Política e Resenha

O amor que desce ao inferno

Literatura • Filosofia • Amor

O amor que desce ao inferno

Quando amar é milagre — ou loucura

Por Padre Carlos

Existem amores que nascem de anos de convivência. De cafés divididos, viagens, discussões, reconciliações, domingos preguiçosos, fotografias envelhecendo dentro de gavetas. Existem amores construídos lentamente, tijolo por tijolo, até que duas vidas já não saibam exatamente onde termina uma e começa a outra.

E existem outros.

Existem presenças que mal passam pela nossa vida e, inexplicavelmente, ficam.

Pessoas que estiveram conosco por tão pouco tempo que seria razoável esquecê-las — mas que ocupam dentro de nós um lugar que décadas inteiras não conseguem apagar.

Talvez nenhuma história da literatura tenha transformado esse mistério em algo tão grandioso quanto Dante Alighieri fez com Beatriz.

Na Vita Nuova, Dante conta que a viu pela primeira vez quando ambos estavam por volta dos nove anos. Exatamente nove anos depois, voltou a encontrá-la numa rua. Ela estava vestida de branco. Olhou em sua direção e o cumprimentou. Para qualquer outra pessoa, talvez aquilo tivesse durado alguns segundos.

Para Dante, durou uma vida.

Ele escreveu que aquele cumprimento lhe pareceu tocar os limites da própria beatitude.

“Como pode um gesto tão pequeno ocupar um espaço tão grande?”

Como pode alguém que esteve fisicamente tão pouco presente tornar-se uma presença gigantesca dentro de outra pessoa?

Talvez porque o coração não saiba contar o tempo como os relógios contam.

Há pessoas que permanecem pelo número de anos que ficaram.

Outras permanecem pela profundidade do lugar que tocaram.

E Beatriz tocou alguma coisa em Dante que nunca mais voltou a ser a mesma.

A história concreta dos dois não foi o grande romance que a imaginação contemporânea talvez desejasse encontrar. A Beatriz histórica e a Beatriz que atravessa os versos de Dante também não podem ser confundidas ingenuamente. Ao longo de sua obra, aquela mulher real é transformada em memória, símbolo, poesia, teologia, graça e transcendência.

Talvez seja justamente aí que a história se torne ainda mais impressionante.

Porque a pergunta deixa de ser apenas:

Dante amava Beatriz?

E passa a ser:

O que Beatriz despertou em Dante para que ele precisasse de uma vida inteira — e de uma das maiores obras da literatura — para tentar explicar?

Um homem perdido

Décadas passam.

Dante já não é o menino que observou uma garota pela primeira vez.

É um homem ferido pela vida, pela política, pelos conflitos de seu tempo e pelo exílio.

E então ele escreve uma das imagens mais poderosas que a humanidade produziu sobre estar perdido:

“No meio do caminho de nossa vida…”

Dante desperta numa selva escura.

Não sabe exatamente como chegou ali.

O caminho correto desapareceu.

Há feras.

Há medo.

Há escuridão.

Há a sensação terrível de que talvez ele já não consiga retornar sozinho.

É impossível atravessar sete séculos de distância e não reconhecer essa floresta.

Porque existem momentos em que todos nós entramos nela.

A floresta de Dante pode ter árvores, sombras e animais ameaçadores.

A nossa pode receber outros nomes.

Luto.

Fracasso.

Culpa.

Solidão.

Medo.

Depressão.

Desilusão.

A perda de alguém.

A perda de nós mesmos.

Existe uma hora na vida em que a pergunta deixa de ser “para onde estou indo?” e passa a ser:

“Como foi que eu me perdi tanto?”

É nesse momento que surge Virgílio.

O grande poeta romano.

A inteligência.

A cultura.

A experiência.

A razão.

Virgílio chega para conduzir Dante pelo Inferno e pelo Purgatório.

Mas Dante pergunta algo fundamental:

Por que você veio?

E então acontece uma das revelações mais belas de toda a Divina Comédia.

Virgílio não apareceu por acaso.

Alguém o mandou.

Beatriz.

No Canto II do Inferno, Virgílio conta que estava no Limbo quando Beatriz veio até ele e pediu que socorresse Dante. A cena faz parte de uma cadeia de auxílio que, no poema, envolve também Lúcia e Maria; Beatriz, porém, é quem desce até Virgílio e o coloca em movimento.

E então ela pronuncia uma frase que atravessaria os séculos:

“Amor mi mosse, che mi fa parlare.”

O amor me moveu.

Talvez toda a Divina Comédia esteja escondida dentro dessas poucas palavras.

Porque o amor verdadeiro, para Dante, não permanece imóvel.

O amor percebe.

O amor se preocupa.

O amor se move.

O amor desce.

Ela poderia ter permanecido no céu

Pense na força dessa imagem.

Beatriz pertence à luz.

Dante está mergulhado na escuridão.

Ela está entre os bem-aventurados.

Ele não consegue sequer encontrar sozinho a saída da floresta.

E o que separa os dois já não é uma rua de Florença.

É a própria morte.

Mesmo assim, no universo poético criado por Dante, ela percebe que ele está perdido.

E intervém.

Amar alguém é não aceitar com indiferença a sua perdição.

Há amores que querem possuir.

Há amores que exigem.

Há amores que aprisionam.

Há aquilo que chamamos de amor quando, na verdade, é dependência, ego, medo de perder, obsessão ou necessidade de controle.

Mas existe uma outra forma.

Mais difícil.

Mais rara.

É o amor que deseja que o outro seja salvo — mesmo quando não pode possuí-lo.

É o amor que pergunta menos:

“Você será meu?”

e mais:

“Você ficará bem?”

Talvez por isso a imagem de Beatriz seja tão poderosa.

Ela não desce para cobrar alguma coisa de Dante.

Não desce para ser escolhida.

Não desce para exigir reconhecimento.

Ela desce porque ele está perdido.

Talvez a maior declaração de amor da Divina Comédia não seja um “eu te amo”.

Talvez seja simplesmente isto:

Há um homem perdido. Vão buscá-lo.

Quando a razão já não consegue continuar

Mas Dante constrói algo ainda mais profundo.

Virgílio salva Dante de inúmeras situações.

Ele explica.

Argumenta.

Ensina.

Protege.

Corrige.

Mostra caminhos.

Virgílio representa, entre outras coisas, a extraordinária capacidade humana da razão.

E a razão é indispensável.

Ela consegue nos retirar de muitos infernos.

Consegue separar verdade de ilusão.

Consegue desmontar medos.

Consegue organizar o caos.

Consegue nos ensinar a caminhar.

Mas Dante impõe a Virgílio um limite.

Ele não pode conduzi-lo até o fim.

No alto do Purgatório, chega o momento em que sua missão termina. Beatriz assume então o lugar de guia de Dante na passagem para a etapa seguinte da jornada.

E essa passagem possui uma força simbólica extraordinária.

Porque talvez existam lugares da existência aos quais a inteligência consegue nos levar.

E outros aos quais ela simplesmente não alcança.

Há noites em que argumentos não bastam.

Há dores que nenhuma explicação consegue eliminar.

Há momentos em que você conhece perfeitamente a lógica de tudo o que está acontecendo — e continua sofrendo.

Você sabe.

Você entende.

Você racionaliza.

E ainda dói.

Virgílio nos leva muito longe.

Mas há um ponto em que Virgílio precisa parar.

E Beatriz continua.

A razão pode nos ensinar a atravessar muitos infernos. Mas existem caminhos em direção à luz que somente o amor consegue mostrar.

Milagre ou loucura?

É claro que existe alguma loucura nisso tudo.

Que nome dar a um homem capaz de carregar por décadas a lembrança de alguém que esteve tão pouco ao seu lado?

Que nome dar ao poeta que pega uma mulher mortal e a coloca entre as estrelas?

Que transforma um cumprimento numa memória eterna?

Que desafia o desaparecimento escrevendo?

Talvez seja loucura.

Talvez seja milagre.

Talvez os grandes amores sempre tenham alguma coisa dos dois.

Porque amar profundamente é aceitar uma quantidade razoável de absurdo.

É guardar uma voz quando ela já não pode ser ouvida.

É lembrar de um gesto que o outro talvez nem soubesse que fez.

É carregar durante anos uma frase que alguém pronunciou em poucos segundos.

É descobrir que uma pessoa pode ter ido embora da nossa vida sem jamais ter ido embora de nós.

Mas é necessário cuidado.

A grandeza literária de Dante não transforma obsessão em virtude.

Não significa que qualquer idealização seja saudável.

Nem que sofrer por alguém seja automaticamente prova de amor.

O que torna Beatriz extraordinária dentro da obra não é simplesmente o fato de Dante não conseguir esquecê-la.

É aquilo em que ele transforma essa lembrança.

A memória não o leva apenas para trás.

Ela o empurra para cima.

Beatriz se torna direção.

A vingança contra o esquecimento

Há alguma coisa profundamente humana no que Dante fez.

Beatriz morreu em 1290. Dante continuou vivendo.

E essa é uma das crueldades mais silenciosas da existência:

O mundo continua depois que alguém que amamos desaparece.

As ruas continuam cheias.

As pessoas continuam comprando pão.

As manhãs continuam chegando.

Outros nascem.

Outros se apaixonam.

Outros ocupam as casas.

E o tempo, indiferente, começa seu trabalho.

Apagar.

Apagar vozes.

Apagar rostos.

Apagar histórias.

Talvez escrever tenha sido a maneira de Dante dizer:

Não esta.

Esta você não levará.

Ele não conseguiu impedir que Beatriz morresse.

Mas conseguiu realizar uma das mais extraordinárias vinganças contra o esquecimento de que a literatura é capaz.

Escreveu.

E escreveu tão profundamente que, mais de sete séculos depois, continuamos dizendo o nome dela.

Beatriz.

Uma mulher que poderia ter desaparecido entre milhões de vidas medievais atravessou os séculos dentro de um poema.

Talvez amar também seja isso: uma forma desesperada de lutar contra o esquecimento.

Não podemos impedir o tempo.

Não conseguimos deter a morte.

Não conseguimos obrigar ninguém a permanecer.

Mas às vezes conseguimos dizer:

Você existiu.

Você passou por aqui.

Você mudou alguma coisa em mim.

E enquanto eu puder contar essa história, uma parte de você continuará existindo.

Existem pessoas que não sabem que nos salvaram

Talvez seja por isso que Dante e Beatriz ainda nos atingem tão profundamente.

Porque quase todo mundo carrega alguém assim.

Talvez não seja um grande amor romântico.

Pode ser uma mãe.

Um pai.

Um professor.

Um amigo.

Uma pessoa que apareceu durante alguns meses.

Alguém que falou uma frase num dia qualquer e nunca soube que aquela frase chegou exatamente quando você estava prestes a desistir.

Há pessoas que nos salvam sem perceber que houve um naufrágio.

Pessoas que nos puxam para fora de uma floresta que sequer sabiam que existia.

Pessoas que foram embora sem descobrir que deixaram luz acesa dentro de nós.

Talvez todos tenhamos nossas pequenas Beatrizes.

E talvez sejamos a Beatriz de alguém sem jamais saber.

Isso deveria mudar a maneira como tratamos as pessoas.

Porque nunca sabemos o tamanho que um pequeno gesto poderá ocupar na memória de alguém.

Para Beatriz, talvez tenha sido um cumprimento numa rua.

Para Dante, foi beatitude.

Para ela, alguns segundos.

Para ele, literatura suficiente para atravessar séculos.

No fim, alguém percebeu que ele estava perdido

Dante atravessaria círculos infernais.

Encontraria condenados, monstros, reis, amantes, traidores, santos e almas em purificação.

Subiria a montanha do Purgatório.

Contemplaria céus.

Tentaria escrever o indizível.

Chegaria tão longe quanto talvez a imaginação poética humana já tenha tentado chegar.

Mas antes de tudo isso houve algo extremamente simples.

Um homem estava perdido.

E alguém se importou.

Talvez esteja aí uma das maiores verdades escondidas dentro dessa gigantesca obra.

Nós imaginamos que seremos salvos por acontecimentos extraordinários.

Por grandes respostas.

Por revelações.

Por milagres.

Às vezes, porém, a salvação começa de maneira muito menor.

Alguém percebe.

Alguém telefona.

Alguém volta.

Alguém pergunta se estamos bem e permanece tempo suficiente para ouvir a resposta verdadeira.

Alguém percebe que estamos entrando numa floresta escura e decide não fingir que não viu.

Não é preciso possuir alguém para amá-lo.

Não é preciso viver uma vida inteira ao lado de alguém para que essa pessoa transforme a nossa.

Nem todas as presenças precisam durar para sempre para se tornarem eternas.

Algumas apenas passam.

Mas passam tão profundamente que reorganizam tudo o que encontram dentro de nós.

Talvez por isso, tantos séculos depois, Dante e Beatriz ainda nos obriguem a fazer duas perguntas desconfortavelmente bonitas:

Por quem eu desceria até o inferno?

E, talvez ainda mais difícil:

Quem perceberia que eu estou perdido e desceria para me buscar?

Porque talvez o amor verdadeiro seja exatamente isso

“Quando alguém poderia permanecer no paraíso, mas escolhe descer até o nosso inferno apenas para nos mostrar novamente o caminho de casa.”


Dante Alighieri

Divina Comédia


Beatriz


Amor


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Filosofia

Artigo de opinião

Padre Carlos

Reflexões sobre literatura, humanidade, memória e a força transformadora do amor.


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