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eleição de 2024 em Vitória da Conquista terminou nas urnas, mas algumas das reflexões que ela deixou estão longe de terminar. Para mim, uma delas talvez seja maior do que qualquer partido, coligação ou liderança política: o que acontece quando uma mulher finalmente ocupa, pelo voto, um espaço de poder que durante toda a história política de uma cidade esteve reservado aos homens?
Vitória da Conquista precisou atravessar décadas de eleições para chegar a esse momento. Sheila Lemos, que havia assumido definitivamente a Prefeitura em março de 2021 após o falecimento do então prefeito Herzem Gusmão, tornou-se a primeira mulher a comandar o Executivo municipal. Em 2024, tornou-se também a primeira mulher eleita prefeita da cidade, recebendo 116.488 votos, correspondentes a 58,83% dos votos válidos, ainda no primeiro turno.
“Independentemente da posição política de cada um, esse é um fato histórico. E fatos históricos precisam ser observados para além das paixões eleitorais.”
Quando o resultado das urnas encontra a resistência do poder
Os acontecimentos daquela eleição me fizeram refletir muito sobre a dificuldade que determinados setores da política ainda demonstram quando estruturas tradicionais de poder são rompidas.
A candidatura de Sheila Lemos foi objeto de uma controvérsia jurídica real. O Tribunal Regional Eleitoral da Bahia chegou a indeferir seu registro, por maioria de 4 votos a 3, sob o entendimento de que poderia haver configuração de terceiro mandato consecutivo do mesmo núcleo familiar. Posteriormente, o Tribunal Superior Eleitoral reformou essa conclusão. Em março de 2025, o Plenário do TSE confirmou por unanimidade o mandato da prefeita e afastou a tese de inelegibilidade naquele caso.
Mulheres que ocupam cargos públicos não podem — e certamente não precisam — estar protegidas de críticas.
O que elas precisam estar protegidas é da violência.
Porque existe uma enorme distância entre enfrentar politicamente uma mulher e tentar diminuí-la por ser mulher; entre discordar de suas decisões e constrangê-la pela sua condição feminina; entre fazer oposição e utilizar mecanismos destinados a impedir, restringir ou dificultar o exercício dos direitos políticos de alguém em razão do sexo.
E essa diferença não é apenas moral. Ela está na lei.
Violência política contra a mulher é crime
Desde 2021, o Brasil possui uma legislação específica para prevenir, reprimir e combater a violência política contra a mulher. A Lei nº 14.192 define como violência política contra a mulher a ação, conduta ou omissão destinada a impedir, obstaculizar ou restringir seus direitos políticos e também alcança formas de distinção, exclusão ou restrição desses direitos em razão do sexo.
“Informação também é proteção.”
Muitas mulheres ainda podem sequer reconhecer determinadas situações como violência política.
Algumas convivem com ataques como se fossem simplesmente “o preço da política”. Outras podem interpretar humilhações, ameaças, constrangimentos ou tentativas de silenciamento como algo que precisam suportar para permanecer na vida pública.
E talvez este seja um dos mecanismos mais eficientes de manutenção do velho poder: convencer a vítima de que aquilo que está acontecendo com ela é normal.
Não é.
A democracia pressupõe confronto de ideias. Pressupõe oposição. Pressupõe fiscalização, investigação, cobrança e críticas duríssimas quando necessárias.
Mas nenhuma democracia precisa de misoginia para funcionar.
Nenhum adversário precisa atacar a condição feminina de uma candidata para apresentar seu projeto. Nenhum partido precisa diminuir uma mulher para crescer eleitoralmente.
E nenhuma mulher deveria precisar desenvolver uma espécie de couraça emocional apenas para exercer o mandato que recebeu nas urnas.
Noventa e quatro anos depois
Talvez exista um dado ainda mais simbólico nessa história.
As brasileiras conquistaram, em 1932, o direito de participar da escolha de seus representantes. Em 2026, portanto, são 94 anos desde a conquista do voto feminino no país.
E somente agora Vitória da Conquista experimenta a realidade de ter uma mulher eleita para comandar diretamente o seu Poder Executivo.
Durante muito tempo repetimos que as mulheres “podiam participar da política”. Mas uma pergunta precisa acompanhar essa afirmação: em quais condições?
Podiam votar.
Podiam se filiar.
Podiam ser candidatas.
Mas quantas chegavam às mesas onde as decisões realmente eram tomadas?
Quantas comandavam partidos?
Quantas montavam chapas?
Quantas controlavam estruturas eleitorais?
Quantas tinham condições políticas e financeiras semelhantes às oferecidas aos homens?
Quantas eram consideradas naturalmente preparadas para governar?
É aí que aparece aquilo que se convencionou chamar de teto de vidro.
Ele não está necessariamente escrito numa lei dizendo que determinada cadeira pertence a um homem. É justamente por ser invisível que ele sobrevive tanto tempo.
Nos costumes.
Nas relações.
Nos partidos.
Na distribuição das oportunidades.
Na forma como erros semelhantes são julgados de maneiras diferentes.
Na cobrança.
No preconceito.
E, algumas vezes, na dificuldade de aceitar que uma mulher conquistou poder próprio e legitimidade diretamente das urnas.
Eleição não é concessão
Existe outro ponto que considero essencial.
Quando uma mulher vence uma eleição, ninguém lhe “deu” aquele espaço.
Essa mudança de perspectiva é importante.
Durante séculos, a presença feminina nos centros de decisão foi tratada quase como uma autorização concedida por estruturas majoritariamente masculinas.
Já passou da hora de abandonar essa lógica.
Mulheres não precisam pedir licença para disputar o poder.
Não precisam ser convidadas para a democracia.
Elas fazem parte dela.
E aqui cabe também uma reflexão aos homens que participam da vida pública.
Nosso papel não é agir como proprietários das portas, escolhendo quais mulheres merecem atravessá-las.
Nosso papel é contribuir para que essas portas não sejam artificialmente fechadas.
É disputar ideias sem recorrer ao preconceito.
É aceitar derrotas eleitorais quando elas acontecem.
É respeitar vitórias quando elas são proclamadas.
É garantir que mulheres possam participar da política nas mesmas condições de liberdade e dignidade que reivindicamos para nós.
“Igualdade não significa ausência de confronto. Significa igualdade também no direito de confrontar e ser confrontado sem que o gênero seja transformado em arma política.”
A Justiça deve proteger direitos, não lados
Também acredito que a Justiça possui papel decisivo nesse processo.
Não para proteger uma determinada prefeita, vereadora, deputada, candidata, partido ou grupo político.
A Justiça deve proteger direitos.
É exatamente por isso que a Justiça Eleitoral existe: para julgar controvérsias, assegurar as regras do processo democrático e dar respostas dentro do devido processo legal.
Da mesma forma, quando surgirem condutas que possam configurar violência política contra mulheres, a legislação precisa produzir consequências.
Sem conveniência eleitoral.
Sem distinguir situação e oposição.
Porque violência política contra a mulher não deixa de ser violência quando praticada pelo grupo do qual gostamos, assim como uma crítica legítima não se transforma automaticamente em violência simplesmente porque é dirigida a uma mulher.
Essa maturidade será indispensável para nossas próximas eleições.
O verdadeiro significado daquele voto
Por isso, quando observo o que aconteceu em Vitória da Conquista em 2024, não enxergo apenas mais uma disputa municipal.
Enxergo um episódio que ajuda a contar como nossa sociedade se relaciona com mulheres chegando ao poder.
Pela primeira vez, uma mulher recebeu diretamente das urnas o mandato para comandar a terceira maior cidade da Bahia.
Ela deverá ser fiscalizada.
Deverá ser cobrada.
Poderá ser criticada.
Terá adversários.
Responderá pelas decisões de sua administração como qualquer governante.
Mas deverá também ter assegurado aquilo que deveria valer para qualquer mulher brasileira: o direito de disputar sem ser diminuída por ser mulher; vencer sem ter sua legitimidade atacada por preconceito; governar sem constrangimento de gênero; e permanecer na vida pública sem considerar a violência parte inevitável do cargo.
O Brasil levou quase um século desde a conquista do voto feminino para que Vitória da Conquista elegesse sua primeira prefeita.
Que esse fato não seja tratado apenas como uma fotografia histórica.
Que sirva para enxergarmos aquilo que ainda precisa mudar.
“Uma democracia verdadeiramente forte não é aquela em que as mulheres simplesmente podem votar. É aquela em que elas podem votar, ser votadas, disputar, vencer, perder, fazer oposição, governar, exercer seus mandatos, ser cobradas por seus atos e permanecer nos espaços de poder com liberdade, igualdade e dignidade.”
O teto de vidro existe justamente porque quase nunca conseguimos vê-lo.
Mas, quando ele começa a se romper, o barulho incomoda.
Talvez seja exatamente esse barulho que a política brasileira ainda esteja aprendendo a ouvir.
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