com a Rússia sem aceitar qualquer imposição. Pode fortalecer a América Latina e ampliar relações com África e Ásia sem transformar sua política externa em instrumento de qualquer bloco.

Essa é a verdadeira política externa independente. Não é neutralidade diante do mundo. É independência diante das potências.

E talvez essa seja a mensagem mais importante deste 7 de Setembro. Não precisamos de um nacionalismo que procure inimigos externos para esconder nossas próprias fragilidades. Precisamos de um nacionalismo que tenha coragem de perguntar por que ainda exportamos tanta riqueza sem transformá-la em desenvolvimento.

Precisamos de um nacionalismo que valorize o trabalhador. Que defenda a ciência. Que fortaleça a indústria. Que proteja recursos estratégicos. Que estimule a educação. Que desenvolva tecnologia. Que preserve a Amazônia. Que garanta segurança energética. Que fortaleça a defesa nacional. Que proteja nossa soberania digital. Que reduza nossa dependência econômica. E, acima de tudo, que compreenda que o Brasil não nasceu para ser satélite de ninguém.

Neste 7 de Setembro, talvez seja hora de olhar novamente para a bandeira e perguntar o que ela realmente significa. O verde não pode representar apenas nossas florestas. O amarelo não pode representar apenas nossas riquezas. O azul não pode representar apenas nosso céu. E o branco não pode representar apenas a paz.

A bandeira precisa representar um compromisso. O compromisso de que nossas riquezas servirão ao desenvolvimento do nosso povo. De que nossa ciência estará a serviço do nosso futuro. De que nossa economia será capaz de produzir. De que nossos trabalhadores terão dignidade. De que nossa diplomacia defenderá nossos interesses. De que nossas decisões fundamentais continuarão sendo tomadas por brasileiros.

Porque a Independência proclamada às margens do Ipiranga foi um acontecimento. A soberania, porém, é uma conquista que precisa ser renovada todos os dias.

Independência sem soberania é apenas uma lembrança do passado — e uma nação que deseja continuar livre precisa ter coragem de defender o direito de decidir seu próprio destino.

E talvez seja esse o verdadeiro sentido de celebrar o 7 de Setembro: não apenas lembrar quando o Brasil disse “independência ou morte”, mas reafirmar, diante de um mundo cada vez mais disputado, esse compromisso com o próprio destino.

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Padre Carlos  — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha