Política e Resenha

Ruy Medeiros: da clandestinidade política à memória, ao Direito e à defesa da democracia

MEMÓRIA • HISTÓRIA • DIREITO

A trajetória do advogado, professor e historiador que atravessou o movimento estudantil, a militância comunista, a repressão da ditadura, as lutas dos trabalhadores rurais e décadas de defesa dos direitos humanos.

Há biografias que ajudam a contar uma vida. Outras ajudam a compreender uma época. A trajetória de Ruy Hermann Araújo Medeiros pertence às duas categorias. Nela se cruzam alguns dos acontecimentos mais marcantes da história brasileira da segunda metade do século XX: o movimento estudantil, a clandestinidade política, a repressão da ditadura, a reorganização das esquerdas, as lutas no campo, a redemocratização, a advocacia popular, a universidade e a preservação da memória.

Nascido em 1º de fevereiro de 1947, em Remanso, na Bahia, Ruy era filho de Alberto Medeiros Pereira e Antonieta Araújo Pereira e integrava uma família numerosa, de treze filhos. Em 1953, a família transferiu-se para Vitória da Conquista, estabelecendo-se no Alto Maron. Foi nessa cidade que se formariam raízes que atravessariam sua vida pessoal, profissional, intelectual e política.

Da Faculdade de Direito à militância política

Em 1966, Ruy ingressou na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, em Salvador. O Brasil vivia sob a ditadura instaurada em 1964, e as universidades se transformavam simultaneamente em espaços de contestação política e alvos privilegiados da vigilância do regime.

Foi nesse ambiente que sua participação política ganhou intensidade. Ruy integrou o movimento estudantil e militou no Partido Comunista do Brasil, o PCdoB. A documentação histórica disponível mostra que não se tratava apenas de uma aproximação ideológica: sua atuação alcançou responsabilidades dentro da estrutura partidária.

A história de Ruy Medeiros atravessa uma geração para a qual fazer política, em determinados momentos, significava também conviver com clandestinidade, perseguição, prisão e o risco permanente imposto pelo aparelho repressivo do Estado.

No final dos anos 1960, ele passou da militância de base para funções de maior responsabilidade. Pesquisas sobre a organização do PCdoB na Bahia registram que, em 1969, Ruy Medeiros e Demerval Pereira ascenderam na estrutura partidária. Posteriormente, Ruy integrou o Comitê Regional do PCdoB na Bahia, exercendo função dirigente aproximadamente entre 1969 e 1971.

Entre suas atribuições estava o trabalho de organização política junto a estudantes secundaristas e universitários. Eram os anos imediatamente posteriores às grandes mobilizações estudantis de 1968 e à edição do Ato Institucional nº 5, que aprofundou a repressão política no país.

Quando a repressão chegou à universidade

A militância teve consequências concretas sobre sua formação universitária. Documentação da Comissão Milton Santos de Memória e Verdade da UFBA registra que Ruy havia ingressado em Direito em 1966, mas teve sua matrícula indeferida em 1969 e novamente em 1970, sob a justificativa de “motivos superiores”.

Em fevereiro de 1969, a Polícia Federal comunicara à Reitoria que ele estava sendo investigado por suposta prática de delito contra a segurança nacional. Ruy e outros estudantes recorreram à Justiça, impetrando mandado de segurança para tentar assegurar o direito à matrícula.

UM DETALHE HISTÓRICO IMPORTANTE

Algumas referências secundárias chegaram a reproduzir a informação de que Ruy teria sido “expulso da UFBA em 1966”. A cronologia documental indica outra coisa: 1966 foi justamente o ano de seu ingresso. Os indeferimentos documentados de matrícula ocorreram a partir de 1969.

Impedido de seguir normalmente sua formação na UFBA, transferiu-se para a Universidade Católica do Salvador, onde concluiu o curso de Direito em 1971.

O retorno a Vitória da Conquista

No final de 1971, Ruy retornou a Vitória da Conquista. Segundo pesquisas sobre a militância do PCdoB naquele período, recebeu a incumbência de desenvolver o chamado “trabalho político legal”, especialmente entre médicos, professores, intelectuais e profissionais liberais.

O movimento estava relacionado à estratégia de interiorização partidária. A rede alcançava cidades como Vitória da Conquista, Itabuna, Ilhéus, Camacã e Caetité, e fontes sobre aquele período fazem referência a uma estrutura regional conhecida entre militantes como “Comitê do Sul da Bahia”.

26 de maio de 1973: prisão e repressão

Em 26 de maio de 1973, um episódio mudaria profundamente sua trajetória. Naquele dia, Ruy encontrou-se no centro de Vitória da Conquista com Antônio Calazans, ligado à rede clandestina. Segundo a documentação estudada por pesquisadores da história do PCdoB, anteriormente Ruy recebera a incumbência de entregar a Calazans um pacote contendo medicamentos e dinheiro.

A repressão, entretanto, acompanhava os movimentos daquela estrutura política.

Depois do encontro, Ruy seguiu para seu escritório. Ali percebeu a presença de policiais armados.

Foi preso.

A pesquisa histórica relata que ele foi levado para instalações da Polícia Federal e para unidades militares em Salvador, entre elas o Forte de São Joaquim e o Forte do Barbalho. Segundo depoimentos e documentação examinados por pesquisadores, Ruy foi submetido a interrogatórios e torturas durante cerca de quinze dias e posteriormente permaneceu aproximadamente três meses no Quartel de Amaralina.

Seu escritório em Vitória da Conquista também teria sido ocupado por agentes do aparato repressivo, que aguardavam eventuais contatos de outros militantes.

Posteriormente, registro do Superior Tribunal Militar incluiu Ruy Hermann Araújo Medeiros entre os acusados absolvidos da imputação relacionada ao artigo 43 do Decreto-Lei nº 898/1969, em processo da Auditoria da 6ª Circunscrição Judiciária Militar.

Da militância comunista à advocacia popular

A trajetória partidária de Ruy não permaneceu inalterada. Registros acadêmicos o identificam como ex-dirigente do Comitê Regional do PCdoB entre 1969 e 1971, integrante da base de Vitória da Conquista em 1972 e 1973 e, posteriormente, participante de uma dissidência no final da década de 1970.

Mas o afastamento daquela estrutura partidária não significou afastamento das questões sociais. Sua atuação passou a encontrar na advocacia outro campo de participação pública.

Militância estudantil, organização partidária e advocacia ligada aos movimentos populares formam capítulos distintos, mas historicamente conectados, de uma mesma trajetória.

Ruy iniciou sua atividade jurídica em 1973. Sua advocacia esteve fortemente relacionada a sindicatos, trabalhadores rurais e movimentos sociais. Documentos históricos o identificam como advogado do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Vitória da Conquista. Pesquisas também registram sua assistência jurídica a posseiros envolvidos em conflitos fundiários, inicialmente por contratação da Diocese e posteriormente em articulação com a assessoria jurídica da FETAG.

A greve do café e as lutas do campo

Sua história também se cruza com um capítulo decisivo da formação econômica e social do Sudoeste baiano: a expansão da cafeicultura e a organização de seus trabalhadores.

Documentos produzidos pelos próprios órgãos de informação do período identificavam Ruy entre os articuladores das mobilizações dos trabalhadores do café de Vitória da Conquista e Barra do Choça.

Ele posteriormente transformaria essa experiência também em objeto de reflexão histórica. Em novembro de 1980 publicou, no Caderno do CEAS, nº 70, o estudo “A Greve dos Trabalhadores na Cultura do Café”, examinando a formação dos trabalhadores rurais ligados à cafeicultura, suas condições de vida e trabalho e o processo de organização que desembocou na mobilização.

Da dissidência à formação do PT

Após seu afastamento do PCdoB, Ruy participou do processo de formação do Partido dos Trabalhadores em Vitória da Conquista, no contexto da reorganização política que acompanhou a abertura do regime militar.

Em 1982, foi candidato a prefeito de Vitória da Conquista pelo PT, tendo o trabalhador rural Noeci Ferreira Salgado como candidato a vice. Anos depois, Ruy também se afastaria do Partido dos Trabalhadores. Em entrevista concedida em 2014, declarou que já havia deixado a legenda havia bastante tempo e que naquele momento não pertencia a partido institucional.

O historiador por trás do advogado

Reduzir Ruy Medeiros à sua trajetória partidária, contudo, seria deixar de lado uma dimensão fundamental de sua vida: a produção intelectual sobre Vitória da Conquista e a história regional.

Ainda em 1977, publicava no jornal Fifó – Ensaios Conquistenses trabalhos como “Aspecto urbano de Conquista através da história”, “O gado e os primórdios de Conquista” e “O processo histórico conquistense: traços gerais”.

Ao longo das décadas seguintes, desenvolveu estudos sobre história regional, memória, educação, movimentos sociais e política. A experiência de quem testemunhara acontecimentos históricos passou, assim, a conviver com o trabalho de quem procurava documentá-los e interpretá-los.

Professor, mestre e doutor em Memória

Na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, sua presença também ganhou dimensão institucional. Depois de participar de atividades docentes desde os primeiros anos da instituição, ingressou definitivamente no corpo docente do curso de Direito da UESB em 1999, atuando em áreas como Teoria da Constituição e Direito Constitucional.

Na própria universidade, aprofundou sua formação acadêmica no campo da memória. Seu mestrado abordou “História Local e Memória: Corografia, Revista e Crônica em Vitória da Conquista”. Em 2015, concluiu o doutorado com a tese “Memória compartilhada e História: entre alienação e ideologia”.

Na relação institucional referente ao quadriênio 2025–2028, aparece como professor colaborador do Programa de Pós-Graduação em Memória: Linguagem e Sociedade da UESB.

OAB, direitos humanos e memória da ditadura

Sua atuação na advocacia institucional também alcançou diferentes espaços. Ruy integrou a primeira Comissão de Direitos Humanos da OAB na Bahia, presidiu a Subseção da Ordem em Vitória da Conquista, foi conselheiro estadual e chegou ao Conselho Federal da OAB.

Em 2013, foi nomeado vice-presidente da Comissão Especial da Memória, Verdade e Justiça do Conselho Federal da OAB, voltada à preservação e investigação da memória da participação da advocacia na resistência ao regime de 1964–1985.

A VOLTA DA HISTÓRIA

Há uma poderosa dimensão histórica nesse percurso: o estudante perseguido pelo Estado e preso durante a ditadura tornou-se, décadas depois, integrante de uma comissão dedicada justamente à preservação da memória daquele período.

Em 2018, a Subseção da OAB de Vitória da Conquista criou o Prêmio Ruy Medeiros de Direito Público. Em 2021, ele recebeu do Tribunal Regional Eleitoral da Bahia a Comenda da Cidadania Desembargador Jatahy Fonseca.

2026: um diploma, quase seis décadas depois

Em 2026, a história produziu uma de suas imagens mais simbólicas.

A Universidade Federal da Bahia concedeu a Ruy Medeiros um diploma simbólico do curso de Direito, em ato apresentado como reparação histórica pelo impedimento que sofrera de prosseguir normalmente seus estudos naquela instituição durante a ditadura.

Quase seis décadas separavam o jovem estudante cuja matrícula fora impedida do professor, advogado e pesquisador que retornava simbolicamente à universidade para receber aquele diploma.

O diploma não altera o passado. Mas registra, para o presente e para o futuro, que aquilo que um dia foi tratado como questão de repressão política também pertence à memória histórica das instituições brasileiras.

Uma vida atravessada pela História

Ruy Hermann Araújo Medeiros pode ser estudado sob muitos ângulos. Foi militante estudantil. Integrou a direção regional do PCdoB. Foi preso durante a ditadura e posteriormente absolvido no processo da Justiça Militar citado pelas fontes. Rompeu com o partido ao qual pertencera. Participou da formação do PT em Vitória da Conquista. Defendeu trabalhadores rurais e posseiros. Acompanhou e documentou a luta dos trabalhadores do café. Tornou-se professor, pesquisador, historiador, dirigente da OAB e participante de iniciativas de direitos humanos e memória.

Não é necessário transformar essa trajetória em mito para reconhecer sua relevância histórica. Pelo contrário: compreendê-la exige preservar suas mudanças, rupturas e diferentes fases. A militância comunista foi parte importante de sua vida, mas não sua totalidade. Assim como a advocacia, a universidade, a pesquisa histórica e a defesa dos direitos humanos constituíram capítulos posteriores de uma caminhada de muitas décadas.

Há ainda uma particularidade que torna sua biografia especialmente relevante para Vitória da Conquista: Ruy não foi apenas alguém que estudou a história da cidade. Em diferentes momentos, participou dos próprios acontecimentos que mais tarde se tornariam objeto da história regional.

Entre o jovem que ingressou na Faculdade de Direito em 1966 e o intelectual homenageado pela UFBA seis décadas depois existe uma longa sucessão de escolhas, conflitos, perseguições, rupturas e reconstruções. Recuperá-las documentalmente significa também recuperar fragmentos da história política, jurídica, universitária e social do Sudoeste da Bahia e do próprio Brasil.

REFERÊNCIAS E BASE DOCUMENTAL

Pesquisa histórica sobre a militância do PCdoB em Salvador e na Bahia (1965–1973); documentação da Comissão Milton Santos de Memória e Verdade da UFBA; registros da Justiça Militar; estudos acadêmicos sobre movimentos sociais, cafeicultura e conflitos rurais no Sudoeste baiano; registros institucionais da UESB, OAB e TRE-BA; e documentação referente ao ato de reparação histórica promovido pela UFBA.

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