Política e Resenha

ENQUANTO HÁ TEMPO

“`html

Reflexão • Memória • Vida

Por Edvaldo Paulo de Araújo

A
gente nunca sabe quando um gesto é o último. Aquela despedida rápida na porta. O “tchau, já volto”. O abraço meio sem vontade porque está com pressa. O “depois a gente conversa” que vai ficando.

A realidade é simples: vivemos como se fôssemos eternos e como se todos ao nosso redor também fossem. E, de repente, o “ainda dá tempo” vira o doloroso “não deu tempo”.

“Enquanto há tempo, transforme os gestos automáticos em gestos de amor. O café que você serve. A mensagem de ‘chegou bem?’. O ‘obrigado’. Faça com alma.”

Caprichar nas despedidas

Ainda enquanto há tempo de caprichar nas despedidas. Não fazer cena, mas fazer presença. Olhar no olho. Dar um abraço de três segundos a mais. Dizer “se cuida” como quem realmente quer que a pessoa se cuide.

Enquanto há tempo, transformar os gestos automáticos em gestos de amor. O café que você serve. A mensagem perguntando se a pessoa chegou bem. O “obrigado”. A gente faz tanta coisa no automático, mas aquele pode ser o último gesto que o outro vai receber de nós. Então faça com alma.

Enquanto há tempo, pedir perdão sem esperar um velório. Muita gente só pede perdão diante de um túmulo. O “ainda há tempo” é justamente um convite para não deixar a culpa virar lápide. Ligue. Mande um áudio. Volte lá.

Uma lembrança que ficou

“Mãe, vou amanhã”

Uma lembrança doida inclui minha mãe. Eu trabalhava semanalmente em Salvador e cheguei em Conquista numa quinta-feira cedo. Trabalhei os outros dias até a madrugada para fechar o balanço geral da empresa.

Era o dia de jantar com minha amada mãe, Nede Araújo, mas eu estava moído da jornada de Salvador. Liguei para ela e disse que estava muito cansado e que iria na sexta-feira à noite.

“Mãe, vou amanhã.”

E ela respondeu: “Vá descansar, meu filho.”

Na sexta-feira pela manhã, ela morreu.

Não foi falta de amor. Foi cansaço. E o amor estava ali, no telefonema mesmo. Liguei. Avisei. Tinha o jantar marcado, avisei. Mas ficou para sempre martelando em mim, na casa do amor, aquela frase que tantas pessoas conhecem depois que já não há como voltar: “se eu tivesse ido…”

O afago que o tempo não levou

Nunca abandonei minha mãe em sua dor e necessidade, assim como nunca abandonei minha família. Depois dos nossos jantares, ela sentava no sofá e eu deitava com a cabeça no seu colo. Ela afagava meus cabelos e conversávamos sobre tudo.

“Até hoje, depois de 30 anos, os meus cabelos sentem seu afago.”

Foi uma dura lição que ficou como aprendizado. A dor que senti naquela manhã virou justamente este texto: “Enquanto Há Tempo”. Minha mãe, sem querer, deixou-me essa missão: lembrar às pessoas que não deixem para amanhã o abraço que pode ser dado hoje.

A vida não pede licença

Recentemente, em agosto de 2026, o cantor português J. Dos Santos lançou uma canção sobre esse mesmo tema. Vale escutá-la depois desta leitura. A mensagem encontra a mesma ferida e o mesmo aprendizado: a vida passa sem pedir licença, enquanto nós corremos atrás de tantas coisas e, às vezes, esquecemos justamente aquilo que nos traz paz.

Pensamos que teremos sempre amanhã. Guardamos palavras, adiamos abraços, economizamos demonstrações de carinho como se houvesse uma garantia secreta de reencontro. Mas ninguém sabe quanto tempo terá.

Abrace enquanto pode.

Diga aquilo que guardou no coração.

Não deixe para outro dia o carinho que pode oferecer hoje.

Um café partilhado pela manhã. Uma conversa sem olhar para o relógio. O sorriso de quem nos conhece mesmo quando o mundo parece confuso. São essas pequenas coisas que, um dia, vamos querer recordar.

Não são os bens que ficam conosco. São as pessoas que soubemos amar. Talvez não possamos mudar o mundo nem impedir o tempo de passar, mas podemos deixar amor pelo caminho em cada pessoa que encontrarmos.

O único tempo que existe

Há coisas na vida que só percebemos quando já não temos como voltar atrás. Enquanto estamos no meio delas, tudo parece normal. Adiamos palavras, deixamos gestos por fazer e acreditamos que ainda haverá tempo.

Eckhart Tolle, em O Poder do Agora, chama atenção para uma armadilha humana recorrente: passamos boa parte da existência presos ao passado, remoendo ações que não podem mais ser alteradas, ou projetados num futuro que sequer sabemos se viveremos.

“Esquecemos o único tempo que temos: o AGORA.”

Se o agora é tudo o que temos, então o amor tem que ser agora. O perdão tem que ser agora. O abraço tem que ser agora. O amanhã é uma ideia. O agora é onde a vida acontece.

Faça luz onde estiver

Onde estiver, faça desse lugar um espaço de muita luz. Valorize as pessoas ao seu redor com amor, disponibilidade e afeto.

Se quer um mundo melhor, saiba sempre que ele começa por você.

Jesus, Mestre amado, ensina que tudo começa quando temos consciência da vida, do amor, do perdão e do servir. A luta do Mestre é para que façamos um mundo de amor e compaixão e que o tornemos melhor justamente onde estivermos.

Enquanto há tempo…

Pensemos nos adeuses mal formulados. Nessas despedidas rápidas porque, no fundo, não acreditamos que possam ser as últimas. Estamos sempre querendo garantir o depois, como se pudéssemos.

E o depois, às vezes, não vem.

Talvez todo adeus mal formulado seja, na verdade, uma tentativa de não encarar a finitude. A gente amortece. A gente adia. A gente acredita que haverá outra oportunidade.
E segue… quando podemos.

REFLEXÃO
VIDA
AMOR
FAMÍLIA
MEMÓRIA
O AGORA

Artigo de

Edvaldo Paulo de Araújo

“O amanhã é uma ideia. Agora é onde a vida acontece.”

“`


LEIA TAMBÉM

Crônica Literária

A Rosa

Crônica Literária

O Vento, a Ausência e o Fogo

Crônica Literária

LEMBRANÇAS DOIDAS