Política e Resenha

ARTIGO — IN FUX WE TRUST

 

IN FUX WE TRUST

 

Padre Carlos

Muito se fala de André Mendonça. Muito se fala da decisão que afastou Andrei Rodrigues da direção-geral da Polícia Federal. Muito se fala da crise que atravessa o Supremo Tribunal Federal. Mas talvez estejamos olhando para o personagem errado quando tentamos compreender como se construiu a maioria que hoje sustenta, dentro da Segunda Turma, a decisão de Mendonça.

É preciso olhar para Luiz Fux.

Não porque seja possível afirmar que Fux tenha planejado previamente o que aconteceria nesta terça-feira. Seria irresponsável transformar coincidências políticas em certezas conspiratórias. Mas é impossível ignorar um fato objetivo: a transferência de Fux da Primeira para a Segunda Turma alterou a correlação de forças dentro do STF.

Em outubro de 2025, depois da aposentadoria antecipada de Luís Roberto Barroso, Fux pediu para ocupar a vaga aberta na Segunda Turma. O então presidente do Supremo, Edson Fachin, autorizou a transferência. Fux deixou justamente a Primeira Turma na qual havia se tornado voto dissidente em julgamentos importantes e passou a integrar um colegiado formado por Gilmar Mendes, Dias Toffoli, André Mendonça e Nunes Marques.

Naquele momento, a mudança podia parecer apenas uma movimentação regimental.

Hoje, olhando para os acontecimentos, ela parece muito mais importante.

Porque a política — inclusive a política institucional — também é feita de composição, circunstância e correlação de forças.

E a Segunda Turma se transformou em um espaço decisivo.

Foi ali que, nesta terça-feira, a decisão monocrática de André Mendonça de afastar o diretor-geral da Polícia Federal encontrou sustentação imediata. Fux e Nunes Marques anteciparam seus votos acompanhando Mendonça. Gilmar Mendes pediu vista, interrompendo o julgamento, mas a maioria já havia sido formada para manter o afastamento.

O resultado é politicamente poderoso.

Não estamos falando de uma decisão qualquer. Estamos falando do afastamento do chefe da Polícia Federal por determinação de um ministro do Supremo, em meio a uma das mais graves crises institucionais recentes envolvendo a própria Corte, a Polícia Federal, investigações relacionadas ao Banco Master e um conflito entre ministros do STF.

A cúpula da Polícia Federal reagiu duramente. Onze diretores da corporação chegaram a colocar seus cargos à disposição em solidariedade a Andrei Rodrigues.

É nesse ambiente que a frase ganha força:

IN FUX WE TRUST.

Não como declaração de fé em um ministro.

Mas como ironia política diante de uma engrenagem institucional que merece ser observada com lupa.

Fux foi para a Segunda Turma depois de ter sido o único ministro da Primeira Turma a votar pela absolvição de Jair Bolsonaro no julgamento da trama golpista. Na ocasião, os demais integrantes daquele colegiado votaram pela condenação. A mudança de Fux para a Segunda Turma acabou retirando da Primeira Turma justamente o voto que havia rompido a unanimidade em torno do relator Alexandre de Moraes.

E há algo ainda mais interessante.

Na Segunda Turma, Fux encontrou dois ministros — André Mendonça e Nunes Marques — que também haviam sido indicados por Jair Bolsonaro e que, em determinados julgamentos, apresentaram posições convergentes com as suas. A própria imprensa registrou essa aproximação de votos.

É claro que ministro do Supremo não é deputado de bancada. Não existe formalmente uma “bancada Fux-Mendonça-Nunes”. Ministros votam individualmente, segundo suas convicções jurídicas.

Mas democracia também exige que observemos os efeitos concretos das decisões.

E o efeito concreto está aí:

Mendonça decidiu. Fux acompanhou. Nunes Marques acompanhou.

Três votos.

Uma maioria.

E uma instituição inteira entrou em estado de alerta.

O mais delicado, portanto, não é apenas saber quem ganhou ou perdeu a votação desta terça-feira. A pergunta verdadeiramente importante é outra:

que tipo de relação entre Judiciário e Polícia Federal está sendo construída a partir deste episódio?

A Polícia Federal é uma instituição de Estado. O Supremo Tribunal Federal é o guardião da Constituição. Nenhum dos dois pode transformar-se em instrumento de disputa entre grupos internos de poder.

Quando um ministro do STF determina o afastamento do diretor-geral da PF e essa decisão é imediatamente referendada por uma maioria de uma das Turmas, a sociedade tem o direito de exigir transparência absoluta, fundamentação rigorosa e respeito irrestrito ao devido processo legal.

Não basta que a decisão seja formalmente possível.

É preciso que ela seja institucionalmente saudável.

E é justamente aí que a presença de Fux na Segunda Turma ganha uma dimensão que talvez tenha passado despercebida quando ocorreu.

A movimentação foi regimentalmente legítima. Não há prova de que tenha sido arquitetada para produzir a maioria que apareceu agora. Mas a política institucional não pode ser analisada apenas pela intenção declarada de seus protagonistas.

É preciso olhar também para seus resultados.

E o resultado está diante dos nossos olhos.

A Segunda Turma mudou. A correlação de forças mudou. E hoje essa mudança teve consequências concretas para o comando da Polícia Federal.

Por isso, talvez seja hora de parar de olhar apenas para André Mendonça.

Talvez seja hora de prestar atenção em Luiz Fux.

Porque, em Brasília, algumas das jogadas mais importantes não acontecem diante das câmeras.

Acontecem na composição das mesas, na escolha dos colegiados, na ocupação das vagas e na matemática silenciosa dos votos.

E quando essa matemática finalmente aparece no placar, pode ser tarde demais para fingir que ela não existia.

IN FUX WE TRUST.

Mas, sobretudo, in the Constitution we trust.

Porque ministros passam, turmas mudam, maiorias se formam e se desfazem.

A Constituição, não.

E é justamente por isso que todas essas movimentações precisam ser acompanhadas pela sociedade com atenção, independência e espírito crítico.