Política e Resenha

DARK HORSE: QUANDO O DINHEIRO É “PRIVADO”, MAS A PERGUNTA É PÚBLICA

DARK HORSE: QUANDO O DINHEIRO É “PRIVADO”, MAS A PERGUNTA É PÚBLICA

Padre Carlos

Há frases que envelhecem mal. Algumas envelhecem tão mal que, quando a realidade chega, precisam ser escondidas no porão da política, ao lado das promessas de campanha que ninguém mais quer lembrar. A de Flávio Bolsonaro sobre o dinheiro destinado ao filme Dark Horse corre esse risco.

O argumento é singelo, quase infantil em sua simplicidade: não há problema algum porque o dinheiro seria privado. Pronto. Caso encerrado. Pode guardar a lupa, desligar a Polícia Federal, fechar os arquivos e devolver as perguntas ao almoxarifado da República.

Só que há um pequeno inconveniente: dinheiro não se torna necessariamente “privado” porque alguém pronunciou a palavra “privado” diante de uma câmera de televisão.

E é justamente aí que a história começa a ficar interessante.

Flávio Bolsonaro repetiu que não havia “um centavo de dinheiro público” no filme. A afirmação seria reconfortante se a questão fosse apenas descobrir se o cheque tinha ou não o carimbo “Tesouro Nacional”. Mas não é. A pergunta relevante é outra: qual é a origem dos recursos, por quais caminhos eles circularam e qual foi sua destinação?

É uma diferença elementar.

Mas, na política brasileira, às vezes o elementar precisa ser explicado como se estivéssemos diante de uma plateia que acabou de chegar de Marte.

O velho truque do “é privado”

O problema da expressão “dinheiro privado” é que ela pode ser verdadeira e, ainda assim, não responder à pergunta que interessa.

Se um empresário movimenta recursos cuja origem está sob investigação, dizer que o dinheiro pertence a uma empresa privada não encerra absolutamente nada. O que importa é saber de onde veio, como chegou até ali e para onde foi.

É como descobrir uma mala cheia de dinheiro dentro de um carro e ouvir do motorista:

— A mala é particular.

Muito bem.

E o dinheiro?

Silêncio.

Quem colocou?

Silêncio.

Por quê?

Silêncio.

Para onde iria?

Silêncio.

Mas a mala é particular!

Excelente. A República agradece a contribuição à ciência jurídica.

É esse o ponto que a investigação precisa esclarecer. Não basta repetir que a relação era privada. É preciso demonstrar documentalmente a origem e a finalidade dos recursos.

E aqui entra a ironia involuntária da política: quanto mais se repete que não há nada a esconder, mais importante se torna explicar aquilo que está sendo perguntado.

Dino não “derrubou” uma frase. A investigação derruba uma simplificação

Convém fazer uma distinção importante.

Não é correto transformar uma investigação em sentença antecipada. Flávio Dino não precisa “provar que Flávio Bolsonaro mentiu” para que as perguntas sejam legítimas. A função de uma investigação é justamente descobrir se aquilo que foi dito corresponde aos fatos.

A decisão que autoriza ou impulsiona diligências não condena ninguém.

Mas também não absolve ninguém.

E esse detalhe parece escapar à torcida organizada da política.

O que a atuação de Dino faz, segundo as informações apresentadas, é colocar sob investigação uma dimensão que a narrativa política tentava manter convenientemente separada: a relação entre dinheiro privado, estruturas empresariais, emendas parlamentares, agentes públicos e eventuais mecanismos de circulação ou dissimulação de recursos.

Aí o filme deixa de ser apenas filme.

E passa a ser documento.

Ou, pelo menos, objeto de investigação.

O “Dark Horse” pode ser apenas um filme. Mas a investigação não pode ser um roteiro

Aqui mora a parte mais deliciosa — e mais grave — da história.

O nome Dark Horse parece ter saído de um manual de marketing hollywoodiano. Cavalo negro. Mistério. Segredo. Surpresa.

Só faltou combinar com a realidade.

Porque, segundo as informações apresentadas sobre a investigação, o filme aparece como uma possível peça dentro de uma estrutura muito maior, envolvendo empresas, organizações, emendas parlamentares e personagens ligados ao universo político.

Se isso for confirmado, o filme será o que toda boa produção cinematográfica procura ser: apenas a ponta visível de uma história muito maior.

Mas atenção: se.

Porque investigação é investigação.

Suspeita é suspeita.

Prova é prova.

Condenação é condenação.

Misturar essas quatro coisas seria reproduzir exatamente o tipo de expediente que se pretende denunciar.

Agora, uma coisa é absolutamente legítima: perguntar.

E perguntar muito.

Afinal, onde está o dinheiro?

Onde está o dinheiro?

Quanto foi solicitado?

Quanto foi efetivamente transferido?

Por quem?

Para qual empresa?

Qual contrato amparou a operação?

Qual foi a origem dos recursos?

Quem recebeu?

Quem prestou o serviço?

Qual serviço foi efetivamente prestado?

Houve correspondência entre o valor pago e aquilo que foi entregue?

Houve dinheiro público direta ou indiretamente envolvido?

Houve emendas parlamentares?

Houve organizações intermediárias?

Houve empresas relacionadas aos mesmos personagens?

Houve transferência para estruturas no exterior?

E, principalmente: o dinheiro destinado ao filme foi realmente utilizado no filme?

Não há nada de extraordinário nessas perguntas.

Extraordinário seria imaginar que elas não podem ser feitas.

O argumento eleitoral começa a fazer água

É justamente nesse ponto que a tese eleitoral de Flávio Bolsonaro enfrenta seu maior problema.

Se a narrativa era:

“É uma relação privada entre particulares com dinheiro privado para uma finalidade privada”,

então bastaria apresentar os documentos e encerrar o assunto.

Seria simples.

Contratos.

Notas fiscais.

Comprovantes bancários.

Prestação de contas.

Fluxo financeiro.

Origem dos recursos.

Destino final.

Pronto.

Mas quando uma história aparentemente simples começa a exigir mapas, organogramas, operações policiais, documentos apreendidos, emendas parlamentares e explicações sobre estruturas empresariais, talvez já não seja tão simples assim.

Eis a diferença entre dizer que não há problema e demonstrar documentalmente que não há problema.

A primeira coisa cabe numa entrevista.

A segunda cabe num processo.

A ironia da “perseguição”

E aí surge outro clássico do repertório político nacional: a perseguição.

Quando a investigação começa, aparecem os suspeitos de sempre.

Perseguição!

Perseguição política!

Abuso!

Invenção!

Narrativa!

Ora, se não há nada de errado, existe uma solução maravilhosamente antipática para o discurso político: apresentar os documentos.

Documento tem uma característica desagradável para quem vive de retórica: não se comove com discurso.

Uma nota fiscal não se emociona.

Um extrato bancário não vota.

Um contrato não tem ideologia.

Uma transferência internacional não pertence à esquerda nem à direita.

O dinheiro, esse sujeito misterioso, não costuma respeitar discursos patrióticos.

E a velha demonização da Lei Rouanet?

A ironia fica ainda maior quando se lembra de quanto tempo setores da direita brasileira gastaram transformando a Lei Rouanet no grande vilão nacional.

A Rouanet pode e deve ser discutida.

Pode-se questionar critérios, mecanismos, concentração de recursos, transparência e resultados.

Tudo isso é legítimo.

Mas existe uma diferença entre criticar um mecanismo público de incentivo cultural e defender, por conveniência política, qualquer circulação de dinheiro privado como se a palavra “privado” funcionasse como uma indulgência plenária.

Dinheiro privado também pode ser investigado.

Empresa privada pode cometer crime. Pessoa privada pode cometer crime. Contrato privado pode ser fraudulento. Empresa privada pode participar de esquema com agente público. Dinheiro privado pode ter origem ilícita. E dinheiro público pode ser desviado por particulares.

A Constituição não criou uma zona franca moral para o setor privado.

A conta não fecha com discurso

O caso narrado pela imprensa ainda envolve suspeitas relacionadas a organizações, emendas parlamentares e empresas. Se as informações forem confirmadas pelas autoridades competentes, estaremos diante de algo muito mais sério do que uma discussão sobre um filme.

Porque aí o problema não será Dark Horse.

O problema será a arquitetura financeira que eventualmente esteve por trás dele.

E arquitetura é uma coisa interessante: quando o prédio parece grande demais para a planta apresentada, alguém naturalmente pergunta quem desenhou a obra.

É exatamente isso que precisa ser descoberto.

Sem espetáculo.
Sem condenação antecipada.
Sem blindagem partidária.
Sem paixão de torcida.

E, sobretudo, sem essa extraordinária teoria segundo a qual todo dinheiro privado nasce automaticamente inocente, cresce inocente e morre inocente.

O filme ainda nem estreou, mas a pergunta já tem protagonista

Há algo quase cinematográfico nisso tudo.

Um filme chamado Dark Horse.

Um banqueiro no centro de uma investigação gigantesca.

Empresas.

Políticos.

Emendas.

Organizações.

Dinheiro.

Exterior.

Contratos.

E, no meio do roteiro, um personagem repetindo:

— É privado.

Talvez seja.

Talvez não seja.

É exatamente isso que a investigação precisa descobrir.

E aqui está o ponto que deveria encerrar a discussão: ninguém está pedindo que Flávio Bolsonaro seja condenado por antecipação. Está-se pedindo que ele explique, com documentos, aquilo que afirma ser perfeitamente regular.

Se é tudo tão simples, melhor ainda.

Abra-se a contabilidade.

Mostrem-se os contratos.

Mostrem-se os pagamentos.

Mostrem-se os beneficiários.

Mostre-se a origem.

Mostre-se o destino.

E pronto.

O caso acaba.

Só existe um problema para quem prefere a retórica à transparência: quando a documentação confirma a versão, a investigação perde força. Quando a documentação não confirma, a investigação ganha força.

É assim que funciona.

Chama-se realidade.

No Brasil, às vezes o cavalo escuro é a própria pergunta

Talvez Dark Horse seja apenas um filme.

Talvez tenha sido apenas um negócio privado.

Talvez todas as suspeitas desapareçam quando os documentos forem examinados.

Ótimo.

Que desapareçam.

Mas, se há uma investigação em andamento, a obrigação de quem está sob questionamento não é gritar mais alto.

É explicar melhor.

Porque há uma diferença monumental entre “não há nada” e “aqui estão os documentos que demonstram que não há nada”.

A primeira frase é política.

A segunda é prova.

E, no fim das contas, o problema de todo discurso baseado exclusivamente na palavra “privado” é muito simples:

dinheiro pode ser privado; a pergunta, quando envolve interesse público, não é.

E se o cavalo realmente é apenas um cavalo, ninguém precisa ter medo de levantar sua sela.

Só não vale descobrir depois que, embaixo dela, havia uma mala.

E muito menos perguntar, diante da mala:

— Mas a mala é privada, não é?

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PADRE CARLOS

Política comentada, verdade antes da tribo.

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