Política e Resenha

ARTIGO — Pinóquio, o Banco Master e a versão que muda conforme a manchete

 

 

(Padre Carlos)

Parece história de Pinóquio, não parece? Só que há uma diferença importante: na história original, o nariz cresce quando o personagem mente. Na versão política brasileira, o nariz não cresce. Crescem as versões.

🎈💖🏠💖E, no caso de Flávio Bolsonaro, parece que estamos diante de um roteiro que precisa ser reescrito sempre que aparece uma informação nova.

Primeiro, a história era simples: não, o filme não era financiado por Daniel Vorcaro. Gargalhada.

Horas depois, veio a correção: sim, havia dinheiro de Vorcaro. Mas, naturalmente, apareceu o indispensável “mas”. Vorcaro seria um empresário correto, respeitável, ilibado, e Flávio Bolsonaro não sabia de qualquer problema envolvendo o banqueiro.

É impressionante como, em determinadas circunstâncias, o “não sabia” funciona como uma espécie de colete à prova de responsabilidade.

Não sabia.

Não viu.

Não ouviu.

Não desconfiou.

Não percebeu.

É quase uma versão política daquele sujeito que mora dentro de casa, passa pela sala, entra na cozinha, conversa com todo mundo e, quando alguém pergunta quem deixou a porta aberta, responde:

— Não fui eu. Nem vi.

Só que a história começou a ficar mais complicada quando veio à tona o encontro entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro.

E aqui surge o segundo ato da novela.

Flávio passou a admitir o encontro. Sim, encontrou-se com Vorcaro depois da prisão do banqueiro.

Mas, novamente, veio o “mas”.

Segundo a nova explicação, Flávio teria ido conversar pessoalmente com Vorcaro para “botar um ponto final” na história do financiamento do filme.

Perfeito.

Só que aí aparece uma informação que torna tudo ainda mais saboroso.

O presidente do próprio partido de Flávio Bolsonaro afirmou que ele teria ido ao encontro para pedir o restante do dinheiro.

Ora, ora…

Temos agora duas explicações para o mesmo encontro.

De um lado, a versão de Flávio: foi colocar um ponto final na história do financiamento.

Do outro, a declaração do presidente do partido: foi pedir o restante do dinheiro.

Convenhamos: são duas coisas ligeiramente diferentes.

“Colocar um ponto final” é uma expressão elegante, quase diplomática. Parece conversa de gente civilizada encerrando uma pendência.

“Pedir o restante do dinheiro” já é outra coisa.

Tem cheiro de cobrança.

Tem cheiro de negócio.

Tem cheiro de uma história que ainda estava longe de ter chegado ao ponto final.

E é justamente aí que a narrativa começa a parecer roteiro de comédia.

Porque se Flávio foi apenas “colocar um ponto final”, por que o presidente do partido dele fala em pedir o restante do dinheiro?

E se foi pedir o restante do dinheiro, por que a explicação pública precisa ser transformada em uma conversa destinada a “encerrar” a questão?

A pergunta é inevitável:

quem está contando a história certa?

Flávio Bolsonaro ou o presidente do seu próprio partido?

E ainda existe uma terceira personagem nessa comédia: o Banco Master.

Porque quando alguém pergunta sobre o assunto, surge uma resposta que merece entrar para o patrimônio nacional das frases políticas:

“O Master é de Lula.”

Ah, claro.

Como não pensamos nisso antes?

Se apareceu um banqueiro preso, é Lula.

Se houve um problema envolvendo o Banco Master, é Lula.

Se existe dinheiro para explicar, é Lula.

Se existe uma reunião que precisa ser esclarecida, é Lula.

Se a história mudou três vezes, talvez Lula também tenha escrito o roteiro.

É uma fórmula política extraordinariamente eficiente: quando a pergunta fica desconfortável, troca-se o assunto.

Pergunta-se sobre Flávio?

Responde-se Lula.

Pergunta-se sobre Vorcaro?

Lula.

Pergunta-se sobre o Banco Master?

Lula.

Pergunta-se sobre o financiamento do filme?

Lula.

É como se a simples pronúncia do nome do presidente da República tivesse adquirido poderes mágicos: qualquer pergunta difícil pode ser dissolvida imediatamente.

Mas existe um pequeno problema.

Dizer que o Master é de Lula não responde à pergunta sobre o encontro de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro.

Não explica por que houve o encontro.

Não explica o que foi discutido.

Não explica a divergência entre as versões.

Não explica a declaração do presidente do partido.

E, sobretudo, não explica por que uma história que começou com “não existe financiamento” terminou com “fui conversar com o banqueiro preso para colocar um ponto final” enquanto o próprio presidente da legenda apresenta uma versão segundo a qual Flávio teria ido buscar o restante do dinheiro.

É muita coincidência para uma única história.

E há algo ainda mais curioso.

Quando uma pessoa está sendo questionada sobre um fato, o caminho normal é apresentar documentos, datas, mensagens, contratos, testemunhos e explicações coerentes.

O caminho extraordinário é mudar a narrativa a cada nova revelação.

Primeiro: não.

Depois: sim, mas…

Depois: eu não sabia.

Depois: encontrei.

Depois: fui colocar um ponto final.

E, segundo o presidente do partido: foi pedir o restante do dinheiro.

Enquanto isso, quando alguém pergunta sobre o Banco Master:

— O Master é de Lula!

Pronto.

Encerrada a entrevista.

Só faltou tocar a música do Fantástico.

Mas é justamente nesse ponto que a política deveria recuperar uma palavra que parece ter sido esquecida: responsabilidade.

Não se trata de condenar Flávio Bolsonaro antecipadamente. Acusações precisam ser investigadas e fatos precisam ser comprovados. Estado de Direito não pode ser substituído por tribunal de internet, nem por manchetes transformadas automaticamente em sentença.

Mas também não se pode exigir do cidadão uma ingenuidade monumental.

O eleitor tem o direito de perguntar.

E o homem público tem o dever de responder.

Quando as versões mudam, a obrigação de explicar aumenta.

Quando surge uma testemunha ou declaração contradizendo a versão anterior, a obrigação de explicar aumenta novamente.

E quando a resposta para uma pergunta sobre o próprio comportamento é simplesmente apontar o dedo para Lula, talvez seja hora de perguntar:

mas o que Lula tem a ver com o fato de Flávio Bolsonaro ter se encontrado com Daniel Vorcaro?

Essa é a pergunta.

Simples.

Direta.

Sem ideologia.

Sem torcida.

Sem Lula.

Porque, se toda vez que Flávio Bolsonaro for questionado sobre suas próprias relações políticas, financeiras ou empresariais a resposta for “o Master é de Lula”, então estamos diante de uma inovação extraordinária da comunicação política brasileira.

A chamada teoria universal da culpa de Lula.

Funciona para tudo.

Só não funciona para explicar por que as versões mudaram.

E aqui voltamos a Pinóquio.

Na história de Carlo Collodi, o problema era a mentira.

Nesta história, o problema talvez seja outro: a memória seletiva de quem conta a história e a esperança de que o público esqueça a versão anterior antes que apareça a próxima.

Só que existe uma coisa que o político brasileiro às vezes esquece:

O eleitor pode até esquecer uma manchete.

Mas a internet não esquece.

O arquivo não esquece.

As gravações não esquecem.

As declarações não desaparecem.

E, principalmente, as contradições ficam.

Por isso, talvez seja melhor parar de produzir novas versões e começar a apresentar respostas.

Porque, quando uma história precisa ser corrigida tantas vezes, chega um momento em que o problema já não é descobrir qual versão é verdadeira.

O problema passa a ser entender por que foi necessário contar tantas versões antes de chegar a ela.

E se Pinóquio ainda estiver procurando um lugar nessa história, tenho uma sugestão:

Que ele fique bem longe do Banco Master.

Afinal, nariz de madeira cresce.

Mas versão política também.

E essa, pelo jeito, ainda não chegou ao ponto final.

Padre Carlos